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1954, 1964, 2016 (Por Selvino Heck)

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No final dos anos 1970, início dos 1980, o saudoso Betinho publicou “Como fazer Análise de Conjuntura”, que usávamos o tempo todo nos Cursos de Base da Pastoral da Juventude, nos processos de formação das Oposições Sindicais, do movimento sindical combativo, das Pastorais Sociais, das ONGs, dos movimentos populares urbanos e rurais.

Era relativamente fácil analisar a conjuntura naqueles tempos, ou pelo menos assim parecia. Bastava levar em conta, com a conjuntura, sempre mutante, em movimento, a estrutura – sistema capitalista –, as bases que o sustentavam, e que aparecia com diferentes caras em diferentes momentos históricos, mas continuava capitalismo. Analisar os atores políticos, econômicos, sociais, os possíveis cenários – o mais provável, o intermediário, o menos provável -, a correlação de forças, mais favorável ou menos favorável ao campo popular e democrático, e partir da análise para a ação.

Fazia-se a análise de conjuntura para entender o que estava acontecendo, ver as tendências de futuro, as forças e a força com que contávamos, para saber o que fazer, e agir.

Hoje, 2017, parece tudo embaralhado e muito mais complicado. Não se sabe direito quem é quem, difícil saber o que vai acontecer amanhã ou depois de amanhã. É certo que o sistema capitalista continua e continuam os que o sustentam desde o seu surgimento há poucos séculos e seus valores de acúmulo e lucro, de individualismo, de ‘quem pode mais chora menos’.

Não vivi 1954.Tinha três anos, mas comecei a sentir e entender seus reflexos no final dos anos 1950, início dos 1960. Vivi uma pouco distante 1964 – estava no Seminário em Taquari -, mas vivi plenamente a ditadura militar e sofri dura e pessoalmente suas consequências.

Uma coisa é certa, porém. Toda vez que no Brasil (e na América Latina, assim como no mundo) os setores populares começaram a colocar o nariz e a boca para fora, os setores conservadores reagiram fortemente. Getúlio Vargas, embora latifundiário, criou um partido, o PTB, que propunha a harmonia entre o capital e o trabalho, criou a CLT, fundou a Petrobrás, os trabalhadores começaram a ter alguns direitos, legalmente vigentes até hoje. O latifúndio, e Getúlio era grande fazendeiro, o capital internacional e as Organizações Globo, junto com a mídia, reagiram, nunca perdoaram um dos seus. Getúlio se suicidou, Juscelino Kubitschek, eleito presidente, quase não tomou posse, mas continuou um projeto de desenvolvimento com espaço para a indústria nacional, os trabalhadores continuaram se organizando, Brizola e o trabalhismo incendiavam o país, havia um grau inédito de liberdade e democracia no Brasil de então. Surgem e crescem, nos anos 1960, o Movimento Popular de Cultura, a pedagogia libertadora de Paulo Freire, Julião e as Ligas Camponesas, a UNE e o movimento estudantil e tantas outras lutas e formas de organização popular.

O povo trabalhador começou a colocar o nariz e a boca para fora. Jânio Quadros renuncia à Presidência, João Goulart, eleito vice-presidente, outro latifundiário, é impedido de tomar posse, é imposto o parlamentarismo. Vendo que assim mesmo o povo e as Reformas de Base avançavam, com o famoso discurso de Jango na Central do Brasil em 13 de março de 1964, os EUA e o capital internacional – sabe-se cada vez mais sobre a participação de ambos no golpe de 64 -, o latifúndio, o empresariado, a mídia, em especial as Organizações Globo, setores conservadores da Igreja católica patrocinam o golpe militar, acontecido em primeiro de abril de 1964. A ditadura militar durou 21 anos, até que o povo organizado exigisse Diretas-Já, contra a Globo, que só noticiou as mobilizações quando não poderia mais escondê-las, tão grandes eram.

Os anos 2000, depois de muita luta na rua, greves, mobilizações, organização da sociedade, e várias eleições depois, trazem Lula e o PT à Presidência da República. Dois governos Lula, o Fome Zero, os pobres e trabalhadores ganhando direitos. Elege-se Dilma, uma mulher, duas vezes presidenta da República. Foi demais para o latifúndio, o grande capital nacional e internacional – afinal, Lula patrocinou os BRICs, fortaleceu a América Latina e os países da África, colocou o Brasil como ator mundial – e, de novo e sempre, a mídia e as Organizações Globo não podiam mais permitir que estes avanços continuassem, um projeto nacional com reflexos internacionais. Mais um pouco e as Reformas de Base, colocadas no cenário nos anos 1960, seriam inevitáveis, teriam que acontecer. O povo as exigia e a conjuntura as permitia.

Patrocinou-se o golpe em 2016, com os mesmos aliados básicos de 1954, 1964, agora em 2014/2015/2016/2017, quando a liberdade e a democracia pareciam consolidadas.

Lula e Dilma erraram? O PT e aliados de esquerda erraram? Houve institucionalização excessiva dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais? Houve alianças espúrias? Houve desvios e corrupção? Sim, houve tudo isso e é preciso fazer a necessária autocrítica e corrigir os erros. Mas sobretudo houve de novo o que aconteceu em 1954 e 1964. A direita conservadora, a burguesia nacional e internacional, a Rede Globo e aliados não podiam permitir mais avanços, mais direitos para os pobres, os lascados e os trabalhadores, o que significaria, com o tempo, perda de seus privilégios e decréscimo do seu poder secular. Não por outro motivo estão aí as Reformas Previdenciária e Trabalhista, a venda do pré-sal, as privatizações, o desmonte da Petrobrás e tudo mais que estamos assistindo, tudo sendo patrocinado pelo governo golpista e ilegítimo de plantão.

A correlação de forças na conjuntura não é favorável. A estrutura continua capitalista. Mais uma vez, porém, como aconteceu neste 15 de março de 2017, o povo e os trabalhadores vão para as ruas, resiste E continuarão nas ruas, e continuarão resistindo. Vida que segue, escreveria Ricardo Kotscho em seu Balaio.

Selvino Heck

Deputado estatual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em dezessete de março de dois mil e dezessete

 

 

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