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Presidente da FUNAI diz em entrevista a BBC que índios brasileiros “não são produtivos”

O fundo do poço parece que tem vários subsolos. O Brasil chafurda de forma vergonhosa no atraso. A Fundação Nacional do índio presidida por um Pastor Evangélico já é por si só um contra senso, tendo em vista o papel de missões “evangelizadoras”, que ajudaram a dizimar os índios brasileiros e suas múltiplas culturas para trocá-las pela enganosa “produtividade” da mono cultura e do agro negócio. Mas ainda não era o fundo do poço. Eis que o Pastor Presidente dá uma entrevista a um órgão da mídia internacional e demonstra os seus objetivos abjetos de forma claríssima: Ou os índios se tornam “produtivos”ou serão tirados das “férteis” terras do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. O fundo do poço tem subsolos de vergonha e o Brasil se afunda cada vez mais.

Vai artigo do Reinaldo José Lopes na Folha:

Antes de criticar os índios, presidente da Funai deveria estudar arqueologia

Quem acha que arqueologia não serve para nada certamente não teve o (duvidoso) prazer de ler a entrevista concedida recentemente pelo novo presidente da Funai, o dentista e pastor batista Antônio Costa, à BBC. Entre outras coisas, Costa afirmou que os indígenas brasileiros precisam ser produtivos, como os índios dos EUA, que os guaranis são “coletores” e que as tribos moradoras de Estados férteis, como Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, não podem “ficar paradas no tempo.

O escriba que se dirige ao insigne leitor neste momento está prestes a publicar um livro inteiramente dedicado aos feitos dos indígenas brasileiros antes da chegada de Cabral. Portanto, ler as pérolas acima foi tão agradável quanto receber uma joelhada nas partes pudendas. Permita-me colocar alguns pingos nos is.

Primeiro, é curioso que o chefe da Funai tenha citado o Mato Grosso, pois é justamente naquelas bandas, no Alto Xingu, que os arqueólogos têm desencavado os vestígios de uma sociedade urbana que floresceu em plena Idade Média, a partir do ano 1200, mais ou menos na mesma época em que cristãos e muçulmanos estavam trocando sopapos para ver quem virava dono da Terra Santa.

Até onde sabemos, os antigos xinguanos não eram adeptos desse negócio de guerra religiosa. Em vez disso, construíram aldeias gigantescas (ao menos dez vezes maiores que atuais), estradas com quilômetros de extensão e até 50 metros de largura (organizadas de acordo com os pontos cardeais), diques e paliçadas defensivas, implantaram o manejo intensivo da mandioca e dos recursos pesqueiros e, provavelmente, forjaram um sistema de alianças multiétnico. Era um tipo de urbanismo “disperso”, com uma gradação sutil entre áreas habitadas, roças e mata manejada, que talvez nos lembrasse Brasília (sem Lava Jato). Parados no tempo? Não mesmo.

Coisas parecidas estão aparecendo em quase qualquer lugar da Amazônia no qual as pessoas se dignem a enfiar uma pá no solo. A ilha de Marajó, por exemplo, hoje famosa por seus búfalos, foi lar de uma civilização que construiu represas para apanhar os peixes trazidos pela época da inundação, grandes tesos – plataformas que nunca inundavam, onde ficavam as casas e os cemitérios da elite – e uma arte em cerâmica de fazer os pintores de vasos negros e vermelhos da Grécia Antiga arrancarem seus cachos helênicos de inveja.

Quanto aos guaranis, poucos agricultores da América do Sul pré-histórica foram tão bem-sucedidos quanto eles. Trocando em miúdos, a aparente falta de produtividade das tribos modernas tem muito mais a ver com o impacto da conquista do que com uma suposta incapacidade de evoluir e se modernizar.

É dolorosamente irônico, ademais, que o raciocínio expresso na entrevista venha da boca de um evangélico, membro de uma denominação cristã que coloca a Bíblia no centro de sua religiosidade. Os estudos mais recentes da origem das Escrituras, que avançaram muito na tentativa de recolocá-las em seu contexto histórico original, demonstram cabalmente que elas são uma resposta (tanto espiritual quanto política) da minúscula etnia israelita ao avanço do poderio imperial – do Egito, da Assíria, de Roma – sobre sua independência.

Para quem conhece bem o texto bíblico, o paralelo com a situação indígena deveria, no mínimo, soar familiar. Fica aqui a minha prece para que o pastor Costa perceba que, no duelo entre os israelitas e o Faraó, Deus se colocou do lado dos pequenos.

(Fonte: FSP 23/04/2017)

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