Livros

A OPÇÃO SUL AMERICANA: Escritos de Marco Aurélio Garcia em Livro

MAG

COMPETÊNCIA, AÇÃO, ERUDIÇÃO E SAVOIR FAIRE

Por PAULO SÉRGIO PINHEIRO
Conheci Marco Aurélio Garcia em Paris, quando ele lá
chegou, depois do golpe de Augusto Pinochet no Chile em
1973, com sua mulher Elizabeth e seu filho Leon – salvos por se
asilarem na residência do embaixador do Panamá, que acolheu
centenas de asilados. Voaram, portanto, para Paris partindo do
Panamá, onde ao pé da escada do avião o general Omar Torrijos
aguardava os exilados com uma caixa de charutos que entregava
aos recém-chegados. Em 1979, quando voltou ao Brasil, foi lecionar
no Departamento de História da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), com grande apoio do historiador Michael
Hall. Logo depois, assumiu a direção do Arquivo Edgard
Leuenroth (AEL), transformando-o na mais importante instituição
de história social no Brasil e a maior coleção de imprensa
operária brasileira nas Américas.
Coordenou os programas de governo de Lula, candidato
ao governo em 1994, 1998 e 2006, assim como o da presidenta
1. Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a República
Árabe Síria da Organização das Nações Unidas (ONU), desde 2011, Genebra.

Quando Lula constituiu o seu governo paralelo,
em 1994, uma espécie de shadow cabinet da oposição, Marco me
convidou para tratar das questões de direitos humanos e de segurança
pública. Desde então, nos tornamos amigos de toda a vida.
Tinha uma enorme generosidade, regada com formidável senso
de humor. Era uma combinação – sem nunca ser pedante, e nunca se
levando muito a sério – de gourmet e cozinheiro rebuscado, conhecedor
de vinhos e fumante de charutos até o fim, erudito nas artes e na música,
torcedor inveterado do Internacional; de uma delicadeza permanente,
salpicada, quando necessário fosse, pelo francês fluente. Sempre
me surpreendi encontrando mundo afora interlocutores, distantes do
horizonte político de Marco Aurélio, encantadíssimos com ele e ávidos
por notícias suas. Leitor devorador de livros de toda ordem e jornais,
antes da internet, que se acumularam no modesto apartamento na Rua
dos Pinheiros, onde viveu quase toda vida depois da volta do exílio
até se mudar, faz pouco tempo, para o prédio icônico de Niemeyer na
Praça da República, em São Paulo, vizinho de seu filho Leon e do neto
Benjamin. Depois da mudança, nem teve tempo para arrumar sua vasta
biblioteca, agora alojada com seu monumental arquivo na sala com seu
nome no AEL.
Evidente que todo esse background acumulado determinaria a sua
vida depois de anos de exílio, ensino no exterior e viagens aéreas por
todo o mundo, quando passou a ser secretário de Relações Internacionais
do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1990 – quando foi criado
o Foro de São Paulo com partidos políticos e organizações de esquerda
da América Latina e do Caribe, para discutir alternativas às políticas
neoliberais e para promover a integração latino-americana no âmbito
econômico, político e cultural. Creio que, somando os seus cerca de 15
anos na gestão da política internacional do PT e os períodos de assessor
internacional dos presidentes Lula e Dilma, lá se vão quase 30 anos.

