Luta de classes

LUTA DE CLASSES A PLENO (Por Selvino Heck)

Luta de Classe

Há momentos históricos – Revoluções como a russa, que completou 100 anos em 2017, ou a cubana, a sandinista -, onde/quando a luta de classes está a pleno vapor: disputa de projetos para a sociedade no seu nível mais elevado, enfrentamento de classes, cada uma com sua visão de mundo, sua análise da conjuntura, seus valores, sua utopia, aceleração do tempo em grau máximo, confronto de ideias, luta na rua e em todos os lugares possíveis. Nestes tempos, o diálogo entre as classes é praticamente impossível, até que se defina uma nova hegemonia e uma nova paz social.

Há momentos históricos no plano eleitoral – como a de POA em 1988, Olívio e Tarso e o Orçamento Participativo -, a de Olívio e Miguel Rossetto para o governo do Estado do Rio Grande do Sul – Orçamento Participativo e FSM em Porto Alegre e Rio Grande do Sul -, ou as de Lula em 2002, primeiro operário presidente do Brasil – e a de Dilma em 2010 – primeira presidenta mulher, onde/quando a luta de classes não se expressando diretamente, acaba por expressar-se por programas de governo divergentes, por jeitos diferentes de governar, formas de relação governo-sociedade e prioridades.

Há momentos históricos que a gente escolhe e constrói, como as Revoluções e os processos eleitorais. Outros, por circunstâncias, conjunturas, correlação de forças, não é possível escolher, como quando é dado um golpe, ou militar, ou parlamentar, como o atual, dentro dos quais é preciso navegar, sobreviver, e, finalmente, derrotá-los.

De qualquer maneira, são momentos da história, escolhidos ou não, quando a sociedade dá ou pode dar um salto histórico, pode emergir nova, diferente, transformada, como nas Revoluções e na eleição de governos populares, os historicamente dominados fazendo valer sua hegemonia, ou sofrer as consequências da hegemonia de uma classe, a dominante, sobre a outra por um longo tempo, como nos golpes, especialmente os militares (o golpe de 1964 durou longos 21 anos).

2018 pode ser outro momento histórico e tem tudo para entrar na história. A disputa de projetos, a luta de classes acontece cada dia a olhos vistos, exige respostas, saídas e ações a todo momento, pede futuro e esperança, mesmo ante a truculência, tradicional, dos poderosos de plantão e/ou da classe dominante. Ninguém pode ficar alheio ao que está acontecendo ou ainda vai acontecer, não ter opinião, não tomar posição, não estar contra ou a favor de um lado ou de outro.

2018 começa com 24 de janeiro, julgamento de Lula em Porto Alegre, um julgamento cheio de sentido histórico, perpetrado por um golpe parlamentar-midiático-empresarial, e, portanto, um julgamento com sua visão de mundo, suas patranhas, sua interpretação da lei, suas regras do jogo, seu controle e com final, a princípio, pré-determinado: condenar e prender Lula, cassar o direito de Lula ser candidato. É isso que está em jogo dia 24 de janeiro no TRF-4 em Porto Alegre, terra do Orçamento Participativo e do Fórum Social Mundial.

Estamos na esquina da história. Não se está julgando um homem, não se está julgando apenas Lula. Está se julgando visões de mundo, valores, compromissos, verdades, políticas. Estão sendo julgadas as greves do ABC do final dos anos 1970, tempos de ditadura militar. Estão sendo julgados o Fome Zero, os COPOS, os PRATOS, o SAL, o TALHER e a Rede de Educação Cidadã (RECID). Estão sendo julgadas as cisternas do Nordeste e a ASA (Articulação do Semi-Árido). Está sendo julgado o fato de, ‘pela primeira vez na história’, o povo mais pobre, catadores/as de material reciclável, população em situação de rua terem entrado no Palácio do Planalto e terem se encontrado e conversado com um Presidente da República. Estão sendo julgados lutadoras e lutadores de ontem, de hoje, de amanhã. Estão sendo julgadas/os as/os negras/os, as/os sem-terra, as/os indígenas, as/os camponesas/es e agricultoras/es familiares que tiveram acesso aos Institutos Federais, Universidades e a direitos. Estão sendo julgados o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), a Política e o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, os Conselhos de participação social e popular. Está sendo julgado o aumento real do salário mínimo dos últimos anos. Estão sendo julgadas as políticas sociais com participação popular. Está sendo julgado o povo pobre e trabalhador do Brasil.

Quem está julgando não é apenas o TRF-4. Quem está julgando não é apenas o Poder Judiciário, de longe o pior Poder, anti-democrático, elitista, sem controle social, cheio de privilégios, e o Sistema de Justiça. Quem julga é também a Rede Globo, a RBS, a grande mídia, que sempre apoiaram os golpes, como em 1964, apoiaram o assassinato definitivo da democracia em 1968, apoiaram o golpe de 2016 e o novo assassinato da democracia em 2017. Quem julga é o grande capital, o latifúndio, ‘os ricos, podres de ricos’ (título de livro de Antonio Davi Cattani), que são contra reformas estruturais, como foram contra as Reformas de Base em 1963-1964, e só pensam nos seus milhões e bilhões nos bancos da Suíça e nos paraísos fiscais.

O golpe militar de 1964, aprofundado em 1968, foi derrotado, depois de muito tempo, com luta, resistência e povo na rua, também com dor e sofrimento para muita gente. O golpe de 2016 também será derrotado, mais cedo ou mais tarde. Por isso, os Comitês Populares pela Democracia estão surgindo em todos os cantos e comunidades deste país continente: casas, bairros, vilas, sindicatos, associações de moradores, igrejas, até no meio da rua. Não haverá descanso, não haverá trégua não haverá vacilação. A luta de classes e, portanto, de projetos, e, portanto, de utopia, em 2018, está a pleno.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em dezenove de janeiro de dois mil e dezoito

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