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Sem sutileza ou cerimônia, Gilmar tenta ser alternativa para a Presidência

O ministro do STF Gilmar MendesSérgio Lima/Poder360 

Por   no Poder 360

O BRASIL ESTÁ A 3 CLICKS DE TER UMA TOGA NA PRESIDÊNCIA

De quando em vez alguns sites de varejo na internet oferecem aos consumidores contumazes: “cadastre-se e compre em apenas um click”. O cadastramento fideliza o cliente e cria atalhos por meio dos quais a relação se torna mais direta, mais pragmática e mais constante. No átimo de um apertar de botão, pronto! Encomenda-se o que quer, mesmo que não se precise. Mas fica a sensação de uma proximidade resolutiva, providencial, oportuna.

O pragmatismo oportunista de alguns dos protagonistas do teatro de operações em que se converteu a política no Brasil mimetiza, em diversos aspectos, o relacionamento comercial entre sites de varejo e clientes virtuais.

O museu de grandes novidades da Democracia brasileira começa a ofertar a possibilidade de se ter por aqui um presidente de toga –com ou sem voto.

Na esteira das jornadas de 2013 houve quem flertasse com Joaquim Barbosa, o verdugo da Ação Penal 470, mas as opiniões bem particulares que ele externou depois de deixar o Supremo Tribunal Federal, desalinhadas com o senso comum da neodireita nacional, expurgaram-no da lista de presidenciáveis desse bloco.

 

A geleia geral que aflorou nas ruas de 2016 e conferiu um colorido amorfo à deposição de Dilma Rousseff fez surgirem faixas e movimentos pró Sergio Moro, o ferrabrás da Lava Jato, como solução presidencial dessa mesma neodireita –mas só em 2018, se o pleito for confirmado na data prevista pela Constituição.

Há, nos bastidores de alguns gabinetes de Brasília e no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde fica a sede da Rede Globo, uma indisfarçável torcida para que os rios das delações premiadas sacramentem o vertedouro de expectativas em que se tornará a Ação de Cassação da chapa Dilma-Temer, no TSE. Com isso, o vice eleito em 2014 perderia o posto que ora ocupa. Confirmada a premissa, dar-se-ia um jeito (no enredo descrito pelos entusiastas dessa saída, um “jeito democrático e constitucional”) de tirar os presidentes da Câmara e do Senado do leito dessas águas turvas, deixando-os à margem do processo, para transformar a presidente do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia no mar para onde todos os rios correriam. Já surgem mais do que entusiastas dessa saída: ela tem obreiros, capitães e até adversários declarados.

O maior adversário de Cármen Lúcia, determinado a inviabilizar tal solução e também ele mesmo general-de-brigada da resistência à colega de toga, é Gilmar Mendes.

Mendes atua sem sutileza e sem cerimônia a fim de constituir seu próprio nome como a alternativa. Considera-se o homem providencial. As águas de março, que deram muito modestamente o ar da graça na Capital da República esse ano, foram suficientes para fazer Gilmar Mendes emergir sua vontade secreta de despir a toga trocando-a por capa e espada imaginárias de herói (ou anti-herói). A identidade supostamente secreta do ministro do STF, presidente do TSE, estava submersa a meia água e boiou na lâmina do Lago Paranoá no transcurso desse verão.

Não há dia em que Gilmar Mendes deixe de inventar ao menos um lance destinado a colocá-lo no centro dos peões do tabuleiro. A rainha já foi comida. O rei está cercado. O bispo das pedras pretas seria ele.

