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Resenha: “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo

De Falando em Literatura

“O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo, é leitura obrigatória para quem vai fazer ENEM e vestibular no Brasil. Na lista da UNICAMP para 2018 e 2019, por exemplo, consta essa obra. Mas, fora essa obrigação escolar, recomendo esse livro para todos que apreciam a boa literatura brasileira clássica. É um livraço!

O livro  “O Cortiço” (1890) é Naturalista, estilo parecido com o Realismo, só que um pouco mais radical. Entenda um pouco: o francês Èmile Zola foi o precursor desse estilo literário. Nele, o homem é visto como um brinquedo do destino, é fruto do meio, da sua herança genética, ele não pode controlar a própria vida. Zola inspirou- se em correntes científicas, médicas, biológicas e filosóficas, como Charles Darwin e Auguste Comte, para construir seu mundo visto sem eufemismos. A linguagem do Naturalismo é simples, clara e direta. Feio é feio, pobre é pobre, ladrão é ladrão, sexo é sexo, e assim por diante, tudo à vista. O natural em um país de terceiro mundo é ter muitos miseráveis, uma minoria exploradora e muitos explorados.

No caso de “O cortiço”, também é uma crítica à burguesia carioca do século XIX. A realidade naturalista conta todas as mazelas do homem e da sociedade. A estética é a feiura, o submundo, as periferias, as paixões e vícios humanos, o “lado b” dos personagens, sem romantismos.

Aluísio de Azevedo era do Maranhão (São Luís, 14/04/1857) e faleceu em Buenos Aires (Argentina, 14/01/1913), porque era diplomata e trabalhava nessa cidade. Seu pai era viúvo, o português David Gonçalves e uniu- se à sua mãe,  Emília Amália, uma mulher divorciada, foi um escândalo na época. Além de escritor e diplomata, também foi caricaturista, desenhava para jornais.

A obra

“O cortiço”  está dividido em vinte e três capítulos.

A história acontece no subúrbio do Rio de Janeiro. João Romão, português, tem um barzinho. Ele descobre uma forma de fazer dinheiro explorando a pobreza: começa a construir cortiços, que são moradias precárias, amontoadas e baratas. Consegue o dinheiro da quitandeira Bertoleza, viúva,  escrava, cujo proprietário é um homem cego e idoso. Ela trabalha de sol a sol para pagar a sua alforria e o português começa a administrar o seu dinheiro. No final se “amigaram” e ele mente à mulher dizendo que já tinha sua carta de alforria. “- Você agora não tem mais senhor!” (p.39). No entanto, a mulher continua tendo o dono anteior e o novo, o português. Era sua criada, amante e ainda continuava trabalhando na taverna e na quitanda, mas o dinheiro ficava com o lusitano.

João Romão vive para trabalhar de domingo a domingo, mas também para roubar, enganar clientes, não tem nenhuma ética ou honestidade, o dinheiro é o que mais lhe importa. Tudo que ganha vai para o banco e para comprar terrenos e imóveis. Assim começa a ficar rico, porque não paga ninguém para fazer nada, ele mesmo começa a construir o seu cortiço. Rouba material de construção de outras obras, ou seja, construía sem gastar nada. Dessa forma consegue construir três casas, início do seu grande cortiço e também arranja dinheiro para comprar uma pedreira, o que o enriquece.

O autor descreve o processo de enriquecimento emergente, que não mede esforços  e nem tem escrúpulos em lesar o outro. Um individualismo total, criminoso e desumano.

Miranda, um negociante português, muda para a Rua do Hospício, um prédio perto da venda de João Romão, para afastar a mulher de outros homens. Essa é outra história paralela. Miranda pegou em flagra a esposa com outro, mas por interesse e dinheiro não divorciou- se da mulher, Dona Estela. Eles não têm nenhuma relação sentimental, só sexual e financeira, não se falam, odeiam- se. Têm a filha Zulmirinha em comum. E temia um escândalo, “ficava mal para um negociante de certa ordem” (p.18). Miranda quer comprar o terreno de João Romão para ter mais quintal, mas esse não quer de jeito nenhum, o que provocou uma rixa entre os lusitanos.

