Luta de classes/Rio Grande do Sul

Sobre o Dia do Gaúcho – O que comemoramos, é o que deveria ser comemorado?

“José Carlos Mariategui, esse extraordinário pensador peruano, tem um texto importante no qual fala sobre as tradições do povo peruano. Nele, faz uma crítica severa aos chamados “tradicionalistas” que insistem em impor ao povo uma tradição muito mais espanhola, colonial, do que nacional. Segundo ele, esse tradicionalismo apequena a nação, porque não leva em consideração a história indígena. ” Introdução do Artigo de Elaine Tavares, que reproduzo a seguir

Negros gaúchos celebram os "lanceiros negros", traídos e massacrados em Porongos - para que nunca sejam esquecidos

Negros gaúchos celebram os “lanceiros negros”, traídos e massacrados em Porongos – para que nunca sejam esquecidos

Foto do sítio: http://asdomorione.blogspot.com.br

 

Elaine Tavares no IELA

José Carlos Mariategui, esse extraordinário pensador peruano, tem um texto importante no qual fala sobre as tradições do povo peruano. Nele, faz uma crítica severa aos chamados “tradicionalistas” que insistem em impor ao povo uma tradição muito mais espanhola, colonial, do que nacional. Segundo ele, esse tradicionalismo apequena a nação, porque não leva em consideração a história indígena.

E ao mesmo tempo em que critica o tradicionalismo burguês, Mariategui mostra que existem outras tradições, revolucionárias, oriundas do passado inca que resistem sobre o tradicionalismo oficial. Essas precisam ser mantidas, insiste, porque significam a reintegração espiritual da história e da pátria peruana. Ele entende, obviamente, que o Peru não pode abrir mão do que veio com o colonizador, porque isso já está incorporado e não tem como arrancar, mas, ao falar de tradição, há que ampliar esse leque. Sem o índio não há Peru. Por isso, diz ele, quando se trata de discutir a tradição nacional, há que estabelecer muito bem de que tradição se está falando.

Mariategui me veio à tona agora porque dia 20 de setembro é chamado Dia do Gaúcho no meu estado natal, o Rio Grande do Sul. Um dia em que se celebram os feitos da Revolução Farroupilha, uma luta republicana que teve início em 1835 e que durou 10 anos, tendo o estado vivido essa década como uma república livre do império de Portugal. Muito se critica o fato de se comemorar esse dia, justamente porque a maioria o faz em nome de uma tradição criada pela classe dominante. A própria revolução foi um invento dos fazendeiros locais que não queriam mais pagar impostos elevados sobre o charque e o couro, e incitaram todo o povo ao que chamaram de libertação. Generais como Bento Gonçalves, Davi Canabarro, Domingos de Almeida eram os liberais da época, que queriam ser república para governar sem os entraves de Portugal. Ao fim de dez anos de batalhas, nas quais morreram milhares de rio-grandenses pobres e negros  – a maioria no exército republicano – os generais fizeram acordos por cima e seguiram dominando os campos. Já no século XX, jovens universitários inventaram um gaúcho heroico, bem mais identificado com os patrões do que com os peões, e é essa tradição que segue sendo celebrada ano após ano no 20 de setembro.

Conheço a história do meu estado e quero advogar outra tradição, como a que sugeriu Mariategui. Não existe apenas a história da classe dominante. Existe um gaúcho e uma gaúcha reais, que vestiram o lenço colorado como uma bandeira de verdades e lutaram por ela, na busca real por liberdade. Podem ter caído na armadilha do patrão, do fazendeiro, Podem ter sido traídos, mas foram eles e elas que entregaram seus corpos para que vingasse a república, incendiando também as mentes e os corações de outros tantos brasileiros. Os paisanos, os minuanos, os charruas, os tapes, os peões do descampado, existiram, lutaram e tombaram pela liberdade. Não podem deixar de ser celebrados e lembrados. Sem eles não há Rio Grande. São a outra tradição, escondida ou mascarada.

Sou do campo. Nasci na imensidão da campanha, no interior de Uruguaiana, numa madrugada fria de maio. Durante toda minha infância compartilhei com meu avô a difícil lida da vida rural. Ele era um sem-terra. Precisava arrendar, a preços salgados, um pedaço de chão onde plantava arroz. Acompanhava sua faina, de madrugada, à cavalo, pela campanha, pastoreando as ovelhas, algumas cabecinhas de gado – do patrão – ou enterrado nas taipas, construindo as barragens de água, catando ervas daninhas, cuidando da bomba irrigadora. Ainda encontrava tempo para conservar uma horta gigante, de onde minha vó tirava praticamente tudo que comiam. No terreiro, ciscavam as galinhas e circulavam, livres, os porcos.

