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Novo ‘proibidão miliciano’ mostra domínio das milícias nas favelas do Rio. Avança a narco república do Brasil?

Do Blog VOLUME MORTO

Na madrugada do dia 21 de março de 2017, uma sexta-feira, o Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE) da Polícia Civil deflagrou uma operação para prender o miliciano Carlos Alexandre da Silva Braga, conhecido como Carlinhos Três Pontes, o homem que uniu a milícia Liga da Justiça — atualmente chamada de Bonde do Ecko — ao tráfico.

Carlinhos foi encontrado pelos agentes por volta das 4h30 na casa de uma namorada em Paciência, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele recusou a prisão, entrando em luta corporal com um dos policiais. Tentou pegar a sua pistola, mas levou um tiro de fuzil no tórax. Foi levado ao hospital, mas não resistiu. Três anos depois de sua morte, Carlinhos Três Pontes (também conhecido como CL) é o principal tema de um novo segmento do funk carioca: o proibidão miliciano, com versos que glorificam a sua memória — “Vamos mostrar gratidão ao nosso paizão CL/ E pelos que arriscaram a vida pra ter paz na Zona Oeste”, promete uma música; “Na minha vida eu levo Deus, no peito eu levo o CL”, declara outra. As músicas também exaltam a expansão das milícias na cidade e no estado do Rio — onde os grupos paramilitares vêm tirando territórios da maior facção carioca, o Comando Vermelho.

Publicadas no YouTube por canais como Menino do CL e Menor Miliciano, essas músicas refletem a complexificação do cenário da segurança pública no Rio de Janeiro, que, além das facções, enfrenta também o avanço das milícias no tráfico de drogas. Os versos evidenciam ainda como as milícias disputam o domínio simbólico e cultural das favelas, além dos territórios físicos. Milicianos estão servindo de inspiração até para vídeos de jogos como o GTA, feitos pelo canal Coronel MTA.

“Desde 2012 nós identificamos que a milícia estava tomando o tráfico de uma facção chamada Terceiro Comando Puro (TCP), que é inimiga do Comando Vermelho”, contou Luiz Antônio Ayres, promotor de justiça do Ministério Público do Rio, numa entrevista realizada em outubro

“Tivemos a apreensão de um carregamento de skunk prensado que continha os símbolos do TCP e do Batman no invólucro, característicos da milícia de Santa Cruz, então chamada de Liga da Justiça [atual Bonde do Ecko]. O TCP tem interesse na proteção da milícia contra o CV e, por outro lado, a milícia ganha muito dinheiro com a venda de drogas”, explica Ayres. 

O mesmo símbolo do Batman se espalha pelo YouTube ao lado do bordão “tudo 5” ou “tudo 5.5”, números que representam a milícia — em oposição ao “tudo 2”, do Comando Vermelho. A música “Vão Dormir Com Tudo 2 e Acordar com Tudo”, do MC Lukinhas, retrata a brutalização da guerra entre traficantes do CV e milicianos: “Pode a bala comer, pode a noite virar dia/ Jamais vamo abandonar, nóis vai manter tudo milícia”.

O conflito entre milícias e Comando Vermelho

Publicada um dia após o natal do ano passado, a música “Vão Voltar Nunca Mais”, do MC Lukinhas, toma emprestada a melodia do hit “Gaiola é o Troco” para elencar os territórios conquistados pela milícia na Zona Oeste do Rio de Janeiro. “Tomamo o Antares, tomamo o Rodo / Lá na VK [Vila Kennedy] nós vai de novo (…) Tropa do CL tá na pista / É só questão de tempo, a CDD [Cidade de Deus] vai ser milícia”, enumera. 

O bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, virou palco de um dos maiores conflitos entre o Comando Vermelho e as milícias desde que estas passaram a disputar o controle do tráfico de drogas. Em Santa Cruz estão as favelas do Rola (que foi rebatizada por traficantes como favela do Rodo) e do Antares, áreas historicamente dominadas pelo Comando Vermelho que foram tomadas pela milícia Bonde do Ecko no ano passado.

