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Mestrado sobre memes nas redes sociais ganha prêmio de melhor dissertação em comunicação de 2017

Trabalho investiga, a partir de uma pesquisa de campo realizada em uma escola da zona norte da cidade de SP, relação de estudantes do ensino fundamental com memes na internet

O Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), da Escola de Comunicações e Artes (ECA – USP), premiou neste mês a dissertação “Memes na Internet: entrelaçamentos entre educomunicação, cibercultura e a ‘zoeira’ de estudantes na redes sociais”, de Douglas Calixto, orientado por Adilson Odair Citelli, como melhor dissertação de mestrado.

Calixto é ex-colaborador de Opera Mundi e cursou jornalismo na Unesp (Bauru). Morou um ano e sete meses nos EUA, onde estudou Graphic Design no Lassen College (Califórnia, EUA) entre 2011 e 2012. De volta ao Brasil, foi repórter e editor multimídia de Opera Mundi, onde desenvolveu o projeto Aula Pública, em parceria com a Rede TVT. Atua como editor multimídia e coordenador de ações educomunicativas.

O jornalista investigou, a partir de uma pesquisa de campo realizada na Escola Municipal Julio Marcondes Salgado, zona norte da cidade de São Paulo, a relação de estudantes do ensino fundamental com os memes. A dissertação foi escrita durante seu mestrado em educomunicação – um método de ensino no qual a comunicação em massa e a mídia em geral são usadas como elemento de educação.

Vanessa de Souza

Da esquerda para direita: Douglas Calixto, autor da dissertação premiada, e os professores Luiz Alberto de Farias e Adilson Citelli, este último o orientador do trabalho

A pesquisa desenvolve um estudo qualitativo sobre as funções dos memes, discutindo as representações e os sentidos atribuídos pelos estudantes aos novos produtos culturais. O pesquisador enxerga os memes como uma linguagem. “É como qualquer outra linguagem verbal ou não verbal, um gênero discursivo utilizado para resolver uma demanda comunicativa”, afirma. Leia a entrevista:

Opera Mundi:  É comum as pessoas usarem os memes em discussões nas redes sociais e como referências em situações adversas do cotidiano. Como essa linguagem começou a ultrapassar o ambiente virtual? Existe um limite entre o virtual e o “real”?

Douglas Calixto: É comum as pessoas usarem os memes em discussões nas redes sociais por uma razão muito específica: eles atendem uma demanda comunicativa. Existe um motivo, por exemplo, para enviar um e-mail e não uma carta. Os memes cumprem um pouco dessa função de linguagem, de dizer pouco, rápido, utilizando o deboche, ironia, entre outros elementos. É uma forma de narrar o cotidiano em um mundo acelerado, em que as pessoas estão sem paciência. A própria configuração das redes sociais permite relações descentralizadas, está todo mundo fazendo muita coisa ao mesmo tempo. Essa relação com os memes supera o que costumamos chamar de “ambiente virtual”.

Real e virtual não se opõem, coexistem em tempos diferentes. É uma perspectiva teórica de que na verdade o virtual acompanha o real. Pensando em um exemplo prático, a nossa voz é produzida por aspectos físicos, como as cordas vocais, que produzem um som. O virtual é o significado e os códigos do que a minha voz está produzindo.

Os memes têm uma função de linguagem que dinamiza nossas vidas hoje em dia. Já podemos dizer, por meio de dados bem concretos em relação a isso, que as redes sociais fazem parte da realidade de grande parte do país. É uma linguagem em pleno trânsito.

Reprodução

A vilã da novela Senhora do Destino, Nazaré Tedesco, é um dos rostos mais conhecidos dos memes brasileiros

OM: Por que você escolheu como recorte a relação de alunos do ensino fundamental com os memes na internet?

DC: A Prefeitura de São Paulo já tem uma política pública que implementa o conceito de educomunicação nas escolas. Isso é algo que não existe no âmbito estadual e dificilmente vamos encontrar no ensino superior. Então, o recorte da pesquisa teve como objetivo encontrar estudantes que de alguma forma estão em contato com a educomunicação, e, a partir da mediação feita por esse campo teórico-prático, saber se há alguma diferença na relação dos estudantes com os memes.

São estudantes que estão em contato com uma perspectiva mais crítica sobre os meios de comunicação, que sabem que a tecnologia não é só os encantos do mercado ou as facilidades de um celular na mão. A educomunicação tem essa ideia de que a comunicação é muito mais abrangente e está relacionada com encontro, diálogo e participação.

