política

LONGA JORNADA NOITE A DENTRO (Por Selvino Heck)

Ditadura MilitarAh a dor a dor imensa a dor que não consegue ver os corpos sendo resgatados aos poucos e os testemunhos e os gritos o choro e as lágrimas de quem não pode compreender muito menos aceitar porque uma multinacional poderosa das maiores do Brasil e do mundo não VALE nada não sabe não pode não quer proteger seus trabalhadores os moradores do seu entorno as águas as florestas os bichos e todos aqueles e aquelas que davam dão darão seu sangue seu suor para os acionistas na Bolsa ganharem milhões bilhões seus Executivos ganharem bônus todo final de ano mas eles não estão preocupados a não ser com o lucro e com suas mansões afinal eles não morrem na lama eles não morreram não morrerão enterrados debaixo das águas do turbilhão de barro misturado com pele enrolado nos cabelos sangue e fezes e materiais tóxicos venenos que entram na garganta percorrem o estômago descem pelas veias mas o coração duro deles  não vê a dor ah a dor que se funde com todas as tragédias e tantas outras tragédias que parece que meu corpo não vai suportar esta dor lancinante meu coração parece arrebentar tudo vai explodir será que ainda estou vivo será que ainda vale a pena lutar será que ainda tenho tempo aos sessenta e sete quase sessenta e oito e chego neste ano fatídico meio vivo meio morto chego neste dois mil e dezenove do século vinte e um depois de quase cinquenta anos de militância de todos os tipos e vejo meu país sendo arrebentado derretendo sendo destroçado como se fosse nada como se fosse pura mercadoria como se a democracia fosse mero adereço e eu que com tantas outras e tantos outros briguei muito e o tempo todo nas ruas nas vilas nos bairros nas escolas nas igrejas para que todas e todos brasileiras e brasileiros tivessem pudessem todos os dias tomar café da manhã com sua família almoçar com seus parceiros de trabalho e vida jantar com seus vizinhos como um ‘sapo barbudo’ propôs e fez acontecer num país onde a fome era endêmica e o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU  e por isso ele o ‘sapo barbudo’ virou inimigo público número um porque deu de comer a quem tinha fome deu emprego a quem só vivia de bico ou de restos de comida jogados fora e agora impedem este ‘sapo barbudo’ generoso amigo dos pobres solidário companheiro de ir ao velório e enterro de seu irmão mais velho quase seu pai um direito sagrado um direito universal um direito que é garantido aos inimigos na guerra mas não vale para ele porque eles ELES são os mesmos que lucram com Mariana e Brumadinho e não estão nem aí para direitos não estão nem aí para quem mora ao lado da barragem ou em qualquer lugar porque só lhes interessa o dindim no bolso interessa a taça de champanhe borbulhante interessam as notas verdes nas Bahamas e nas Ilhas Caiman o resto ora o resto não conta nunca contou e agora olho ao redor espio pela janela desta minha Porto não mais alegre e vejo a população em situação de rua em todas as esquinas pedindo pão querendo água neste calor infernal querendo viver e vou na Lomba do Pinheiro de tantas lutas e todas e todos dizem lamentam que o desemprego cresce e que a fome está voltando sim a fome está voltando onde não havia mais fome e dizem e vejo que a dor e o sofrimento estão de volta nas casas nas bocas das crianças e dos velhos e eles assim mesmo ou por isso mesmo estão acabando com o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional aquele do Fome Zero do Programa de Aquisição de Alimentos da Economia Solidária da produção agroecológica  e ainda mais vejo o ódio nos olhos e rostos e vejo a não solidariedade vejo as armas nas mãos como solução e vejo gente saindo da pátria amada até deputados federais porque estão ameaçados nas suas vidas e de suas famílias e não querem nem podem morrer como Marielle e Anderson e tantas outras e tantos outros que morrem todos os dias jovens negras e negros LGBTTs mulheres a crueldade e a violência tomaram mesmo conta me pergunto e não acho respostas e não sei o que dizer não sei o que e como escrever quando havia tanta esperança faz tão pouco tempo havia tanta democracia e tanta participação e não sei ainda se se pode pensar num outro mundo possível se ainda é possível oferecer rosas distribuir carinho ter compaixão estar junto e ser feliz se a dor é tão imensa e está em todos os lugares e se ainda e se ainda me pergunto me torturo mas eu quero ficar nessa terra amada porque eu amo esta terra eu amo suas águas seus morros seus riachos eu amo seu povo eu amo sua história de luta e resistência e eu como o ‘sapo barbudo’ prefiro ir preso e gritar minha solidão e chorar meu desespero sentado nas pedras deste chão bendito e por isso vou resistir a todas as dores a todo sofrimento a todo desespero e eles não vão ganhar não serão vitoriosos não adianta ditaduras ferozes ou ditabrandas ou ditaduras civis ou golpes ou o que seja porque vou ficar e sou serei somos seremos milhões de vozes resistentes vozes de jovens vozes de mulheres de mineiros de metalúrgicos de pedreiros de seringueiros de pescadoras de sem terras de costureiras de sem teto de cientistas de bancários de professoras e professores de quebradeiras de coco de camponeses de agricultores familiares de funcionários públicos de aposentados de gente simples de gente do povo porque a vida continua a luta continua e assim será sempre apesar da dor lancinante VENCEREMOS.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em primeiro de fevereiro de dois mil e dezenove

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s