A tomada das favelas do Rodo e Antares pelas milícias teve trama cinematográfica. Segundo relatos de policiais, o pivô da guerra foi Sonic, um chefe do tráfico de drogas do Comando Vermelho na região que mudou de lado, passando a integrar o Bonde do Ecko. Sonic teria fugido do Rodo levando armas e dinheiro vivo, escondendo-se nas comunidades vizinhas Cesarão e Aço sob segurança de milicianos. Postado no YouTube em 30 de julho de 2018, o funk “Recado do Rodo pro Sonic” narra que Sonic ainda levou cinco fuzis e dez pistolas glocks em sua fuga. Em resposta, a música promete “picotar” o X9 e avisa: “Nós te pega qualquer dia”.

O promotor de justiça Luiz Antonio Ayres trabalhou durante 20 anos na Zona Oeste e explica que aquele bairro é um território importante em dois aspectos. O primeiro é simbólico: “Dominar Santa Cruz, especialmente Antares e Rola, era uma questão de honra. Tem um fator psicológico envolvido nisso. Aquela área não recebeu UPP e sempre foi muito forte do Comando Vermelho. Tomar essa região mostra o poderio bélico da milícia”, aponta.

O outro fator que determina a importância de Santa Cruz é econômico e estratégico. O local é próximo do Porto de Itaguaí e da rodovia Rio-Santos, que liga o Rio de Janeiro a Santos.  “Controlar a extrema Zona Oeste da cidade do Rio dá aos milicianos acesso fácil a esses dois pontos de escoamento e de recebimento de drogas e armas, como era para o CV”, explica Ayres, que estima que a milícia de Santa Cruz fature em média R$ 250 milhões por ano em suas atividades ilícitas — embora ele avise que este número seja difícil de calcular com precisão.

Tendo dominado o Rodo e o Antares, as milícias continuam se expandindo, tentando fechar um “cinturão” de domínio na Zona Oeste do Rio. Poucos territórios resistem, como a Cidade de Deus — área em que o CV ainda é forte e que desde 2018 não conta mais com a presença de UPPs. No dia 12 de setembro, foi registrada uma fuga em massa de traficantes da comunidade e especialistas afirmaram ao jornal O Globo que a milícia está “substituindo os traficantes”. 

Dois meses após o lançamento “Vão Voltar Nunca Mais”, Lukinhas  soltou em fevereiro a música “Vão Dormir Com Tudo 2 e Acordar Com Tudo 5”, que deixa clara a expansão das milícias pela Zona Oeste ao citar os bairros da Praça Seca (onde ficam os morros da Chacrinha e Bateau Mouche, conhecido como Batô) e Vila Kennedy. “Uma conexão perfeita, porra/ Vem peitar os cria/ Os AK tá no Batô/ Os meiota tá na Chacrinha (…) Só falta o aval do homem pra VK virar milícia”, diz a letra. No início de fevereiro, o Comando Vermelho invadiu e retomou a Praça Seca após uma noite de tiroteio, mas a expansão da milícia ainda é expressiva.

Proibidão miliciano disputa narcocultura

“O legado mais importante do Comando Vermelho é um conjunto de símbolos, discursos e táticas que o grupo produziu”, observou o antropólogo norte-americano Ben Penglase, que morou em favelas do Rio e estudou como as firmas do tráfico carioca e a violência policial moldam a sociedade brasileira. “O uso pelo CV de uma retórica de orgulho da comunidade local, de ‘defesa’ das favelas contra ataques de pessoas de fora e de enfrentamento aos abusos de autoridade tem sido crucial para a construção da autoridade do grupo”, defende o pesquisador no artigo “Comando Vermelho e o nascimento da narcocultura no Rio de Janeiro”.

O novo proibidão miliciano revela que as milícias também passaram a disputar essa narcocultura carioca, indo além da ocupação territorial das favelas. No primeiro nível, existe a criação de líderes icônicos, como o Carlinhos Três Pontes. Morto de uma maneira reconhecida como “heróica”, CL passa a representar nas letras das músicas “o pai” dos milicanos. Adiciona-se ainda um certo ar de de mártir: foi o homem que morreu pela causa e que serve de motivação para os atuais soldados na linha de frente da expansão das milícias — eternizada nas músicas do proibidão.