João Romão foi ampliando seus negócios e enriquecendo cada vez mais. Passa a ser distribuidor de mercadorias com vários depósitos e seu cortiço tem noventa e cinco casinhas. “Estalagem de São Romão. Alugam- se casinhas e tinas para lavadeiras”. (p.38)

As pessoas humildes que querem morar no cortiço, multiplicam- se e são descritas como larvas no esterco. Veja o hiper-realismo característico do naturalismo (p.40):

E naquela terra encharcada e fumegante, naquela unidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar- se como larvas no esterco. 

Quem não gosta nada do cortiço abarrotado de gente ao seu a seu pé é Miranda (p.42):

À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo- se fatigado do serviço, deixava- se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava como seu fartum de bestas no coito. 

Miranda morre de inveja do João Romão que ficou rico sem precisar casar com uma mulher de detesta e ficar amarrado a vida toda.

Na casa de Miranda há três criados, IsauraLeonor e Valentim, esse, um escravo alforriado. E ainda moram na casa dois hóspedes, Henrique, quinze anos, filho de um fazendeiro cliente de Miranda (paga a hospedagem) e o velho Botelho, setenta anos, um “parasita”. (p.52)

No Naturalismo, as descrições são bem explícitas, na do velho Botelho, por exemplo, o narrador comenta até de suas hemorroidas. (p.53)

Botelho é o amigo interesseiro, falso, leva e trás, o que presencia a infidelidade de dona Estela com Henrique (menino de quinze anos!) e ainda cobre e apoia, porque quer continuar vivendo de graça na casa. Ele, teoricamente, é amigo de Miranda, mas a lealdade não é o seu forte.

Uma curiosidade interessante são as profissões que não existem mais como: o “sardinheiro” (vendedor de peixes à domicílio) ou “cavouqueiro” ( pessoa que trabalha em pedreiras), um dos trabalhos mais duros que existe, quebrar pedras. Não, no Brasil essa profissão ainda existe. Seria o trabalho perfeito para condenados por crimes hediondos, não acha? No livro, os que trabalham fazendo paralelepípedos na pedreira de João Romão são chamados de “macaqueiros”. Essas pedreiras realmente existiram no Rio de Janeiro no Brasil Colônia, leia esse artigo.

A vida no cortiço é descrita como um organismo único de sons e costumes.  E na página 74 começam a aparecer muitos personagens: a lavadeira portuguesa Leandra, a “Machona“, que tem três filhos a das Dores, a Neném e Agostinho.

Augusta Carne- Mole, lavadeira, brasileira, mulher de Alexandre, um mulato, têm dois filhos pequenos, entre eles, a Juju, que vivia com a madrinha na cidade, a Léonie, uma “cocote” francesa (p.76), “cocote” é prostituta.

A lavadeira Leocádia, portuguesa, mulher do ferreiro Bruno. E ainda Paula (a Bruxa), uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias.

Também as lavadeiras Marciana e Florinda, mãe e filha. E ainda dona Isabel, viúva de um suicida, com uma filha doente, a “flor do Cortiço, Pombinha” (p.79). Ela tem um namorado chamado João da Costa.

E o único lavadeiro, o Albino,  é afeminado, as mulheres o tratam como pessoa do mesmo sexo. Exceto Pombinha e o namorado, a descrição dos personagens é dura, até cruel.  E uma coisa comum entre todos: são de famílias desestruturadas.

A fofoca para ser esporte nacional mais antigo no Brasil literário e real. Isso fica refletido em “O cortiço”, uma rede de intrigas forte e extensa. Rita Baiana é uma das que caiu na boca do povo por ser uma mulher livre e volúvel.

Jerônimo, excelente empregado de João Romão na pedreira, muito honesto, e sua esposa Piedade de Jesus, também moram no cortiço na casa 35, a de “mau agouro”, “Foi lá que morreu a Maricas do Farjão!” (p.119). O casal tem uma filha, a Marianita. Também são imigrantes.

Depois de meses sem aparecer, Rita Baiana volta ao cortiço com um menino e seu amante, o Firmo. A baiana era a festeira do cortiço.

No cortiço também tinha um grupo de italianos, o DelportoPompeo (“varridos pela febre amarela, p. 361), Francesco e Andréa, todos mascates. Os mascates seriam os representantes comerciais de hoje, só que levavam a mercadoria com eles.

Há muita algazarra no cortiço. Gente demais num espaço reduzido. Miranda grita da janela e reclama do barulho, e de lá, revidam com vaias. E ainda moram no cortiço: o velho Libório e Porfiro.

