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O Richtofen, a Cracolândia e o racismo

De Anderson França 

Agora, no caminho pra casa, três pessoas falaram comigo mostrando no celular a foto de um jovem branco, loiro, que foi encontrado na Cracolândia. Pelo que entendi, é o irmão da moça que assassinou os pais, em 2002.

Então, algumas pessoas se comoveram bastante com o “triste fim” de um jovem, antes com uma família estruturada, hoje usuário de crack.

Olha. Eu vou te falar um negócio, depois a gente se acerta, só me escuta no amor: Isso não é comoção. Isso é racismo.

Somos ontologicamente racistas. Racistas pra caralho. Racistas de manhã. Racistas à tarde. Sozinhos. No banheiro. Vendo XVídeos. Comendo Fruit Loops. Orando na igreja.

O racismo é uma característica nossa, uma construção de milênios, acho que a gente é tão racista que, no fundo, a gente não acredita que essa lei de injúria racial seja de verdade, porque no fundo, não é.

Qualquer 800 reais de multa e você pode xingar preto e nem preso vai.

Calma.

Sabe por que é racismo?

Porque você e eu partimos do fato dele ser um jovem branco. Sim, sim. É verdade. Sejamos sinceros. NINGUÉM TÁ NOS VENDO.

Só eu e você, aí no seu celular.

Ele é branco. Traços de gente bem-nascida. Não pode um jovem de classe média, branco, loiro, “cair” ou se “desviar” da sua natural e austera missão no mundo: de ser um exemplo para as raças, porque este é o destino dos brancos.

Nós ficamos horrorizados com um branco que se perde tanto assim de seu nobre destino, ainda mais num sistema feito para ele prosperar, e esse branco agora estar num lugar de gente preta, pobre, fudida, cracuda.

Porque o vício é coisa de preto. Os pretos que estão lá são vagabundos. Endemoniados. Lixo humano. Merecem mermo. Tem mais que derrubar casa e matar com todo mundo dentro. Fodace.

Mas o garoto, esse não. Esse a gente tira, porque, poxa. Ele é bonito. É como um anjo caído. Merece redenção.

É isso, e apenas isso, que nós pensamos.

Eu não quero que você surte, e me pergunte se é pra deixar matar o garoto, eu quero que você entenda que vidas negras importam.

Todas as vidas, lato sensu, ali na Craco, importam, aliás, mas vidas negras importam.

Vamos lá, companheiros brancos, socialistas nervosinhos, cross fit estressadinhas, marombadinhos esforçados, gerentinhos de camisa pra dentro da calça, feministas do Leblon, NÓS SABEMOS QUE A COMOÇÃO É SELETIVA.

Um grande ator, negro, que participou de um dos maiores filmes brasileiros, foi encontrado na mesma Craco, e sabe o que disseram?

Vocês sabem.

Ele era preto.

Meu convite, cara, é que a gente não seja seletivo. Que o menino com sobrenome alemão tenha humanidade no tratamento, como os Silva que estão lá neste momento, na Praça Princesa Isabel.

Vamo ampliar essa humanidade aí, gente.

Meu convite não é pra surtação de maluco que vocês dão quando eu venho aqui provocar, é pra vocês mudarem a porra da mente, por dentro, e se não vamos deixar de ser racistas, que pratiquemos coisas não-racistas, para que a mulekada veja, e seja menos racista que o que nós fomos.

4 pensamentos sobre “O Richtofen, a Cracolândia e o racismo

  1. Pingback: O Richtofen, a Cracolândia e o racismo | Luíz Müller Blog | BRASIL S.A

  2. Creio que o caso dele sensibilizou a sociedade não exatamente pelo fato dele ser branco e de classe média, mas pelas circunstâncias em que ele perdeu os pais e como a sua família foi destruída da noite para o dia. Qualquer pessoa que passa por isto, é digna de compaixão, seja preta ou branca.

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