
A crise que assola a Argentina sob a gestão de Javier Milei não é apenas um fenômeno local; é o trailer de um filme que o Brasil já assistiu e que a direita brasileira, liderada por Jair Bolsonaro, deseja reprisar. O fechamento da fábrica da Whirlpool (Brastemp/Consul) , para expandir a produção em SP, é o símbolo máximo do fracasso de um modelo que a oposição brasileira ainda insiste em vender como “liberdade econômica”.
Se o projeto de Milei — baseado na submissão ao dólar, desmonte do Estado e abertura comercial desenfreada — fosse reaplicado no Brasil, o bordão “O Brasil vai virar uma Argentina” deixaria de ser um ataque à esquerda para se tornar a profecia realizada da própria direita.
O caso da Whirlpool é apenas a ponta do iceberg de um processo de “terra arrasada” industrial. Outras multinacionais, asfixiadas pela queda brutal do consumo interno e pela falta de uma política de fomento, seguiram o mesmo caminho ou reduziram drasticamente sua presença:
P&G (Procter & Gamble): A gigante de bens de consumo vendeu suas operações de marcas icônicas e fábricas para grupos locais, retirando-se do dia a dia da produção argentina, citando a instabilidade e a perda de competitividade frente aos vizinhos.
A Clorox (dona da marca Ayudín) abandonou o país, transferindo o foco de seus investimentos para mercados com maior estabilidade cambial e previsibilidade, como o Brasil.
Até no Seto financeiro também há sinais de retirada. O banco HSBC vendeu sua operação argentina, sinalizando que nem mesmo o mercado de capitais acredita na sustentabilidade do modelo de “choque” de Milei a longo prazo.
Diversas montadoras, como a Mercedes-Benz e a Toyota, têm paralisado linhas de produção sistematicamente devido à impossibilidade de importar componentes e à retração do mercado doméstico, enquanto o Brasil de 2026 bate recordes de investimento em veículos híbridos e elétricos.
A visão econômica de Bolsonaro, capitaneada pelo “posto Ipiranga” Paulo Guedes, e a de Milei bebem da mesma fonte: o fundamentalismo de mercado que ignora a soberania nacional. Ambas operam sob a lógica de que o país deve ser um mero exportador de commodities e um importador de produtos de valor agregado.
Assim como Bolsonaro assistiu à saída da Ford e da Sony do Brasil sem esboçar reação, Milei agora vê a Whirlpool transferir seu hub tecnológico para o solo brasileiro.
Ironicamente, a economia brasileira atual, ao fortalecer o Real e investir em políticas industriais integradas, tornou-se o destino de fuga das empresas que Milei expulsou com sua “terapia de choque”.
Durante anos, a direita brasileira utilizou o medo da “argentinização” para atacar políticas de bem-estar social.
No entanto, o cenário de 2026 prova o contrário: o Brasil só corre o risco de “virar uma Argentina” se retomar a política de submissão colonial ao capital financeiro internacional que Milei abraçou.
A Argentina de Milei é hoje o retrato do que acontece quando um governo abdica de sua moeda e de sua indústria. É o deserto industrial onde marcas históricas não encontram mais condições de respirar, preferindo o solo fértil de um Brasil que decidiu valorizar seu mercado interno e sua soberania.
A política de Milei é o espelho do bolsonarismo econômico: barulhenta na retórica da liberdade, mas servil aos interesses do “Império do Dólar”. O fechamento da Whirlpool e a saída da P&G são o veredito final.
Se a direita atrasada voltar ao poder no Brasil com as mesmas receitas de Milei, não estaremos apenas importando uma crise; estaremos exportando o nosso futuro, fábrica por fábrica, para o resto do mundo.
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