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FRASES, OU PERGUNTAS, DEFINITIVAS DE MAMÃE (Por Selvino Heck)

Fogão‘Der Neymar hat nicht gut gespielt – Neymar não jogou bem!’, diz-me mamãe em alemão, que é como nos comunicamos no cotidiano, quando cheguei em casa Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, durante a Copa na Rússia, Brasil já eliminado.

Quando mamãe, agricultora familiar a vida inteira, de quase 92 anos, diz isso assim sem que se espere, é preciso, por óbvio, prestar atenção, e pensar. A frase foi dita assim de repente, depois do Brasil eliminado na Copa da Rússia. Ela acompanhou os jogos, quase todos de todo mundo, mais, é claro, os do Brasil. Gosta de futebol, embora, de jogadores, só conheça o Neymar e o goleiro Márcio do Corinthians, este, não por ser gaúcho, mas pelos seus longos cabelos. Do que mamãe mais gosta, além dos gols, é da entrada dos times em campo, os jogadores acompanhados e de mãos dadas com crianças. O jogo começa ali, que ela olha até o fim, antes mesmo da bola rolar.

Mas ela viu, deu-se conta que o Neymar não jogou nada, e assim Brasil caiu fora da Copa. Perdeu-se parte do encanto, para todos e para mamãe. São os tempos que vivemos, são os tempos no Brasil: o time brasileiro é/foi mediano, dependemos de um jogador, bem diferente de outras Copas, quando o Brasil tinha vários craques, tinha alternativas no banco, metia medo nos adversários. E quando mamãe consegue enxergar isso, é porque não havia mesmo como avançar ou ser vitorioso.

‘Vege was is der Lula in die Cadêe? Der hat doch nicht gestol. Und hat so viel die Leute, die Kolonisten und die Armen geholf. So Viel gutes gemacht – Por que Lula está na cadeia? Ele não roubou nada. E ajudou tanto o povo, os colonos e os pobres. Ele fez tanta coisa boa!’, disse mamãe.

Quatro e meia da madrugada de um desses dias frios/gelados de julho, ‘deste longo e tenebroso invernos em nossas vidas e na sociedade’, como escrevi outro dia, acordo com as frases martelando na minha cabeça. Para não esquecê-las, levanto e as anoto.

Não são frases porque sou o filho mais velho que andou um monte de tempo em Brasília, nos governos Lula e Dilma, aparecendo lá de vez em quando. As frases de mamãe são porque ela viu acontecer muitas coisas boas ao seu redor nos últimos anos/décadas, fruto de ações e programas do governo federal:  as políticas de apoio aos agricultores familiares, a estrada com asfalto na frente de casa, a partir de uma emenda parlamentar da deputada Maria do Rosário (que sempre relembra o dia da inauguração do asfalto, quando que foi em casa de mamãe conhecê-la), meus irmãos mais novos, que são agricultores familiares e feirantes de alimentos plantados, produzidos e colhidos em casa, podendo, pela primeira vez na vida, comprar um trator grande novinho em folha, zero quilômetro. E tantas outras coisas boas!

Esta semana, em 25 de julho, festejou-se o Dia do Colono no Rio Grande do Sul, data celebrativa dos primeiros imigrantes alemães, meus antepassados e de mamãe, que chegaram a São Leopoldo em 25 de julho de 1824. Cada família recebeu colônias de terra, de 25 hectares. A colônia do vovô José e da vovó Gertrudes Kroth Heck ainda está inteiramente preservada, até com um pedaço de mata virgem.

Os problemas das/os colonos, agricultoras/es familiares, camponesas/es são  muitos. Estruturais, como a questão sucessão familiar na propriedade. Antigamente, os filhos eram muitos (lá em casa somos nove) e não havia terra para todo mundo. Assim, os descendentes começaram a se espalhar. Há Heck (e Hickmann, da minha mãe) no Norte do Rio Grande do Sul, Oeste catarinense, Sudoeste do Paraná, na Argentina, Paraguai, inclusive no Norte do Brasil. E conjunturais: os problemas de sobrevivência, as precárias condições de vida no interior – educação, comunicação, etc. -, a distância de tudo, do mínimo conforto, e assim por diante.

Nos últimos anos/décadas, tudo melhorou muito, nos governos Lula e Dilma e alguns governos estaduais: apoio com políticas públicas, prioridade de recursos orçamentários, olhar dos governantes para quem mais precisa.

Mas também as conquistas são  fruto da organização e da luta de agricultores familiares, através dos STRs (Sindicatos de Trabalhadores Rurais), de Centrais Sindicais como  a CUT, de Movimentos como o MPA (Movimento de Pequenos Agricultores), MST, FETRAF e todas as formas de mobilização de homens e mulheres agricultoras em busca de direitos, de melhores condições de vida: acesso a crédito, acesso à educação e até à Universidade, Feiras do Produtor, venda de alimentos para escolas, o PAA, os Planos Safra, a Política e o Plano de Agroecologia e Produção Orgânica, tantas políticas e programas ajudando agricultoras/es familiares, camponesas/es a se manterem no campo, a terem condições dignas de vida, com bem-estar, internet em casa, com cultura, com perspectiva de futuro e esperança. 70% por cento dos alimentos consumidos por brasileiras e brasileiros vêm da agricultura familiar e camponesa. E alimentos cada vez mais adequados e saudáveis, que carrego, das sobras da Feira, para meu apartamento em Porto Alegre.

Por isso, a pergunta de mamãe sobre Lula faz todo sentido: ele e seu governo deram nova vida e esperança a quem trabalha na terra no Brasil. Agora, 2018, tudo que foi construído e implementado nos últimos anos está desmoronando ou sendo eliminado pelo governo golpista.  

No final de semana, enquanto acontecem as Festas do Colono na Comunidade Santo Antônio da Linha Santana, Venâncio Aires, nas vizinhas Linha Santo Antônio de Mato Leitão,  Passo do Sobrado e Vale Verde, no meio do frio e chuva deste longo e tenebroso inverno em nossas vidas e na sociedade, sentado à beira do fogão a lenha tomando um chimarrão com mamãe, comendo pinhão na chapa quente, ou laranjas e bergamotas colhidas diretas do pé, vou ler para mamãe, em português, traduzindo para o alemão palavras que ela eventualmente não entenda, a carta que o preso político Lula escreveu dia 25 de julho, em homenagem ao Dia do Colono.

Escreveu Lula:  “Hoje é dia do trabalhador rural, que produz o alimento para a cidade. Meu abraço de solidariedade para todas as famílias de pequenos agricultores e camponeses que vivem no campo, lutando por dignidade.

No nosso governo ampliamos o crédito, a assistência técnica, teve o PAA, programa que adquiria alimentos para a merenda dos pequenos agricultores locais, Mais Alimentos, para adquirir máquinas para aumentar a produtividade. O Luz para Todos, levando energia para o campo. O Caminhos da Escola com transporte para levar e trazer a criançada para estudar.

Somente dando condições de crédito barato, tecnologia, energia, saúde e educação no campo, é possível manter as famílias no meio rural, ao invés de terem que morar em favelas nas grandes cidades.”

Espero ter, de alguma forma, explicado as frases e  respondido as perguntas de mamãe. Em alemão, como convém, no caso.   

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1997-1990)

Em vinte e sete de julho de dois mil e dezoito

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