Ainda que seja quase impossível que a política externa tenha linhas
imutáveis numa conjuntura nacional e internacional que se transforma
em tempos diversos, tento nestes textos desvendar algumas das
principais linhas de força do pensamento de Marco Aurélio.
Desde o início de sua presença no governo federal, foi estabelecida
uma nova formulação entre o “externo” e o “interno”, deixando claro que
o interesse nacional não pode existir separado da posição que o Brasil
buscava ocupar num mundo hoje cada vez mais assimétrico e complexo.
O fascinante é que a ascensão de um governo com enlaces populares
se dá, como lembra Marco Aurélio, em um período de globalização
econômica e financeira agudas. O que não necessariamente implicava
uma política de confronto com o único hegemon, os Estados Unidos.
Não esqueçamos que o governo Lula se iniciava ao mesmo tempo que a
aventura norte-americana no Iraque. Não deixa de ser prosaico que aquele
sobre o qual Lula, se referindo às convicções profundas, teria dito: “ele
não diz nada, mas batizou o filho dele de Leon…”, fosse capaz de transitar
com enorme aisance entre os interlocutores do governo Bush, como seu
assessor de segurança internacional, o general Jim Jones. Mas essa facilidade
de trânsito não se limitava aos EUA, abrangia toda a Europa; por
toda capital pela qual passava, Marco Aurélio deixava um rastro de competência
e eficiência no qual não faltava uma memória de encantamento.
Para atuar nessa globalização foi necessária a formulação de princípios
claros, válidos para o relacionamento com quaisquer regimes.
Entre esses princípios, talvez o mais preponderante no pensamento de
Marco Aurélio tenha sido o fortalecimento do multilateralismo no bojo
de uma configuração de um sistema mundial multipolar. O Brasil, no
governo Lula, se dedicou à criação de mecanismos de governança global
para enfrentar os desafios daquele tempo: “a paz e a segurança coletiva,
a democratização das relações internacionais, a construção de uma
nova ordem econômica e financeira, e a preservação do clima e do meio
ambiente”, que destacaram o protagonismo do Brasil como potência
emergente. O Grupo dos 20 (G20), por exemplo, foi transformado de
instância técnica, sob a iniciativa do Brasil, num foro prioritário de
questões cruciais a serem resolvidas, como a anarquia dos mercados financeiros,
o combate ao protecionismo. Em várias reuniões, o Brasil
defendera a proteção do emprego e dos setores mais carentes das sociedades
do Sul.
Outra linha de força que se deveu efetivamente à reflexão e à ação
de Marco Aurélio foi a chamada “opção sul-americana”. Nenhum dos
trunfos com que a região contava deixou de ser aproveitado para acordos
e políticas comuns: o maior potencial energético do mundo, zonas de
paz, escassos contenciosos de fronteira. Ficou claro para Marco Aurélio
que, além da integração física e energética, precisavam ser construídos
instrumentos de integração produtiva. A partir, especialmente, de 2004
– a prioridade número um, que se deve em grande parte à extensa rede
de contatos, ao empenho e ao savoir faire de Marco Aurélio –, foi aprofundada
a aproximação com os 12 países sul-americanos, dos quais dez
fazem fronteira com o Brasil, dinamizando instrumentos de integração,
como foram a União de Nações Sul-Americanas – Unasul, e a Comunidade
de Estados Latino-Americanos e Caribenhos – Celac. Ele
percebeu desde cedo que esse processo de integração era tarefa urgente,
que exigia consistência e rapidez, num momento de transição de um
mundo unipolar para multipolar.
As relações Sul-Sul foram outra linha de força aprofundada. A emergência
da China e da Índia, trazendo para a Ásia um novo polo de desenvolvimento,
e a Federação Russa retomando o papel de protagonista na
ordem internacional, formando com a África do Sul um grupo político de
cooperação. A inflexão em direção à África correspondia à clara percepção
da emergência de novos atores naquele continente. A criação mais significativa
da opção Sul-Sul foi a Ibas, criada por um acordo entre a Índia, o
Brasil e a África do Sul, sinalizando a articulação entre três grandes democracias
multiétnicas localizadas em três continentes.
Creio que essa combinação rara de globe-trotter e de gestor da política
externa brasileira sempre em missão política pelo mundo inteiro, deu
a Marco Aurélio Garcia condições excepcionais para observar à chaud,
como gostava de dizer, a cena internacional, sempre a partir de ângulos
imprevistos e de intervir na criação de políticas. Por isso, seus ensaios
jamais estão desencarnados da ação. Essa larguíssima experiência, quase
rara na diplomacia presidencial, está plenamente refletida neste livro.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s