Lula

Lula avisa que não está para brincadeiras (Por Paulo Moreira Leite)

Ricardo Stuckert

Muitos brasileiros ficaram chocados diante da mensagem de Lula publicada em seu site:

“Queridos e queridas companheiras, vocês são o meu grito de liberdade todo dia. Se eu não tivesse feito nada na vida, e tivesse construído com vocês essa amizade, já me faria um homem realizado. Por vocês valeu a pena nascer e por vocês valerá a pena morrer”.

Eu não fiquei incomodado. Preparada em conjunto com seus advogados,  destinada a ser lida num ato público realizado nas vizinhanças da sede da Polícia Federal, onde cumpre uma pena de 12 anos e um mês — sem crime, é bom sempre lembra –, Lula avisou aos brasileiros que não está aqui de passagem nem para fazer brincadeira nem para compor frases de efeito.

Não pede que sintam compaixão. Não reclama das dores impossíveis que o destino lhe trouxe, pelas mãos covardes do egoísmo social e do desrespeito pelas mulheres e homens desafortunados deste país com suas necessidades imensas — que ele, teimosamente, sempre insistiu em minorar.

Retribui a solidariedade de um povo inteiro com o compromisso de mais luta. Encontra nas palavras da pequena multidão que se une todas as manhãs abaixo de  sua janela para dar um grito de guerra e amor (“Bom Dia, Lula!”) a força necessária  para continuar de pé e resistir, mais do que nunca protegendo a própria dignidade sob as condições quase impossíveis de uma vida de 72 anos, viúvo — e nós sabemos com isso aconteceu — os filhos perseguidos, os amigos estigmatizados, a herança histórica, social e política, difamada e massacrada pela fábrica de mentiras e lixo moral em atividade febril no país.

No esforço permanente para não ser sufocado no interior de uma caixa forte sob medida para que sinta-se fraco,  abandonado e só, e então amolecer, dar adeus, virar as costas, Lula permanece na guerra de uma vida inteira, possivelmente iniciada quando subiu na boleia de um caminhão para vir de Caetés para São Paulo. Outro dia os jornais mostraram, mais uma vez, a choupana em que a família vivia e assim foi possível, noa poucos segundos em que se mira uma fotografia, reviver uma história de mais de um século.

Ao enfrentar a mais covarde das injustiças que é uma condenação sem culpa, numa absurda e inaceitável cota individual de sacrifício numa  derrota de retrocessos, da miséria que retorna, a democracia que se enfraquece,  o atraso mais criminoso prevalece, Lula nos lembra que nada mais se pode fazer a não ser seguir em frente,  mesmo nas condições mais adversas, quase impossíveis.

Recorda que a pior das tragédias, a mais assassina, o delírio de inimigos hoje aparentemente tão fortes, que sonham em fazer dele um prisioneiro encarcerado até o último dia de sua vida, poderá ser vencida pela vontade do povo, que tantas vezes, nas mais importantes, se revelou ser sua própria vontade, também. Está falando para o presente e para a História, para os livros que nossos filhos e netos irão ler, um dia, quando tivermos bons livros para construir nossa memória tão maltratada e falsifica.

Não custa recordar que é assim que se fazem os heróis, esse personagens imortais que não podem ser fabricados em laboratório nem pelas agências de publicidade, porque são de carne-e-osso e só tem isso (a carne e o osso) para tentar assumir o destino de seus povos. São filhos da necessidade, não da vontade. Respondem às circunstâncias do momento porque sabem interpretá-las.

Lula permanece entre nós mesmo como prisioneiro, como homem e como uma ideia, como disse no momento em que o cerco se fechava.  Esta é a mensagem insubstituível, de quem não quer virar estátua. Num país onde as necessárias conversas entre as partes opostas do mundo político se encontram em suspenso num precipício histórico, o mais conciliador de nossos políticos — e também por isso o mais generoso — dá um novo passo adiante e promete lutar até o fim, pois sempre valerá à pena. Este é o sentido da vida. Mais uma vez, merece aplauso.

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