política

FRENTE AMPLA OU FRENTE POPULAR?

O PCdoB, em seus documentos pré-congressuais, lançou a tese de Frente Ampla como ideia-força para a política de alianças que seria atualmente viável e necessária.

Conceitos se prestam a ambiguidades.

Muitos que abraçam essa tese a compreendem como unidade das correntes populares, sob hegemonia de esquerda e com claro programa de reformas estruturais, atraindo personalidades e setores que dissentam da coalizão golpista de centro-direita, a exemplo do senador Roberto Requião ou do governador Ricardo Coutinho (PSB-PB).

Para outros, trata-se da reconstrução de laços com um suposto centro democrático e de um pacto programático com alas ditas “produtivas” da burguesia brasileira, ao redor de um programa ainda ambíguo cujo princípio reitor estaria na retomada do desenvolvimento e na questão nacional, aparentemente deslocando as reformas estruturais para um plano secundário.

Quem assim pensa, por vezes prefere emitir sinais enigmáticos a argumentos claros. Por exemplo: “é falsa a contradição entre golpistas e anti-golpistas, isso estreita a compreensão do cenário político”. Não precisa de muito esforço para entender que essa chave de leitura, potencialmente, acena para a rearticulação, parcial ou completa, do esquema de alianças que prevaleceu nos governos Lula e Dilma.

O PT, em seu 6o Congresso, não definiu um conceito para a política de alianças que propõe em sua tática, até porque convivem – como no PCdoB – distintas compreensões. Mas não seria atropelo afirmar que a orientação petista caberia melhor se o enunciado fosse Frente Popular.

Quais as e eventuais diferenças?

A primeira delas é que o arco de alianças, na possível preferência petista, representa as forças progressistas, cujos recortes principais são a atitude frente ao golpe e a postura contra as reformas neoliberais. Não seria, portanto, um suposto bloco tático de centro-esquerda, mas um pacto estratégico das correntes populares, ainda que momentaneamente possa ser ampliado em hipotético segundo turno de eleições presidenciais, por exemplo.

A segunda é que a hegemonia e o programa devem estar claramente definidos. “Ampla” remete à prioridade de alargar o máximo possível as alianças, “popular” diz respeito à centralidade da classe trabalhadora e do programa de reformas estruturais.

A terceira remete à tática eleitoral, se mantidos o calendário e as regras atuais. “Ampla” infere a manutenção da equação tradicional, pela qual elege o presidente da República o bloco político, à esquerda ou à direita, que for capaz de confluir ao centro com mais eficácia e flexibilidade, conquistando o eleitor médio. “Popular” pressupõe o calculo que o cenário não é tradicional e de que vivemos crise sistêmica, não conjuntural, o que faz da identidade e da clareza programática os elementos decisivos, com a dinâmica da campanha determinada por uma lógica centrífuga, ao contrário da clássica lógica centrípeta de outras temporadas.

A quarta diferença potencial diz respeito ao risco de uma alteração estrutural dos paradigmas que determinaram a estratégia de esquerda desde o final dos anos 80. Isso poderia ser provocado, por exemplo, pela impugnação da candidatura de Lula, a ilegalização do PT, o adiamento das eleições ou a adoção do parlamentarismo. Nesse caso, a via central de aproximação do poder, a conquista eleitoral da Presidência, definida há trinta anos,  estaria bloqueada. “Ampla” reporta, nessa problemática, a predominância do terreno institucional sob quaisquer condições. “Popular” embute a possibilidade de uma nova estratégia, de desobediência civil e rebelião social.

São diferenças importantes, ainda que nomes e conceitos sempre se prestem a confusões e mal-entendidos.

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