Brasil

TEMPOS INCENDIADOS (Por Selvino Heck)

BarricadaO prefeito Ary Vanazzi, de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, fez um discurso duro, emocionado e emocionante sábado passado, quando passou o cargo de presidente do Partido dos Trabalhadores/RS ao deputado federal Pepe Vargas.

Discurso duro, porque atacou as políticas públicas do governo golpista do presidente Michel Temer (ou a falta de): as então existentes estão sendo destruídas.

Emocionado, porque falou das impossibilidades de, como prefeito municipal, fazer políticas sociais, programas de habitação, resolver os crescentes problemas que a população sofre, desemprego e tudo mais, com o fim das políticas e programas dos governos Lula e Dilma.

Emocionante, porque Ary contou que há mil mulheres em São Leopoldo com problemas de câncer de mama e outras doenças graves, mulheres que não conseguem ter atendimento em lugar nenhum. Os hospitais estão lotados, e quando não estão, não têm recursos e estão sem condições de atendimento de qualidade.

Chorei, como muitos dos presentes ao ato. Os tempos estão incendiados, em todos os sentidos. São tempos de mobilização social, tempos de Greve Geral, tempos de um governo federal já nascido ilegítimo, e agora cada vez mais impopular e envolvido em corrupção, que começa pelo próprio Presidente da República. E de um governo do Estado do Rio Grande do Sul, governador Sartori, do PMDB, neoliberal, privatista, repressor dos movimentos sociais, e que sequer consegue pagar em dia os salários do funcionalismo público.

Em Seminário promovido pelo Conselho Popular da Lomba do Pinheiro, um dos mais importantes e populosos bairros de Porto Alegre – ‘Os Impactos sociais do Crescimento populacional da Lomba do Pinheiro e a Metamorfose e Rumos do Orçamento Participativo de Porto Alegre’ -, a professora municipal Tavama Nunes dos Santos, ao contar a história do bairro, suas lutas,  sua organização, ressaltou  o desmonte das políticas sociais que está acontecendo atualmente: fim do turno integral nas escolas, postos de saúde com redução de atendimento, programas para jovens e adolescentes sendo diminuídos quando não extintos. A luta das comunidades, especialmente via o mundialmente conhecido Orçamento Participativo (OP), que também está sofrendo desmonte, não tem resposta do poder público. As demandas e obras decididas pelos participantes do OP estão atrasadas ou não sendo feitas, o que provoca apatia da população, que não quer mais participar, porque acha que não vale a pena, que não dá resultado.

O exemplo de São Leopoldo, o exemplo da Lomba do Pinheiro, ambos mostram que não está se falando de coisas sem nexo, ou de tempos passados.Tampouco se está fazendo ficção, ou é choro de perdedor, ou oposição sem propostas. Está-se falando de vidas que se perdem ou podem ser perdidas, está-se falando de jovens que são assassinados às pencas, especialmente negros, está-se de mulheres jogados ao léu, está-se falando de uma sociedade com mais sofrimento a cada dia, hospitais superlotados, escolas e salas de aula sendo fechadas, postos de saúde em condições precárias de atendimento, políticas públicas que atendiam os mais pobres e os trabalhadores simplesmente sendo encerradas por decreto. E a violência aumentando por todos os lados, a população refugiando-se dentro de casa, a criminalidade na porta e na rua. (Mensagem que circulou em redes sociais de whats ontem, 29 de junho, em Porto Alegre, e que poderia circular em qualquer capital deste país chamado Brasil: “Hoje à tarde a escola Pessoa de Brum, Bairro Restinga, só tem condições de atender 3 das 22 turmas, porque abalados com os tiroteios constantes, a maior parte dos professores está em licença de saúde. Sem contar a já enorme falta de RH.”)        

O que fazer? O que vai acontecer?

O prefeito Ary Vanazzzi, que costuma circular por todos os bairros do município, denuncia aberta e fortemente, sem papas na língua, o desmonte em todas as reuniões com todos os setores sociais nas quais participa, nos contatos com diferentes Poderes, dizendo ser obra de um governo golpista e/ou de governos sem compromisso com o povo. E exige recursos e soluções. Ao mesmo tempo, mobiliza a população para defender seus direitos, fazendo e aderindo às greves gerais chamadas pelas Centrais Sindicais e movimentos sociais, inclusive a própria Prefeitura. E mobiliza a população de todas as formas para gritar, denunciar, exigir que o povo e seus direitos sejam respeitados.

O Conselho Popular da Lomba do Pinheiro, além de realizar Seminário para debater e entender o que está acontecendo, mobiliza a população permanentemente, organiza a Greve Geral, faz e participa de audiências com o prefeito e com a Câmara de Vereadores, denuncia o desmonte do Orçamento Participativo, que um dia foi exemplo para o mundo, como falou o ex-prefeito Olívio Dutra, seu idealizador e um dos painelistas do Seminário.

Os tempos estão incendiados. Incendiá-los ainda mais parece ser a melhor saída, senão a única.     

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em trinta de junho de dois mil e dezessete

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