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Tres análises sobre as razões da alta rejeição de Bolsonaro

Do Nexo Jornal

Pesquisa do Datafolha indica que presidente tem nova piora de popularidade, com oito meses de governo. O ‘Nexo’ ouviu cientistas políticos sobre o tema

A rejeição ao governo de Jair Bolsonaro cresceu mais uma vez entre a população, segundo pesquisa do Datafolha divulgada na segunda-feira (2). Agora, esse índice está em 38% dos brasileiros, o mais alto registrado pelo instituto nos oito meses do mandato de Bolsonaro. São as pessoas que consideram o governo ruim ou péssimo. Já o índice de aprovação ao governo ficou em 29%. Foi uma queda numérica em relação à pesquisa anterior, mas dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Ou seja, o índice de quem considera o governo ótimo ou bom se manteve estável.

QUADRO GERAL

O setor em que mais Bolsonaro mais perdeu apoio foi o de brasileiros com renda mensal acima de dez salários mínimos. Ateus, moradores da região Nordeste e pretos estão entre os grupos que mais rejeitam o atual governo. Já evangélicos neopentecostais, habitantes das regiões Sul e Centro-Oeste e brancos estão entre os que mais o apoiam. O Datafolha realizou 2.878 entrevistas com brasileiros a partir de 16 anos de idade em 175 municípios, incluindo todas as regiões do Brasil. O instituto também mediu o otimismo com o governo Bolsonaro

PERSPECTIVA

O presidente questionou a validade da pesquisa e o trabalho do Datafolha como um todo. Ao falar com jornalistas na manhã desta segunda (2), Bolsonaro disse: “alguém acredita no Datafolha? Você acredita em Papai Noel?”. A pesquisa divulgada nesta segunda (2) foi feita entre 29 e 30 de agosto de 2019. O levantamento anterior do Datafolha sobre aprovação do governo federal havia sido feito em 4 e 5 de julho de 2019. Nos quase dois meses que transcorreram entre as duas pesquisas, alguns dos principais acontecimentos políticos nacionais foram: a aprovação da reforma da Previdência na Câmara o pico de queimadas e desmatamento na Amazônia, que teve repercussão internacional e motivou crises diplomáticas entre o Brasil e países como França e Alemanha a pressão de Bolsonaro para interferir em órgãos ligados ao combate à corrupção como Receita Federal, Polícia Federal e Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) atritos públicos entre Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro Bolsonaro usou o termo pejorativo “paraíba” para se referir a nordestinos no geral, o que gerou reação de governadores da região a indicação de Bolsonaro, ainda não formalizada, para seu filho e deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos

O Nexo ouviu três cientistas políticos a respeito das razões para a queda de popularidade de Bolsonaro e o que pode acontecer daqui para frente, nos próximos meses: Carlos Melo, do Insper Carlos Pereira, da FGV-RJ Carolina de Paula, da Uerj O que explica a alta da rejeição ao governo Bolsonaro?

