Educação/Movimentos sociais

A LOMBA DO PINHEIRO DE SEMPRE À LUZ DE PAULO FREIRE (Por Selvino Heck)

Paulo Freire

Há vida, há luz, há esperança, escrevi na minha página no facebook no domingo, com uma centena de curtidas e dezenas de comentários.

Quando quase tudo parece estar perdido, os caminhos todos parecem fechados, quando se vê pouca luz no horizonte, ou você vai pra rua e pra luta, ou, melhor ainda, ‘volta para as bases’. O que, no meu caso, era como voltar para casa. Fui participar, sexta e sábado últimos, do Seminário ‘Educação popular: Crianças, Jovens, Adultos e o Legado de Paulo Freire’, promovido por Educador@s das Escolas de Ensino Fundamental da Lomba do Pinheiro.

Fiquei feliz e orgulhoso com o que vi, ouvi, senti na pele e guardei no coração. Morei na Lomba do Pinheiro, um conjunto de vilas populares, como se diz no Sul, a 20 km do centro de Porto Alegre, nos anos 1970/1980. É minha segunda terra, onde aprendi quase tudo na vida e me formei/graduei politicamente.  E (re)descobri que  o trabalho comunitário, de organização popular e de conscientização daqueles tempos continua vivo.

Sexta de noite, 25 de agosto, houve o painel ‘Escola pública e Educação popular: Desafios urgentes’.  Sábado, 26, foram apresentados relatos de experiências e práticas pedagógicas. Mais de duzentas professoras e professores municipais participaram do Seminário.

Foi com os relatos de experiências e práticas que me encantei e emocionei. Os títulos de alguns dos relatos, feitos em 8 grupos diferentes, dão uma ideia do seu sentido e significado: Da palavra à ação: assembleias de turma; Na figura do ‘eu’: representação e ação; Uma biblioteca guerreira: reflexão, debate e cultura a partir da leitura; Novo olhar sobre o bairro; O som é massa! Projeto adote um compositor na EJA; Preconceito: revendo valores na diversidade; Brincando e jogando com regras: um exercício de cidadania; RPG Comunativo: a invenção do mundo melhor (UtopiArte); Contraponto: debatendo política com as juventudes; Monitores de Recreio: cidadania, solidariedade e transformação; Projeto Cultura da Paz; Mapeando a ocorrência de doenças na Vila Mapa e arredores; Experiências de Educomunicação; Docência compartilhada, uma experiência; Educação e as tecnologias da informação e comunicação: a palavra como instrumento à transformação social.

Os títulos das experiências apresentadas em oito Grupos de Trabalho quase bastariam. E estamos falando de Escolas de Ensino Fundamental. Mas tem mais.

Fala a jovem professora Alissa Gottfried, em ‘RPG Comunativo – A invenção do mundo melhor (UtopiArte)’, a arte criando utopia: “As crianças me ensinaram muitas coisas legais. A gente quer ver as coisas como elas já são. Criamos, com os alunos, uma Cooperativa de Tecnologias sociais. Mapeamos os problemas da comunidade para achar a solução. A cidade virou outra cidade. A Prefeitura é a Cooperativa. Como se fosse o OP (Orçamento Participativo), que decide tudo. Um grande aprendizado baseado na comunidade local. ‘Dada outra Poesia’ é um jogo de criatividade desenvolvido como ferramenta para escrita do jogo RPG Comunativo (Informações em www.rpgcomunativo.pontaodaeco.org). São projetos de arte e educação do Coletivo EcoaEcoa. O conhecimento nos empodera. Nós somos transformadores. Nós somos capazes.”

‘Brincando e jogando com regras’ é um exercício de cidadania, segundo as professoras Denise, Letícia, Mara e Vanessa: “A gente aproveita o conhecido jogo da velha ou o rastro da cobra sucuri. A leitura do mundo antecede o mundo da palavra.”

O músico e professor Nilson disse, em ‘OPPC – Oficina de Percussão e Prática de Conjunto’: “A criança precisa primeiro experimentar. Somos sujeitos, também os alunos, e envolvendo toda a comunidade escolar. Nunca podemos deixar esmorecer a esperança, como dizia Paulo Freire. Juntar o sentimento teórico e o sentimento poético.”

A Diretora de uma das Escolas promotoras do Seminário, Tavama Nunes dos Santos, criada na Lomba do Pinheiro, falou: “Estamos aqui numa sinergia de ideias, práticas, valores: escolas, alunos e comunidade. À luz da pedagogia de Paulo Freire.”

Na fala de abertura do dia, Frei Luciano Bruxel, frade franciscano que atua com crianças e adolescentes nas vilas da Lomba do Pinheiro, refletiu sobre valores, falou da intolerância reinante na sociedade, da necessidade de construir juntos: “A paz deve vir acompanhada da tolerância, sem preconceitos, da construção coletiva, solidária, como dizia e fazia Paulo Freire.”

Ouvidos todos os relatos, na sistematização final, Eliana Almeida de Souza, a Negrita, primeira mulher Doutora da Lomba do Pinheiro, que conheci menina, aluna da Escola São Pedro, parada 13, negra, e ainda moradora da Lomba, como fez questão de anunciar, fala de sua história de vida, dos preconceitos vividos e sofridos, da importância das cotas para a população negra na Universidade. “É preciso a ousadia de Paulo Freire e falar com o coração. Mais que nunca, palavras como Gratidão e Amorosidade são fundamentais. Olhar o outro não como igual, mas como diferente. Quem tem que contar a história do povo negro são vocês, negras e negros. E por isso precisamos de políticas públicas dando oportunidades, e escolas que atendam todas e todos, inclusive os trabalhadores e moradores da Lomba do Pinheiro.”

Tudo isso aconteceu, para alegrar o coração, deixar-me, e deixar todas e todos livres, leves e soltas/os, em meio a muitos FORAS, no plano federal, estadual e municipal, num bairro popular da Porto Alegre do Orçamento Participativo e do Fórum Social Mundial. ‘Um outro mundo é, sim, possível.’   Eu amo a Lomba, disse Eliana, minha voz somada à dela.

Paulo Freire vive, nestes tempos bicudos de pouca paz e sem democracia. A escola pública e cidadã continua bebendo na pedagogia freireana em 2017: diálogo com a comunidade; partir da realidade local, muitas vezes dura, difícil, desafiadora; conscientizar criticamente; formar cidadãs e cidadãos e não meros contribuintes; manter viva e acesa a chama da esperança e da utopia!

O dia luminoso terminou com as crianças/alunos cantando O Sol, do Jota Quest, professoras e professores entoando juntos, lágrimas nos olhos, emocionados, felizes: ”Ei, dor, eu não te escuto mais./ Você não me leva a nada./ Ei, medo, eu não te escuto mais./ Você não me leva a nada./ E se quiser saber pra onde eu vou,/ pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.”

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em primeiro de setembro de dois mil e dezessete

Um pensamento sobre “A LOMBA DO PINHEIRO DE SEMPRE À LUZ DE PAULO FREIRE (Por Selvino Heck)

  1. Como educadora social,fico muito feliz saber que Paulo Freire ,sua metodologia está sempre atual, sendo estudada e praticada nas escolas em Lomba do PInheiro.. A pedagogia do diálogo, , da troca de saberes, de uma nova relação,humana, em que a teoria e prática se fertilizam., buscando a libertação do ser humano.

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