Uncategorized

“Em uma crise, se o governo não investir, ninguém vai investir”, diz Ex Ministro Guido Mantega em entrevista

“O investimento privado não vem para cá com um governo que não tem programa. O único programa que tem é fazer reformas. Tudo bem, faça as reformas. Mas isso não vai alavancar o PIB. Tem que aumentar o crédito com risco da União, fazer programa habitacional, pegar os projetos do Ministério dos Transportes [atual Infraestrutura]. É isso tem que fazer.”

Extrato da entrevista que publico na íntegra a seguir:

O fechamento das fábricas da Ford no país não faz Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, se arrepender da política de subsídios ao setor estimulada em sua gestão.

Ele diz que os programas atraíram fábricas e que a saída da marca é resultado de fatores como o acirramento da concorrência no mercado automotivo global. “De fato, teve mais subsídios. Mas valeu a pena, porque ganhamos em PIB e arrecadação”, diz Mantega, na primeira entrevista concedida desde maio de 2017.

Da Folha

Guido Mantega em sua casa em São Paulo
Guido Mantega em sua casa em São Paulo – Katyta Hochleitner/Folhapress

O ex-ministro rechaça a tese de que a economia brasileira teve um voo de galinha durante a era petista, defende os dados fiscais de sua época e diz que as pedaladas foram fruto de uma conspiração e de um motivo fútil para o impeachment de Dilma Rousseff.

Ford anunciou o fechamento de suas fábricas no Brasil. O que isso tem a nos dizer?
A Ford representa a indústria automotiva tradicional, e essas empresas estão ficando para trás tecnologicamente. Mas a indústria está encolhendo no Brasil já há algum tempo. A participação da indústria manufatureira [no PIB] hoje está em torno de 10%, e ela já teve mais de 20%. Há um retrocesso. Se continuarmos nessa trajetória, teremos sérios problemas. Inclusive com aumento do desemprego.

Por que isso ocorre?
A indústria brasileira teve um crescimento muito forte no século passado. Mas vieram a crise política e a abertura comercial do [então presidente Fernando] Collor, diminuindo as tarifas de importação. Foi aí que a indústria brasileira começou a perder terreno, a ter menos exportação.

No governo Lula, tentamos recuperar essa indústria fazendo política industrial. Logo depois da crise, em 2009 e 2010, o Brasil já crescia fortemente. Colocamos políticas de taxas de importação altas, com o Inovar-Auto [em 2012, já sob Dilma, e condenado posteriormente pela OMC por protecionismo].

E veio a crise…
Primeiro, tivemos a crise em 2009. Nessa crise, o governo tomou medidas para recuperar a economia. Tomou medidas anticíclicas, aumentando o crédito, colocando os bancos públicos para aumentar o financiamento e baixar os juros. Usamos política fiscal e política monetária, o que, por sinal, é o que o mundo todo faz hoje em dia.

Também baixamos o IPI para consumidores, e mais ainda no caso de carros populares. O resultado foi que, em 2009, naquele ano de crise, a produção de veículos foi de 3 milhões —maior que em 2020.

Analistas dizem que os subsídios estimulam os números inicialmente, mas são nocivos a longo prazo por desestimular as empresas a se modernizarem e serem competitivas. Não é o que está acontecendo agora?
Não. Se não fossem os estímulos, a produção da indústria iria cair, e o desemprego, aumentar. Até porque, quando reduzimos o IPI [para a indústria automotiva e outros setores], havia um acordo para as empresas não demitirem. Deu certo. Em 2010, a economia cresceu 7,5%. Em 2011, 4%. De fato, teve mais subsídios. Mas valeu a pena, porque ganhamos em PIB e arrecadação.

Nessa época o país cresceu, mas depois o modelo chegou a um esgotamento após usar recursos e ficar em restrição fiscal. Tanto é que, pouco depois, ainda no governo Dilma, o país entrou em recessão e começou a série de déficits que registra até hoje. Essa política não acabou gerando um voo de galinha?
Não foi um voo de galinha, foi um longo período de crescimento, com a maior geração de empregos da história. A economia cresceu de 2004 a 2013, menos em 2009. Com crescimento médio de 4% [em 2014, seu último ano no cargo, o avanço do PIB arrefeceu para 0,5%; em 2015 e 2016, o país entrou em recessão]. Portanto, foram dez anos de crescimento —tirando 2009, que foi menos 0,1%.