CARLOS MELO O que explica é uma série de equívocos cometidos ao longo desses oito meses. Começou pela escolha de pessoas para o governo que são absolutamente ideológicas e pouco pragmáticas. Podemos falar em duas áreas específicas em que isso ficou claro: as relações internacionais e o meio ambiente. Esses dois setores ficaram em grande evidência na semana passada, com a questão do fogo na Amazônia e a repercussão no exterior. Mas também outras áreas, como os ministros Abraham Weintraub [Educação] e a ministra Damares Alves [Mulher, Família e Direitos Humanos]. No início do governo era uma polêmica diferente por semana, mas depois chegou a ser praticamente uma polêmica diferente por dia. A estratégia de criar factoides funciona quando se toca uma agenda em paralelo, consiga aprovar medidas e a economia vá se desenvolvendo. Mas nesse caso, os factoides ficam mais em evidência do que questões importantes como emprego e crescimento econômico. São polêmicas em série, quando Bolsonaro fala apenas para seu eleitor, apenas cerca de 30% do eleitorado. Falar para 30% é bom, consolida esse apoio, mas cria o risco de colocar 70% contra si. Um item da pesquisa do Datafolha pergunta sobre a confiança, quanto se confia no que o presidente fala. Apenas 19% disseram confiar integralmente na palavra do presidente. Bolsonaro dá declarações, depois nega que deu. Falou em governadores “paraíbas” ao mencionar governadores do Nordeste, depois disse que estava se referindo à Paraíba especificamente. Faz o comentário no Facebook sobre a primeira-dama da França, Brigitte Macron, depois disse que não foi aquilo, não foi ofensivo. São episódios que impactam a imagem pessoal de Bolsonaro, e à medida em que o governo não performa, sobretudo em áreas como economia e educação, o governo vai se desgastando também. CARLOS PEREIRA Eu já esperava esse aumento da rejeição ao presidente em função de ele ter estado em campanha perpétua. A estratégia dominante do governo Bolsonaro é a campanha constante, por meio de contato direto com a sociedade, pois lhe falta base de sustentação no Congresso. Em vez de fazer uma campanha perpétua que amplie sua base para além do seu grupo mais fiel de eleitores conservadores, ele se concentra nesse grupo e aliena o conjunto de eleitores que votaram nele com a expectativa de evitar o candidato do PT [Fernando Haddad perdeu para Bolsonaro no segundo turno presidencial em 2018]. Ou seja, o eleitor que não era bolsonarista, mas votou em Bolsonaro. Esse tipo de ação que o presidente implementa tende a afastar esse eleitorado dele e, progressivamente, quem vai lhe dar suporte é o seu núcleo duro de apoio. A meu ver, a alta da rejeição decorre dessa estratégia do governo de alienar o conjunto de eleitores que votaram em Bolsonaro, mas não necessariamente compactuam com a agenda conservadora — na área social, de valores ou ambiental, por exemplo — e agora estão no campo da rejeição ao presidente. Até o momento toda a agenda do governo, principalmente na economia, foi uma agenda negativa. No sentido de impor perdas à população por meio de reformas, por exemplo reduzir benefícios com a reforma da Previdência. O governo também teve uma atuação muito beligerante em relação às instituições de controle — Polícia Federal, Receita Federal e Coaf. Um dos pilares da campanha de Bolsonaro foi a luta contra a corrupção. Agora, o governo tenta controlar esses órgãos quando vê o risco de essas agências começarem a encontrar malfeitos ou do governo ou de familiares do presidente. Então isso afeta esses eleitores que votaram em Bolsonaro com expectativa de luta anticorrupção e se sentem traídos. A política ambiental do governo também foi leniente com queimadas, e, de acordo com pesquisas de opinião, a grande maioria da população brasileira se preocupa com o meio ambiente e o fogo na Amazônia. A resposta que o governo deu às queimadas foi tardia e muito em resposta à pressão internacional. Então atribuo a alta de rejeição sobretudo a esses dois pilares: a questão anticorrupção e a questão ambiental.

CAROLINA DE PAULA Uma série de fatores pode explicar. Já vimos que desde o início do mandato, em janeiro de 2019, ele está em uma queda decrescente de popularidade. Agora onde ele mais caiu foi em setores em que ele tinha uma aprovação grande. É o eleitorado de Bolsonaro que começa aos poucos a se desmanchar. Por exemplo, a faixa etária dos homens mais velhos teve uma queda grande, o que pode ou não ter relação com a reforma da Previdência também. São efeitos de algumas ações e decisões do presidente em seu mandato, não só em comentários ou falas de Bolsonaro ligados à área de costumes, mas também a agenda econômica. Caiu também a aprovação entre pessoas mais pobres, que pode ter relação com o fato de o desemprego não melhorar. Essas pessoas começam a sentir o efeito de políticas que foram prometidas e até agora não estão aparecendo. Entre os fatores que vejo estão o desemprego, que não teve a recuperação que havia sido prometida, e a reforma da Previdência, que o governo passou para a opinião pública como algo que poderia ajudar a economia a curto prazo, mas é algo que demora tempo e muitas vezes o eleitor não consegue ter essa visão e espera algo mais rápido. Então pode existir uma frustração. As declarações do presidente também têm efeito na aprovação, mas não vejo como algo que interfira para alguns estratos do eleitorado. Acredito que a questão da Amazônia, com uma crise diplomática e efeito para a imagem do país no exterior, tem efeito para o público de mais alta escolaridade que costuma viajar para fora, está envolvido na área de negócios. E a população mais pobre tende a sentir mais a questão do desemprego no dia a dia. O que as ações de agora do governo Bolsonaro apontam para o índice de popularidade no futuro?