A casa de madeira, simples e cheia de frestas, era iluminada nas noites pelo lampião de gás e, nas quentes madrugadas do verão era costume ficarmos no tempo, o céu como teto, com o vô contando causos de assombração. Também era comum ele contar da guerra dos “farrapos”, os quais respeitava muito. Meu avô era filho de imigrantes italianos, não tinha raiz na história gaúcha. Chamava Bento Gonçalves de “carcamano”, mas respeitava a gente gaúcha que lutara pela liberdade. Ele bem sabia o que era ser presa de um latifundiário. Passara a vida assim, bem como seu pai que viera da Itália em busca de vida melhor, e não encontrara.

Por vezes íamos ao rio, pescar. Ele levava o chimarrão, carne seca e os anzóis, e ficávamos quietos, esperando o peixe. Nas idas e vindas, pelo descampado, vinham as histórias. As bravas batalhas do povo da fronteira. Homens e mulheres pobres que engrossaram os pelotões dos maragatos porque acreditavam que com a liberdade viria a vida boa. Muitos deles sequer sabiam as causas da “revolução”.

Desconheciam os desejos dos fazendeiros em lucrar mais com o charque ou de conquistar o poder de uma república. Iam para a guerra porque lhes fora prometida a terra. Ah, quanto vale a terra para quem lavra terra alheia? Também os escravos foram recrutados para a guerra de separação do Brasil, com promessas de liberdade, enfim. E eles seguiram os líderes, crentes de que tudo seria como o prometido. Não foi. Apesar de a República Farroupilha ter resistido por 10 anos, nenhuma promessa se cumpriu. Os negros foram traídos, assassinados, os pobres morreram aos montes e os que sobraram não ganharam terras. Tudo terminou em acordos de cúpula, mantendo-se o poder onde sempre estivera. A guerra dos farrapos só rendeu farrapos.

E eram esses homens e mulheres os que meu avô reverenciava. Cresci com essa certeza, de que tinham sido os empobrecidos do campo, os que ousaram caminhar para um tempo novo, os que mereciam festejos e recuerdos.  Eles tinham um sonho que ultrapassava a ganância dos fazendeiros. Eles iam para as batalhas, com seus punhais, porque sonhavam com outro mundo. Não aquele, de peão escravo, de burro de carga, de povo sem-terra.

Quando cresci e fui estudar sobre as guerras de independência, pude ver que quase todas essas lutas se deram assim. Grupos de fazendeiros, os criollos, a elite latino-americana, foram os que lideraram as massas na busca pela libertação das colônias. Bolívar mesmo era um rico fazendeiro. Só que ele fez opção pela outra classe, a dos trabalhadores, dos escravos, dos sem-nada. Por isso foi traído e destruído. Com ele, destruída também foi a ideia de Pátria Grande. No sul, vim a conhecer Artigas, igualmente um filho de fazendeiro que se bandeou para o lado dos empobrecidos, dos índios, dos negros, e com eles foi traído e massacrado pelos “generais”.

Mas, a história nos mostra que as gentes, com seus sonhos coletivos, ultrapassam os desejos mesquinhos dos pretensos líderes. E assomam, no meio das batalhas, com outros motivos. E constituem gestas heroicas. Assim entendo a saga gaúcha dos farrapos.

É por isso que no 20 de setembro, dia em que no Rio Grande do Sul se celebra o Dia do Gaúcho, em homenagem aos valentes da revolução farroupilha, eu comemoro, celebro “outra tradição”, como ensina Mariategui. Reverencio cada farrapo, cada homem, cada mulher, que enfrentou a monarquia brasileira na busca da liberdade. Porque aquela gente que engrossava as fileiras não queria menos imposto no charque. Queria terra e trabalho. Queria uma vida boa e bonita. Eles merecem nossa reverência. E não apenas os farrapos do 1835, mas cada peão que amanhece ainda na terra alheia, e cuida dela, como um filho cuida de uma mãe.

Eu sei o que significava o olhar do meu avô quando via seu pequeno espaço arrendado parir o arroz. Ou a sua alegria à colher os legumes e verduras que enfeitavam a nossa mesa.

Eu guardo na memória o brilho do olhar de pessoas como Isaltino, Moreira, Zé Ferreira, Tibúrcio, Beto, Naor, índio José, os peões que encontrávamos nos fandangos promovidos nas casas simples de piso de chão. Ali eles abriam a gaita e celebravam os feitos dos farrapos. Porque essa luta vive na tradição mais funda, do peão de estância, do sem-terra. Uma luta que ainda não foi vencida, mas que será. Está para além dos desfiles dos bem-trajados. Vagueia pelos campos e encontra morada na alma dos peões. A liberdade, a soberania, a vida boa, essas “mulheres” desejadas que um dia haveremos de encontrar…

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