Em uma camada mais complexa, existe a narrativa da “paz nas comunidades”, a retórica de que as milícias são entidades para combater os traficantes e instaurar a paz nas favelas. Em “Vão Voltar Nunca Mais”, o MC Lukinhas define claramente aquilo que seria o modus operandi da milícia, um grupo que está “quebrando tudo pronto pra manter a paz”. Na música “Tropa do CL”, o cantor volta a falar em paz, desta vez homenageando aqueles “que arriscaram a vida pra ter paz na Zona Oeste“. Essa retórica presente nas músicas se espalha também por comentários nas redes sociais, onde algumas pessoas defendem a milícia como uma forma de combate aos traficantes — mesma lógica que foi expressa pelos ex-prefeitos Cesar Maia e Eduardo Paes em 2006.

É importante notar que essa paz é relativa e, se faz algum sentido, ele só pode ser possível devido à corrupção policial, que não invade territórios dominados por milícias — um levantamento do UOL mostrou que polícias do Rio mataram 881 pessoas no primeiro semestre de 2019, sendo que nenhuma delas foi em áreas de milícia e a maioria em terras do CV, indicando assim um alinhamento entre as forças oficiais do Estado e os milicianos. Nos comentários das músicas do MC Lukinhas, algumas pessoas observam essa relação: “Fecha com o estado que esculaxa a população”. Na música “Nós Vai Tomar a Zona Oeste”, ele responde: “Demos baque na VK e os alemão saiu voado / Desculpa deles agora é falar que nóis tá com o Estado”. 

Para os pesquisadores Paulo Jorge Ribeiro e Rosane Oliveira, o argumento da manutenção da paz é um elemento fundamental na atuação dos grupos milicianos, tendo em vista que a investida policial deixaria de ocorrer com frequência. No entanto, os especialistas alertam que essa “paz” é condicionada a determinadas regras de conduta e pagamento de taxas por inúmeros serviços. 

Apesar da ação das milícias serem invocadas como um meio para desestruturar as firmas do tráfico de drogas, elas são na verdade uma atualização dos mecanismos de violência contra os favelados. “Reafirma-se mais uma faceta perversa do jugo que estas populações estão submetidas, pois somente se reinscreve aqui o ineficiente combate ao crime organizado nestes locais, já que os moradores estão constantemente sitiados entre as forças do tráfico e da polícia – e ainda, agora, das milícias que controlam econômica e politicamente um vasto território do Rio de Janeiro”, concluem Ribeiro e Oliveira em texto publicado pelo Transnational Institute (TNI).

Um bilhete apócrifo supostamente escritos por milicianos que circulou nas redes sociais em janeiro de 2019, quando estes tentavam tomar a favela da Chacrinha, na Praça Seca, mostra o difícil impasse em que os moradores se encontram. No texto, os milicianos se definem como um “mal necessário”:

Fala morador da Chacrinha… tão gostando? O que acham do Caveirão na favela? Vão fazer igual morador do Batô (Bateau Mouche) e Ipase? Que reclamavam de R$ 40 e hoje não pagam taxa mas pagam suas vidas…Foram quantos baleados desde que o CV está no Batô? …6…7…10? Operação na favela é bom? e barricada? luz apagada? Favela vira um lixão na mão do tráfico sabe porque: Porque são porcos…são sujos… tão nem aí para morador…mandam fechar comércio…agridem…matam quem fala com polícia…saqueiam loja…mercado Valqueire… são vermes…Imagine a Chacrinha com boca de fumo?cracudos nas ruas…cápsula de cocaína no chão? o campo cheio de viciados…sofá e geladeira no meio da rua? É isso que vocês querem? Seus filhos perto de bandidos sujos esperando para aliciar eles? Troca de tiro todo dia? Acordem para vida…Chacrinha é uma favela de trabalhadores… não merecem esses lixos não…e não deixaremos.. Sem nós vocês ficam na mão desses imundos… 

Para o promotor Luiz Antonio Ayres, as milícias são um problema ainda mais difícil de erradicar do que as facções porque têm a característica de um câncer. “Um câncer são células do organismo que se rebelam e começam a atacar o próprio organismo. A milícia tem esse caráter. Policiais, agentes de segurança pública de dentro do próprio Estado começam a agir de forma dissonante de suas funções por conta própria e começam a atacar o próprio Estado e a própria sociedade. Em paralelo, eles têm uma característica viral: a capacidade de adaptação aos mecanismos de repressão, ao território, às circunstâncias. Isso torna as milícias um problema muito difícil de ser combatido”, defende.

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