CARLOS MELO Bolsonaro há pouco entrou em uma disputa com [o presidente da França] Emmanuel Macron. Foi um desgaste internacional grande que pode se refletir negativamente no agronegócio brasileiro. Dias depois, resolveu criticar publicamente [o governador de São Paulo e possível concorrente presidencial em 2022] João Doria, a praticamente três anos da próxima eleição presidencial. Antecipar a agenda eleitoral é um erro, pois eles trazem esse clima num momento em que o governo está ruim. Se não houver comedimento, por exemplo estipulando o tempo da construção em vez do tempo da eleição, o governo vai continuar a cometer equívocos e piorar ainda mais a sua popularidade. Acredito que o governo Bolsonaro não vai optar, no futuro próximo, por moderar o discurso e assim pode piorar sua aprovação. Pode mudar de atitude, mas até agora não temos nenhum sinal nesse sentido. Na base bolsonarista é comum a visão de que se pesquisa de opinião fosse importante, Bolsonaro nunca teria sido eleito. Não é bem assim, a pesquisa não prevê o que vai ocorrer daqui a dois meses ou dois anos, ela diz o que está acontecendo agora e assim ajuda os políticos a saber o que fazer de diferente. Olhando as pesquisas, o governo tem uma postura de dobrar a aposta.

CARLOS PEREIRA Até agora o governo tem trabalhado muito no sentido de alimentar sua base forte de apoio. Não vejo no governo uma iniciativa forte para ampliar essa base, ele deve continuar apostando nisso. Talvez agora com o plano de repaginar o Bolsa Família o presidente consiga sinalizar para o eleitorado mais pobre alguma política social de proteção. Isso ainda é embrionário, e é difícil prever o resultado desse tipo de ação. CAROLINA DE PAULA A tendência que se vê também em outros governos é a popularidade ir caindo. O único que conseguiu manter um apoio forte e crescente foi Lula [presidente entre 2003 e 2010]. Isso costuma acontecer porque durante uma campanha, mesmo que o eleitor acompanhe de perto a política, se cria um clima positivo em termos de futuro, de modo propositivo e de esperança com quem vence a eleição. É um fenômeno verificado no Brasil e em outros países. Num período de crise, a tendência é que a aprovação de Bolsonaro caia ainda mais. O início do mandato é recente e a aprovação está em baixa. É difícil que aconteça uma recuperação rápida da aprovação, é algo que se move de modo lento e é complicado de reverter. A principal proposta do governo, a reforma da Previdência, foi aprovada na Câmara e isso não teve, diante da opinião pública, o efeito que eles imaginavam. Então creio que seja difícil ocorrer algum evento ou tomar alguma medida para reverter. Algo que chamou a atenção com Bolsonaro agora foi a queda da confiança, que caiu mais do que a da aprovação. É possível ver que no caso de Bolsonaro, quando cai a aprovação ele endurece mais o discurso, no sentido de falar mais diretamente para os já convertidos. São os 19% que declararam agora confiar extremamente no que Bolsonaro diz. Um presidente da República sempre está de olho nesses números, a questão de opinião pública é necessária para avaliar políticas e ações do governo, e não só para uma perspectiva eleitoral.

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