Livros/política

SEJAMOS UM DELES (Por Moisés Mendes)

Flávio Koutzii falou hoje à tarde no Santander sobre a sua biografia, escrita pelo Benito Bisso Schmidt e lançada nesta terça-feira pela Libretos. Tinha gente na porta brigando para entrar. Koutzii foi aplaudido de pé logo na primeira intervenção.
Fiz algumas anotações. Gostei da confissão que ele fez, a partir de uma advertência de Benito, enquanto dava depoimentos para a biografia, de que atribuía quase tudo da sua época de resistência a “nós”. Benito perguntava quando iria aparecer o “eu”, a centralidade. E esse “eu” foi aparecendo aos poucos. Foi um aprendizado.
Koutzii disse ter orgulho da noção de coletivo, de geração, de sentimentos, de valores humanistas daquela época. E afirmou: “Éramos muitos, e eu era um deles”.
Lembrou que a missão da direita hoje é exatamente a de tentar desconstituir valores fundamentais de solidariedade e humanismo. E disse que percebe cada vez mais a atualidade de Che Guevara, por causa desses valores e da sua coragem, da capacidade de renúncia e da vida verdadeira.
E falou de Lula para dizer: “Lula é um herói do nosso tempo, Lula tem força moral e caminha pelo Nordeste, enquanto é perseguido e sitiado”. Segundo ele, Lula é uma referência de resistência para o presente e para o futuro.
Foi uma das palestras mais lúcidas, mais fortes e ao mesmo tempo mais poéticas que assisti nos últimos anos. Koutzii comparou uma biografia ao ato perturbador de narrar a própria história diante de um grande espelho. “A biografia interpela a memória”. Ao conceder as entrevistas para a construção do livro, ele entendeu alguns aspectos decisivos da sua relação com a mãe.
Quando fui pegar seu autógrafo, já na praça, lhe disse que havia ficado tocado pela sua vitalidade e pelo sentimento de que transmitira esperança aos que foram ouvi-lo. Ele me informou que uns acham que não, que depende de como cada um ouve o que diz.
Eu acho que sim, que Koutzii nos disse: é possível sair desta, como saímos do horror lá na segunda metade do século 20. Os que resistirem hoje talvez possam dizer mais adiante: éramos muitos, e eu era um deles. E lembrar da bravura e da dignidade inspiradoras de Flavio Koutzii.

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