Rio Grande do Sul

AQUELE RIO GRANDE NÃO EXISTE MAIS! (Por Selvino Heck)

 

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Sartori,Temer e Eliseu “Quadrilha” comemoram o desmonte do Rio Grande e do Brasil e riem do midiotizado povo gaúcho.

Lamento informar, mas o Rio Grande do Sul que, eu e muitos de vocês conhecíamos não existe mais. Este pode ser um título provocativo, amargo, exagerado, catastrófico para a última semana de 2016 (O título original do artigo era QUE ANO!), mas os últimos acontecimentos, o pacotaço do governador Sartori aprovado pela Assembleia Legislativa, não deixaram alternativa. Não é questão de um governo a mais ou a menos. É algo mais profundo, espero que não definitivo.

Para confirmar a afirmação, basta ver trechos de entrevistas ou de artigos publicados nos últimos dias.

Escreve Flávio Tavares: “A origem de qualquer crime é sempre a ignorância. A maldade vem depois, como filha dileta nascida daquele não saber, não ver ou não entender que a beleza da vida presente está em preparar o futuro. Ou, por acaso, não é isso que ocorre com a extinção de todos os órgãos de pesquisa científica e tecnológica em que se assentou, até aqui, o desenvolvimento do Rio Grande? O ato é tão absurdo, que é impossível crer que o governador Sartori (com a maioria dos deputados) o tenha praticado por maldade ou sanha, só pelo prazer sádico de nos fazer retroceder. (…) A agressão ao bom senso vai adiante: o governador se põe na condição de proprietário dos bens do Estado e quer vender, ou leiloar, as estratégicas CEEE (já mutilada e retaliada anos atrás) e a Sulgás. (…) Esta visão de exterminar praticamente tudo o que (para assegurar o futuro) o Rio Grande construiu em um século, é tão dilacerante, que só pode ser fruto de uma visão caolha (ou cega) de Sartori e seu círculo íntimo. É difícil somar tantos erros de uma só vez por sadismo e maldade. (…) Agora, burocratas carimbadores de papéis vão avaliar as necessidades do Rio Grande, em vez de técnicos e cientistas. Retrocedemos ao século 19, como se Júlio de Castilhos, Borges, Getúlio e Brizola – nossos modernizadores – não tivessem existido. (…) Esse crime será nosso presente de Natal?” (Crimes de Natal, Zero Hora, 24 e 25/12/2016, p 27).

Tem mais, de articulistas insuspeitos em um grande jornal gaúcho ainda mais insuspeito.

“O RS faz sua parte pondo no lixo patrimônio científico precioso: estupidez máxima. (…) Vale o mesmo para as demais fundações ora extintas apressadamente, em especial a FEE (da qual, grifo meu, Dilma Rousseff foi presidente) e a Fundação Piratini (TVE e FM Cultura). São órgãos vitais. O Estado extirpa cérebro e coração, remove inteligência e sensibilidade, e pensa com isso fazer algo novo. Faz, sim. Novo grau de barbárie. Novo cenário de miséria. A lucidez do pensamento econômico e o valor inestimável dos bens simbólicos (educação e cultura) são riscados em conta de boteco, e perdemos patrimônio e potência. Sabemos que estas despesas (baixas) não são a causa estrutural do déficit do Estado, nem farão cócegas na gestão do passivo. A liderança nos leva para baixo, e produz violência, angústia e nenhuma solução (…) A justificativa para tanta irracionalidade vem desta ideologiazinha de varejo, que faz parecer que a insensatez tem algum sentido” (O custo da ignorância, Francisco Marshall, Caderno Doc, Zero Hora, 24 e 25/12/2016, p. 22).

Juremir Machado da Silva, colunista de outro jornal insuspeito, escreve: “O PMDB tem uma visão de mundo, uma ideologia e um método de governar. É seu direito. Melhor seria assumir publicamente. A visão de mundo é simples: Estado mínimo. A ideologia é o neoliberalismo. O termo andou fora de moda. Mas não deixou de existir. O método de governo é a radicalização do caos e da crise. Para a aplicação do remédio amargo. O remédio é a privatização” (Secretaria de secos e molhados, Correio do Povo, 20.12.16). “O PMDB é sabidamente um dos partidos mais ideológicos do Brasil, embora imagine o contrário. A sua ideologia se reflete na defesa do pragmatismo neoliberal em favor das privatizações e de isenções de impostos para grandes empresários. Não é exclusividade. Mas toda vez que o PMDB governa, o Rio Grande perde um pedaço. (…) O futuro julgará Sartori. Talvez ele seja visto como exterminador do passado. O homem que não suportava fundações públicas de pesquisa” (A história julgará Sartori, Correio do Povo, 21.12.16).

