Rio Grande do Sul/SAÚDE

QUE TEMPOS! QUE ANO! O QUE DIZER? O QUE FAZER? (Por Selvino Heck)

“Bia Jacob. Querida amiga, nos deixaste assim, sem aviso prévio. Estamos tristes por te perder tão cedo. Conseguiste viver tua militância sem perder o glamour e com isso nos ensinaste que é preciso lutar sem abrir mão da felicidade. Obrigado por teu carinho e compromisso com nossas causas coletivas. Nos encontraremos um dia num novo tempo de amor e fraternidade. Siga em paz. Dos amigos e amigas do CAMP – 22.01.1956 – 15.12.2020” (Texto de Mauri Cruz em homenagem à Bia, em nome do CAMP, Centro de Assessoria Multiprofissional).   

Dia após dia a morte se apresenta. Sem dó nem piedade. Duas semanas atrás, o Baninha, Albano Becker, gremista e petista de coração, em Venâncio Aires. Esta semana, a Bia. No caso do Baninha, internado por COVID-19, no hospital por 109 dias, curado da COVID e falecido por outras infecções, foi possível ir no velório, dar um adeus. Bia, que há duas semanas deixou as chaves da sua casa nos vizinhos Mauri e Janize, toda alegre, segundo testemunho deles, para ir à praia cuidar da mãe de 90 anos, nem deu para ir no velório. Ela faleceu de COVID, marido também infectado, só a família presente. Só foi possível chorar a dor e a saudade, à distância.

Que dizer? Que fazer?

Escrevo com todas as dores do mundo no coração. Estou vivo, mas estou morto. Não só por eles dois, Bia e Baninha, mas outras e outros tantos, amigas, amigos, companheiras, companheiros, quase 200 mil brasileiras e brasileiros falecidos em 2020 de COVID. Passei por muita coisa nos 69, quase 70, de vida. Passei pela ditadura militar, fui espionado de todos as maneiras. Fui expulso de Universidade por militância estudantil em 1975, fui proibido de me ordenar padre em 1976, fui colocado em camburão da Brigada Militar e levado ao DOPS para ser formalmente fichado ao final de uma mobilização estudantil em agosto de 1977, fui demitido quando professor de colégios católicos por perseguição política. Mas não vivi nada parecido com o que estou/estamos vivendo e passando em 2020. E tudo indica que 2021 vai ser pior.

Enquanto isso, um governo genocida e necrófilo está se lixando para a vida de milhares, de milhões. O ministro da Saúde – ou da morte? – é capaz de perguntar no dia do lançamento da campanha de vacinação do coronavirus: “Pra que essa ansiedade, essa angústia?”   

Além das centenas de mortes por causa do coronavirus no Brasil e no mundo, a fome está voltando, a miséria vem crescendo, o desemprego só aumentando, violência de todos os tipos se acelerando, o ódio, a intolerância e o preconceito disparando, a natureza sendo devastada, o mercado reinando quase mais livre e absoluto, o Estado cada dia mais mínimo. 

Ao mesmo tempo, como se fosse a coisa mais normal do mundo, a riqueza dos poucos ricos brasileiros vai crescendo como nunca, em meio à pandemia. Brasil, terra da máxima desigualdade econômica e social. E não se vê qualquer sentimento de solidariedade dos bilionários, nada deles pagar impostos, ou aceitar taxar as grandes fortunas, grande parte em paraísos fiscais. E o Auxílio Emergencial, que salvou muita gente em 2020, e que chegou ao valor de R$ 600,00 por pressão da sociedade, vai terminar.

Na ditadura, mesmo com as muitas mortes, assassinatos, exílios, havia luta e, principalmente, havia esperança em crescimento. Ia-se de uma trincheira de resistência a outra. Agora, a dor e o sofrimento estão tomando conta. Quase não se vê luz no horizonte. Está difícil saber o que fazer. O Inimigo, interno e externo, parece maior, bem maior que nós, difícil ou quase impossível de enfrentar. Tem tentáculos por todos os lados, espalha Fake News, estimula o ódio, controla as vidas e as redes sociais, traz a morte para dentro dos lares. Tudo piora dia após dia.

Que fazer? Como resistir? Quando tudo vai terminar?

Perder Baninhas e Bias do jeito que os perdemos! Como suportar? Como aceitar?

Mais que nunca, o ‘ninguém solta a mão de ninguém’ é imprescindível. Assim como anunciar ‘um outro mundo possível’, urgente e necessário, antes que os insensíveis, os genocidas, os necrófilos, os que não têm dó nem piedade se achem definitivamente donos do mundo.

Resistiremos, como resistimos a 21 anos de ditadura. Expulsaremos os vendilhões dos templos e dos palácios. Sobreviveremos.

Viva o Baninha, viva a Bia! Que continuem nos iluminando, como iluminaram suas e nossas vidas.  

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em dezoito de dezembro de dois mil e vinte

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