São movimentos intensos e razoavelmente bem-sucedidos com o objetivo de construir em torno de si o consenso da chance única. Se há vaga no Tribunal Regional Federal da 5ª Região, Gilmar tem candidato. Se há vaga no TSE, idem. Vagou uma cadeira no Supremo? Gilmar foi chamado a opinar entre Ives Gandra Filho –tratorado de forma humilhante– e Alexandre de Moraes. Sinalizou para Moraes. A cadeira de Moraes ficou vaga na Esplanada? Gilmar opinou na sucessão do Ministro da Justiça. Debate-se uma reforma política destinada a dar novos contornos ao ruinoso sistema eleitoral brasileiro? O que pensa Gilmar?, especulam entre si os congressistas e muitos advogados. Agora, até empresários e executivos andam se fazendo essa pergunta e criando o fator “Gilmar” de ponderação. José Serra fez 75 anos e merecia uma festa? Ninguém deu? Pois Gilmar Mendes a promoveu –sem se importar, e sem ser cobrado por isso, se dentro de alguns meses terá de vestir a toga para julgar Serra. O senador paulista será ao menos denunciado na Lava Jato, afinal sua campanha para a presidência em 2010 recebeu US$ 23 milhões de dólares no exterior em ilegalidades confessadas por quem deu o dinheiro –a Odebrecht– e por quem o recebeu –o ex-banqueiro Ronaldo César Coelho. A desfaçatez do afago a um provável réu da Lava Jato, promovido por um ministro do Supremo Tribunal Federal, num convescote considerado “normal e regular” por quem cobre o poder em Brasília, dá a medida da larga avenida por onde passeiam as tropas de Mendes.

A plataforma de lançamento do Movimento Gilmar Presidente, contudo, ainda não pulou do submundinho quase virtual dos bastidores de Brasília para a vida real. Sem ter a necessidade de cabalar votos populares, precisará apenas da maioria num Congresso de 594 votantes se os comandos dados forem seguidos à risca, quando estiver apta a fazê-lo será também a véspera da decisão fatal.

Restam 3 movimentos sofisticados na tela onde se joga esse xadrez virtual no qual o bispo quer se posicionar no lugar do rei moribundo.

O 1º, a cassação da chapa Dilma-Temer cuja contabilidade de votos está nas mãos do presidente do TSE. Depois, a retirada da cena dos presidentes da Câmara e do Senado caso se tornem réus em ações no STF –o julgamento está decidido a favor da tese do afastamento de réus da linha sucessória, mas o resultado só não foi proclamado porque um dos ministros pediu vista e sentou em cima dos prazos: Gilmar Mendes. Por fim, definido o modelo de eleição indireta para uma vacância da cadeira presidencial a menos de 2 anos do fim do mandato da chapa eleita em 2014, proceder-se-á à eleição indireta, no Congresso Nacional, do novo presidente incumbido de concluir o prazo para o qual os impedidos haviam sido eleitos. Será necessário ter à mão uma biografia de perfil palatável às instituições, com trânsito em diversas correntes de opinião e que imponha respeito para dentro da máquina pública. Quem seria? Ou, por outra, quem se propõe a sê-lo?

O Brasil, uma Nação que se comporta como se vivesse a todo momento em fim de feira, em meio a liquidações nas quais sua alma e sua autoestima são vendidas, está a 3 clicks de ter uma toga na cadeira presidencial.

Autor

Luís Costa Pinto

Luís Costa Pinto

Luís Costa Pinto, 48, é jornalista. Graduou-se na UFPE em 1990. Começou no jornalismo em 1988 no Jornal do Commercio do Recife. Trabalhou em redações de “Veja” (1990-96), “O Globo” (1997-98), “Folha de S.Paulo” (1997-98), “Época” (1998-2001) e “Correio Braziliense” (2001-02). Atuou como repórter especial, editor, chefe de sucursal no Recife e em Brasília e editor-executivo. Em 1992 recebeu os prêmios Líbero Badaró e Esso de Jornalismo por reportagens como “Tentáculos de PC”, “Pedro Collor Conta Tudo” e a cobertura do “Caso PC”. Em 1993 recebeu, junto com o jornalista Luciano Suassuna, o prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem por “Os Fantasmas da Casa da Dinda” (Ed. Contexto). Desde agosto de 2002 é sócio da consultoria Idéias, Fatos e Texto, empresa especializada em consultoria de comunicação, análise de cenários e marketing político. De 2013 a 2016 foi também vice-presidente do Grupo PPG (holding de agências de publicidade e live marketing).”

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