Manchete da semana em todos os jornais e redes sociais: “Servidores receberão R$ 2.260 nesta quinta e governo Sartori parcela décimo terceiro em 12 vezes” (28.12.16).

Quem ainda vai querer ser governador deste Estado? Que instrumentos vai ter para governar e pensar um projeto de desenvolvimento e o futuro?

Mas tem muito mais. E tão grave e sério quanto.

Isaac Ortiz, presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do Rio Grande do Sul (UGEIRM Sindicato), diz em entrevista a Marco Weissheimer (Para nós, o cargo de secretário da segurança está vago. Schirmer é um irresponsável. In www.sul21.com.br,   26.12.16). “Outro motivo de forte indignação foram as declarações do secretário Schirmer que assumiu as ações truculentas da Brigada Militar contra os servidores. A partir desse momento, nós passamos a desconhecê-lo como Secretário da Segurança. Não temos mais respeito por ele e chegamos a divulgar uma nota dizendo que o cargo de secretário está vago. Para nós ele não existe. O secretário manda jogar bombas e espancar seus subordinados. Que relação é essa? (…) Foi um ataque brutal do governo. A extinção das Fundações é um absurdo. Nós não imaginávamos que isso pudesse acontecer. Deram uma facada no patrimônio do Estado. O curioso é que foi resgatada uma reportagem da época em que Pedro Simon assumiu o governo do Estado (1987/1990, grifo meu). Na manchete, ele dizia: peguei o Estado quebrado. Essa é uma praxe do PMDB. Dizer que o Estado está quebrado e vender patrimônio público. Foi muito triste ver nossos colegas das Fundações abraçados, chorando. Parece que parte da gente foi junto com a extinção dessas Fundações (…) Na realidade, todos nós estamos ameaçados. É o serviço público que está em xeque, junto com todos os trabalhadores, lá em Brasília e aqui. Estamos vivendo um ataque em nível nacional aos trabalhadores, por meio das propostas de reformas da Previdência e da legislação trabalhista.  (…) E isso foi estimulado pelo governo, pelo Secretário da Segurança Pública, que é um irresponsável, um moleque. Eu disse numa entrevista: será que esse cidadão não está contente com duzentos e tantos corpos lá em Santa Maria (Cesar Schirmer era prefeito de Santa Maria, quando aconteceu a tragédia da boate Kiss, grifo meu) e quer mais ainda? Pelo que se viu, parece que sim. Ela, uma Secretaria da Segurança Pública, tinha que estar mediando os conflitos, e não dentro da Assembleia e do Palácio tralhando para aprovar o pacote. Ninguém tem mais respeito por ele. Espero que ele não apareça mais em lugar nenhum onde tenha policiais civis nas ocupações. Ele se tornou uma persona non grata nas polícias.”

Ninguém me contou. Eu vi. Eu estava lá. A Assembleia Legislativa estava totalmente fechada durante a votação do pacotaço. Ao ponto que teve atual deputado – no caso, Valdeci Oliveira; há foto nos jornais – pulando as grades que a cercavam para entrar. Eu, ex-deputado constituinte, tive dificuldade de entrar na Casa do Povo. Dentro da Assembleia Legislativa, vi com meus olhos centenas de policiais militares acampados dentro da Assembleia, numa verdadeira ocupação. Melhor, verdadeira invasão do espaço de um outro Poder, com consentimento desse, como não se viu nem na ditadura. Como todos, corri do gás de pimenta e das bombas de borracha jogadas contra os funcionários públicos e manifestantes que estavam do lado de fora da Assembleia Legislativa dos gaúchos, na Praça da Matriz, proibidos de lá entrar e na prática proibidos de se manifestar.

O Rio Grande não é mais aquele da democracia, da resistência de 1961, quando Brizola colocou a Brigada Militar na Praça da Matriz para defender a posse de João Goulart na presidência da República, do Orçamento Participativo.

O que resta? Realizar o Fórum Social das Resistências, na esteira do Fórum Social Mundial que começou em 2001 durante o governo Olívio Dutra, então governador do Estado do Rio Grande do Sul. Será de 17 a 21 de janeiro no Parque da Redenção, para mostrar que há luta, há resistência, há vida, há defesa da democracia, há povo que não desiste. (Contatos e informações: www.forumsocialportoalegre.org.br; espaço.fsm.poa@gmail.com).

Que ano!

Feliz 2017 a todas e todos.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em vinte e nove de dezembro de dois mil e dezesseis

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