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ASSASSINATOS E ANSIEDADE: CUIDADO PARA NÃO FAZER O JOGO DO INIMIGO (Por Ricardo Capelli)

Por que a grande mídia, em especial O Globo, que saudou o fim da ditadura em 84 em editorial, afirmando ter sido um regime que salvou o Brasil do radicalismo da esquerda, trata algo já sabido com tanto escândalo? A família Marinho descobriu somente agora que patrocinou torturas e assassinatos como política de Estado?

A quem serve a divulgação histriônica destes documentos faltando 150 dias para as eleições? Se estão disponíveis desde 2017, por que só agora a “grande descoberta”? Há em curso uma disputa entre civis e militares radicais pela condução do Golpe?

A arte na política consiste em ver os movimentos ocultos, a segunda, terceira, quarta intenção. Nada é por acaso. Na guerra não existe nenhum outro valor ou princípio que norteie as ações que não seja a vitória e o poder.

Churchill hesitou quando tomou conhecimento da Operação Overlord. Assombrado pela derrota para os Turcos em Galípoli na Primeira Guerra, com um grande número de baixas, sabia que o desembarque na Normandia pintaria o mar de “vermelho -sangue” dos aliados.

Eisenhower decidiu marchar na batalha conhecida como o dia D. Os Aliados tiveram mais 200 mil baixas entre mortos, feridos e desaparecidos, mas ganharam o confronto.

Hitller foi enganado. Os aliados construíram tanques e aviões infláveis e posicionaram na costa, sinalizando que a invasão seria em Calais. O nazista mordeu a isca, errou o movimento real do adversário. Deu mais um passo em direção à derrota.

Não se iludam. Bolsonaro comparar os assassinatos com o arrependimento do “tapinha que você dá no seu filho” terá impacto zero no seu eleitorado. Pelo contrário. Abre a oportunidade para ele afirmar que a VPR de Lamarca matou soldados, e que Marighella foi um assassino frio e cruel. É o perigo comunista de volta.

Na esquerda já começaram as cutucadas entre os nacionalistas, que repudiam a tortura e os assassinatos, mas reconhecem pontos positivos no planejamento econômico nacional do período militar, e os que rejeitam tudo que foi feito sobre as sombras do regime.

A radicalização, com propostas de reabertura da Comissão da Verdade e a “exumação e prisão das ossadas de Geisel”, farão a alegria dos radicais, de esquerda e de direita.

A quem serve afastar os militares de qualquer possibilidade de interlocução com o campo popular e democrático brasileiro? Há em curso no mundo algum projeto soberano sem a presença dos militares? Na China, na Rússia, nos EUA ou na Venezuela existiriam os regimes que existem hoje sem estreita sintonia com as forças armadas destes países?

A quem serve a cristalização de pólos criando um vazio político no Centro? O que acontecerá com o eleitor médio assustado com a pancadaria? Vai para onde? Recolocar fuzis nas mãos da esquerda revivendo as organizações de resistência revolucionária serve a quem neste momento?

Nosso isolamento é imenso. Tiraram o gênio do fascismo da garrafa e querem nos isolar, cada vez mais. Vejam o editorial do Globo de Hoje:

“Revisitar aqueles tempos de escuridão ensina que nada existe no Brasil, a partir da Constituição de 88, que permita ao Estado sequestrar, executar cidadãos e cercear as liberdades em geral. Há imperfeições, é certo, mas as instituições funcionam, e o estado democrático de direito vigora.”

O Estado Democrático de Direito vigora? Reviver a ditadura funciona como bengala para legitimar o estado de exceção em curso hoje?

Muito cuidado. A velocidade da internet e a necessidade de respostas imediatas para problemas complexos aguçam a ansiedade e podem tirar a capacidade de reflexões mais profundas.

Morder a isca e acreditar em aviões e tanques infláveis é o caminho certo para derrota.

O Globo

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