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FÉ E POLÍTICA EM TEMPOS DE RESISTÊNCIA (Por Selvino Heck)

marchaabertura-500x320                “A política sem fé não transforma. A fé sem política fica estática. Devemos ser sujeitos da fé e da política”. Foram as palavras iniciais de Olívio Dutra na Roda de Conversa promovida pelo Movimento Fé e Política/RS, no Fórum Social das Resistências – Democracia e Direitos dos Povos e do Planeta, na Tenda dos Direitos Humanos instalada entre as árvores e a brisa do Parque da Redenção em Porto Alegre, num belo final de tarde de sol em janeiro de 2017.

Foi uma Roda de Conversa ecumênica e inter-religiosa. Além de Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul, que se apresentou como cristão/católico marxista, falaram Iyá Sandrali de Oxum (Sandrali de Campos Bueno), do Conselho do Povo de Terreiro do Rio Grande Sul, Nívia Ivette Nuñez de la Paz, teóloga cubana anglicana, Fernando Stocho, da Frente Evangélica pelo Estado de Direito, e Rodolfo Fuchs, da Pastoral Popular Luterana. E contou com 150 participantes vindos de todas as partes: jovens, mulheres, militantes das antigas, gente das pastorais, querendo beber das fontes da fé e da política em tempos tão difíceis de resistência.

Yiá Sandrali de Oxum disse que nossa fé é propositiva, persistente e radicalmente amorosa. “Fé sempre foi sinônimo de luta e resistência. Somos uma população que tem raça, cor e gênero. Somos daqueles que acreditam na radicalidade da democracia. O sagrado do outro que está em mim está no outro. Defender o sagrado é lutar, como urgência absoluta, contra o extermínio do povo negro. Somos resistentes e nossa resistência está escrita em nossa mãe Iemanjá. Somos taquaras que se curvam antes as tempestades, mas jamais se quebram.”

No debate, havia quem quisesse saber mais sobre a Frente Evangélica pelo Estado de Direito, de quem quase ninguém conhecia a existência. Disse Fernando Stocho: “Preciso desabafar. Os evangélicos não são todos homofóbicos, racistas, fundamentalistas. Devemos e queremos ser sal na terra e luz no mundo. E renascer para uma vida que respeita a vida humana. Amar é estender a mão, lutar junto, oferecer o ombro, o abraço, o carinho.”

Rodolfo Fuchs, da Pastoral Popular Luterana, referenciou-se na Teologia da Libertação e no método Ver, Julgar, Agir. Jovem, falou de um dos dramas brasileiros do momento, as prisões. “Há aí um recorte de classe, de cor e etário. A violência nas prisões tem relação direta com a exclusão social. A exclusão social pauta a lei social no Brasil. É preciso aproveitar os espaços para formar as pessoas. A comunidade é o centro e sendo comunidade é contra o sistema capitalista”.

A teóloga Nívia abriu sua fala com o texto do Evangelho de João e as palavras de Jesus: ‘Eu vim para que tenham vida e vida em abundância’. E seguiu, depois de rememorar vários fatos históricos recentes, onde a direita conservadora tem sido vitoriosa: “Perder a história e perder a memória é perder a vida, vida que deve ser abundante e com dignidade. Cada espaço em que estamos deve ser de dignificar a vida. São os 3 ‘ds’: Diversidade, Democracia e Direitos.”

Olívio Dutra falou da política. “O ser humano é essencialmente político e da utopia dos que têm fé e fazem política. Os meus irmãos guaranis caminham há séculos para a Terra Sem Males e não desistem. A utopia de um mundo sem guerra, com paz e justiça, não cabe na sociedade capitalista. É preciso sermos sementes de mudança, instigantes, provocadores. É processo que semeia consciência. A luta não é pequena e por isso vale a pena.”

Foram mais de três horas de reflexão, de conversa, em meio às músicas e hinos de alegria e libertação conduzidos pela gaita de Célio Piovesan e a voz do bispo anglicano Dom Humberto, cantadas por todas e todos, e ecoando entre as árvores do Parque. Júlio Quadros disse que os cristãos e os religiosos de matriz africana não podem calar ante nenhuma injustiça e lutar contra a desigualdade. Zeca (José Vermohlen), de Santa Catarina, ressaltou três questões urgentes: “Expressar o espírito de denúncia; fazer o anúncio do novo e da esperança no espaço das comunidades; viver a caridade, no sentido de estender a mão e convidar para vir junto.” Duas jovens, Alana e Cris, apresentaram a Associação Pachamama, e convidaram todas e todos a participar. Seu jornal, Peregrino, diz: “Aqui, neste e em outros movimentos de Ativismo, andam gritando Tupac, Bartolina Sosa e outros irmãos libertários que lutaram pela Mãe Terra. Há tanta esperança dançando entre os corações que não envelheceram no cinismo e no consumismo. Se teremos sucesso ou não, o futuro o dirá, mas com certeza estamos apaixonados no intento grupal de parir uma nova Nação, a Nación Pachamama” (www.nacionpachamama.com}. E diz uma frase de sua Escola Espiritual: “Por entre ensinamentos de uma mística viva, um caminho sagrado para despertar” (escolaespiritual.ma@gmail.com).

É importante falar com sentimento, resumiu Olívio Dutra na fala final. Foi o que todas e todos viveram e sentiram nas três horas luminosas. Há esperança quando a fé e a política se animam mutuamente, e dialogam nos corações e mentes por uma sociedade com igualdade, justiça, paz e dignidade para todos os seres vivos.

 

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

Em vinte de janeiro de dois mil e dezessete

Um pensamento sobre “FÉ E POLÍTICA EM TEMPOS DE RESISTÊNCIA (Por Selvino Heck)

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