Brasil

PREPAREMO-NOS! (2) – O DERRETIMENTO DE UM PAÍS (Por Selvino Heck)

“Estamos vendo o derretimento de um país, que finalmente estava começando a ser Nação.   Entre tantos sinais, segundo análise do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA), com a PEC da Morte, que congela os gastos públicos de áreas sociais por vinte anos, em 2024 o Brasil vai parar. Isso se a travessia até lá, mantido o atual quadro político, econômico e social, não piorar ainda mais a situação.”

bandeia_derretida-1-850x491Escrevi mensagem com o título ‘PREPAREMO-NOS!’ em 19 de março, logo depois do Fórum Social Mundial em Salvador, Bahia, enviada a um conjunto de companheiras/os, transformada, depois, em 5 de abril, em artigo público. Dois meses e meio depois, 15 de junho, vale a pena revisitar a análise então feita. Quase tudo então escrito concretizou-se/realizou-se. Para pior.

Escrevi então: “Me convenci: o que está acontecendo no Brasil (América Latina e mundo) e o que está por acontecer no Brasil é muito, muito, MUITO mais sério do que conseguimos ver e antever agora, hoje, 19 de março de 2018, e do que, regra geral, com suas exceções, foi dito, discutido e analisado no FSM em Salvador.”

O quadro econômico-social tem piorado todos os dias. Basta ir nas ruas, ver as filas de desempregados, ver a população em situação de rua crescendo geometricamente, as famílias voltando a usar fogão a lenha porque não podem pagar o gás, o Brasil ameaçado de voltar ao Mapa da Fome, segundo a ONU, de onde tinha saído finalmente nos governos Lula e Dilma.

O quadro político está cada vez mais instável. Mas o governo golpista não cai, nem cairá, tampouco o presidente golpista, apesar de todas as denúncias de corrupção deslavada e incapacidade política (vide greve dos caminhoneiros), renunciou ou renunciará.

Estamos vendo o derretimento de um país, que finalmente estava começando a ser Nação.   Entre tantos sinais, segundo análise do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA), com a PEC da Morte, que congela os gastos públicos de áreas sociais por vinte anos, em 2024 o Brasil vai parar. Isso se a travessia até lá, mantido o atual quadro político, econômico e social, não piorar ainda mais a situação.

Competente análise de Roberto Malvezzi, o Gogó, com o título ‘Cinco cenários eleitorais para 2018’, distribuída via redes sociais, diz: “A conclusão do grupo – Novos Paradigmas – é que nada está seguro, tudo está incerto.” Resumo meu dos cinco cenários: 1. Eleições, com Lula candidato ‘sub judice’, podendo ser impedido posteriormente. 2. Lula impedido: revolta popular, povo votando branco ou nulo. O eleito será ilegítimo. 3. Alguém assume a candidatura Lula ou é apoiado por ele. 4. Não haverá eleição:  Temer deposto, assumindo Rodrigo Maia, ou eleição indireta pelo Congresso. 5 Intervenção militar, mais remota depois da greve dos caminhoneiros.

Única certeza, segundo Gogó (se houver eleições, grifo meu): “Deve-se investir seriamente na eleição de deputados federais e estaduais e senadores e governadores, para equilibrar as forças no país”.  Como analisa Márcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, as eleições de 2018, se acontecerem, poderão ter a importância das eleições de 1930, num embate político sem precedentes: ‘nós contra eles, eles contra nós’.

Assim está sendo e vai ser 2018, 50 anos depois do maio de 68, 50 anos depois da Passeata dos Cem Mil, a serem completados no final deste mês, 50 anos depois da Conferência de Medellin, do CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano), consagrando a Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres pela igreja católica.

Que fazer? Reafirmo hoje, 15 de junho, ‘ipsis literis’ o que escrevi em 5 de abril:  ideias/propostas, para debate, ação política e agenda do próximo período, agenda não exclusiva, ou mesmo preferencialmente, eleitoral.

  1. Parar de se iludir. Achar, por exemplo, que o assassinato de Marielle e Anderson vai oportunizar uma virada. Mais provável que não. Poderá levar ao endurecimento e a maior repressão. (Aliás, passados três meses, quem assassinou Marielle e Anderson?)
  2. Achar que a eleição de outubro, se acontecer, vai resolver todos os problemas. Em todo caso, é preciso exigir e lutar por eleições em outubro, com a possibilidade e o direito de Lula ser candidato.
  3. Estudar, aprofundar a reflexão sobre a estrutura de classe e a história brasileiras, a correlação de forças, a luta de classes a pleno em curso, de preferência coletivamente.
  4. Fazer/retomar o trabalho de base, a formação política e a organização popular. Ocupar todos os espaços possíveis, do bairro/comunidade às articulações nacionais.
  5. Preparar-se e estar prontos para uma luta de médio e longo prazos.
  6. Organizar cada vez mais luta de massas, aos poucos e sempre mais, de multidões. (O Acampamento de Curitiba estás sendo um exemplo de coragem e resistência democrática.)
  7. Trabalhar toda unidade possível, urgente e necessária, do campo popular, da esquerda, progressistas, democratas, para resistir ao que virá. Realizar/organizar unitariamente o Congresso do Povo com todas as forças políticas e populares.
  8. Ir para a desobediência civil. Foi assim a resistência nos anos posteriores a 64: a luta de todas as formas, as greves legalmente proibidas mas legítimas, as ocupações no campo e na cidade, nas Universidades e escolas, e tantas outras formas de desobediência civil dos tempos da ditadura, a serem pensadas nos tempos de hoje e no contexto atual. O uso, por exemplo, dos atuais meios de comunicação, rádios comunitárias, redes sociais, etc.

Único ativo ainda e efetivamente disponível: o povo brasileiro. O resto, o mais – grande mídia/mídia em geral, Burguesia nacionalista (ainda existe/alguma vez existiu?), Sistema de Justiça (com as honrosas exceções), Poder Legislativo (em sua grande maioria), Poder Executivo federal, classes médias, especialmente a alta – não conta, não contou em 1964 para defender a democracia e em tantos outros momentos cruciais da história brasileira. São escravocratas até o coração/raiz dos cabelos, antinacionalistas, entreguistas, gostam de privilégios e não de igualdade, justiça e de projeto de Nação.

Escreve Gogó, e eu concordo: ”Por fim, eleição não é o único mecanismo democrático de uma nação. A democracia direta, as ruas, as pressões populares sempre serão indispensáveis, inclusive hoje nas redes sociais. De resto, só incerteza.”

O povo brasileiro, mais uma vez, em sua coragem, generosidade e capacidade de luta, não aceitará o derretimento do país. O povo brasileiro salvará o Brasil.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em quinze de junho de dois mil e dezoito

Um pensamento sobre “PREPAREMO-NOS! (2) – O DERRETIMENTO DE UM PAÍS (Por Selvino Heck)

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