Reprodução

Meme com o “professor Girafales”

OM: Com o surgimento dos memes, quais são as principais mudanças nos processos comunicativos?

DC: Os memes são resultados das mudanças significativas dos processos comunicativos. Em 1998, não seria possível compartilhar um meme no Facebook. É óbvio, mas nos ajuda a entender porque os memes são tão bem-sucedidos. A configuração do ciberespaço, que permite relações horizontais e descentralizadas e, a configuração dos algoritmos, condicionam as relações que desenvolvemos nas redes sociais. Todo esse contexto contemporâneo, de comunicações rápidas e efêmeras, condicionaram o sucesso dos memes. É um movimento de “vai e vem”.

Os memes também estão modificando a forma como a gente se comunica. É uma transformação mútua. Eles transformam e são transformados. É preciso trazer os memes em um contexto mais amplo, do que está acontecendo no mundo e na sociedade. As redes hierárquicas, ou seja, redes de transmissões, que forjaram o século XX, como a TV, o rádio, estão dando lugar a redes descentralizadas. Agora temos muitos falando para muitos. Esse é o cenário de ascensão dos memes. Quando isso acontece, tentamos aperfeiçoar nosso processo comunicativo. E nada melhor do que o humor, ironias, paródias sobre situações de destaque e polêmicas.

Considero que o caminho para entender a relação dos memes com o universo acadêmico e a educação formal é não demonizar, nem exaltar: é compreender e tentar transformar a realidade a partir dessa linguagem. Acho que essa é a grande sacada desse trabalho. A ideia é fugir de dualismos e determinismos ideológicos como “os memes estão deixando as pessoas burras, porque ninguém quer ler nada com mais profundidade”, ou “os memes são a novidade do momento, precisamos entender e usar o tempo inteiro porque são divertidos”. Não é uma coisa, nem outra, é uma relação híbrida de disputas simbólicas. No meu caso, no universo da educomunicação, é necessário saber como a gente trabalha isso no interior das escolas.

OM: Que categoria de memes se destacam mais na internet? Os políticos, de afetos, cotidiano, ou os da “zoeira”?

DC: A divisão das categorias é uma questão acadêmica. As categorias servem como classificação para dar sentido à coleta de dados, ao material que você coletou na pesquisa de campo. Como há poucos trabalhos sobre memes que discutem essa perspectiva da linguagem, das funções comunicativas, achamos pertinente criar essas categorias de análise. É importante dizer que pensando nas 3 categorias (afeto, cotidiano, e de “zoeira”), não é possível enquadrar um meme exclusivamente em uma delas. Entre as categorias, há uma relação de dominância. Ou seja, em um determinado meme prevalecem mais as características de uma categoria do que de outra. Até porque a “zoeira” meio que perpassa todas as outras categorias, por conta do tom da provocação e ataque ao interlocutor, que é típico dos dias atuais.

Especificamente entre as categorias, a de cotidiano podemos dizer que é característico narrar fatos do dia a dia. Os estudantes do ensino fundamental usam muito esse recurso, de utilizar o meme para falar de algo que aconteceu na escola, algo que está os perturbando, tensionando a relação com os amigos. Eu lembro do depoimento de uma aluna que é bem emblemático: “olha, tem vezes que eu não sei o que dizer sobre o que está acontecendo comigo, com os meus amigos, família, mas tem sempre um meme que diz para mim”. Grosso modo, é essa a função dos memes de cotidiano, de dar sentido à realidade do dia a dia.
Reprodução

Meme usado frequentemente por jovens nas redes sociais
Os memes de afetos basicamente são os que tensionam as relações entre os estudantes. O tempo todo eles estão enviando meme um para o outro. E os memes da “zoeira”, digamos assim, são os mais famosos. Todo mundo conhece essa ideia de que é possível acionar o humor a partir de um meme, e os estudantes fazem isso o tempo inteiro.

Evento

No dia 19 de abril, às 16h, na ECA-USP, Calixto discutirá como os memes se tornaram um elemento decisivo para compreender a comunicação e educação. O evento faz parte do calendário de “Encontros Abertos” do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da USP. As inscrições podem ser feitas no link: https://goo.gl/nNn2M8.

Local: Auditório Lupe Cotrim – 1º andar do prédio central da ECA/USP – Av. Prof. Martins Rodrigues, 443 – Cidade Universitária.

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