Numa das festas, Jerônimo (o português casado com Piedade, excelente trabalhador da pedreira) viu dançar a Rita Baiana e não consegue tirá- la da cabeça.

Leocádia (casada com Bruno) transa com Henriquinho, o menino de quinze anos hospedado na casa de Miranda. Ela quer ficar grávida para ser ama- de- leite, porque pagam bem as amas. É sexo só, rápido, sem nenhum romantismo ou compromisso. O marido chega e a vê vestindo afobada a saia, desconfia e lhe dá uma surra, mesmo sem ter visto Henrique ou o ato em si (p. 204). E a coloca para fora de casa.

Lembrando que o adultério no Brasil deixou de ser crime só em 2005 e a Maria da Penha, lei contra a violência doméstica à mulher, entrou em vigor em 2006. Antes disso as mulheres estavam completamente desprotegidas. Raramente há represálias quando o traidor é o homem, já com as mulheres…e sobre ser crime o adultério…hahaha…a lei existia, mas não era colocada em prática, já que seria impossível manter na prisão tanta gente, entre 15 dias e seis meses. Imaginou o Brasil quase inteiro na cárcere?! Brincadeiras a parte, é ridículo que uma lei tão provinciana ainda estivesse em vigor até 2005.

Bem, voltando à história de Jerônimo e sua paixão por Ritinha. O português mudou completamente de hábitos, abrasileirou e já não dormia com a mulher, que encomendou os serviços de feitiçaria de Bruxa. Outro ponto abordado pelo autor é essa, o da superstição sem cabimento. A Bruxa mandou a portuguesa fazer algumas mandingas absurdas.

Firmo e Jerônimo debatem- se em um duelo pela mulata. Pobre Piedade, esposa do português…este saiu pior da briga. Juntou- se com Pataca, Garnisé e Zé Carlos para uma vingança. O cortiço é palco de todas as desgraças humanas, de violência, inclusive contra a polícia. Dinheiro, sexo, cobiça, luxúria e bebida são os estopins. Mas, só num cortiço é assim?

O erotismo é bastante presente na obra, inclusive há uma cena lésbica entre a prostituta Léonie e Pombinha, filha de Isabel, a moça meiga e virginal. Mãe e filha foram visitar a francesa e a menina caiu nas suas garras, enquanto a mãe descansava. Foi praticamente um estupro. A menina nem a menstruação tinha ainda. Pombinha é sensível, inocente e alfabetizada, diferente da maioria do cortiço.

No cortiço, há muitas “confusões sexuais”, maiores transando com menores, como Domingos com a filha de Marciana.  O cara não quer casar com a menina Florinda, que fugiu e a mãe enlouqueceu. João Romão não teve a mínima compaixão pela mulher. Na primeira oportunidade livrou- se da inquilina da pior maneira possível.

João Romão morre de inveja do vizinho Miranda, que era muito mais refinado e bem relacionado, inclusive ganhou o título de barão. E Miranda morre de inveja da riqueza do outro. Romão, por causa da inveja do vizinho, refinou- se, até banho começou a tomar. Começou a comer e beber melhor, a sair, a vestir- se melhor, a usar guardanapo, a civilizar- se.

Os cortiços proliferam- se na cidade do Rio de Janeiro, um deles é o “Cabeça-de-Gato, uma “nova república da miséria”. (p.362)

O forte dessa obra são os personagens, todos eles têm muita força, o enredo realmente fica para um segundo plano.

João Romão, imigrante pobre, sem nenhum escrúpulo consegue a ascensão financeira, e depois, a social.

O final é triste, essa não é uma obra otimista, sempre tenha isso em mente, é uma característica naturalista. João Romão é a metáfora daqueles dias e, infelizmente, dos nossos também.


Recomendo esta edição lida (foto),  baixei muito baratinha no iBooks, porque ela é especial para estudantes, tem um complemento de leitura com detalhes fundamentais da obra, além de questões de vestibulares. No entanto, há outras opções gratuitas de PDF,  como no site Domínio Público .

Azevedo, Aluísio. O cortiço. Ciranda Cultural, 619 páginas, ePUB

Não se assuste, estudante: a quantidade de páginas depende do seu e-reader, do tamanho da letra que você usar, fora que nessa edição há complemento de leitura.

Faça o download de “O cortiço” aqui!

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