A partir de 2009, a taxa de crescimento da China vai diminuindo, e as commodities, perdendo força, por isso as taxas de crescimento eram menores. Então, pelo contrário, as medidas que tomamos foram corretas e reconhecidas. Claro, algumas foram erradas.

Quais foram erradas?
A redução de tarifas de energia elétrica no início de 2013 [em troca de assinar a renovação de contratos, as empresas concordavam em reduzir os preços] Não deu muito certo, porque a partir de 2013 começou uma seca muito forte. As tarifas foram reduzidas, mas houve um encarecimento da energia. Os investidores ficaram descontentes, as ações da Eletrobras caíram. O raciocínio estava correto. Mas a forma de fazer não, porque teve mais efeito colateral que benefícios diretos.

O Brasil concede hoje mais de R$ 300 bilhões em incentivos tributários, algo impulsionado na era PT e que continuou crescendo até 2019. O sr. não acha que esses números precisam ser revistos e diminuir?
Sempre tem exageros. O maior incentivo é dado para o Simples Nacional, para empresas com até R$ 4,6 milhões de faturamento ao ano. Sou a favor, porque pequenas e médias empresas são responsáveis por 50% do emprego. Mas foram enfiados setores que não precisavam estar no Simples, como advogados e contadores, contra minha vontade.

Dá para melhorar e retirar segmentos que faturam bem. Eu reduziria em R$ 25 bilhões, R$ 30 bilhões [em 2021, serão R$ 74 bilhões para o Simples].

Trabalhadores da Ford de Taubaté protestam contra fechamento da montadora
Trabalhadores da Ford de Taubaté protestam contra fechamento da montadora

Dilma disse em 2017 se arrepender de ter feito desonerações porque as empresas teriam embolsado os lucros. O sr. concorda?
Não, é um equívoco dizer isso. O lucro estava caindo desde 2011, isso diminuiu a rentabilidade e afetou o emprego. Até 2014, fomos bem-sucedidos. Mas depois de 2015 degringolou.

Temos um cenário de restrição fiscal com uma dívida bruta que se aproxima de 100% do PIB, após uma série de déficits primários iniciados sob Dilma. A defesa da atual equipe econômica por investimentos liderados pela iniciativa privada não é uma consequência direta disso?
Não, achar que deixamos uma situação fiscal desequilibrada é um grande equívoco. Em 2014, a dívida líquida [que desconta as reservas financeiras] era de 35,5%. Ela duplicou em cinco anos. Eu deixei os gastos da folha de pagamento em 4,2% do PIB, ela aumentou para 4,9% hoje.

Deixamos o maior volume de reservas da história. É uma bobagem dizer que os subsídios que demos causaram [o desequilíbrio]. É uma lenda essa que desmanchamos a situação fiscal. Eu não, pelo menos.

Agora, em 2015 houve um tombo na economia que causou um déficit e aumentou a dívida. Mas aí mudou a política econômica e voltou o neoliberalismo [em 2015, Dilma troca Mantega por Joaquim Levy, então diretor-superintendente da gestora do Bradesco].

Mas não entrou para reverter a trajetória fiscal que já se observava?
A herança foi bendita. Deixamos as contas externas intactas. Mas houve um forte ataque dos investidores externos. Porque eu tentei baixar os juros. Quer dizer… quem diminuía era o BC, mas eu criei as condições.

Fizemos superávit primário até 2013, gente. Como a questão [fiscal] se complicou? Quem fala isso não entende nada de economia. Sei que muita gente fala, mas são os adversários que querem criticar a política social-desenvolvimentista que fizemos. E havia uma crise política forte, que começou em 2013 com ataques muito fortes ao PT.

Na reeleição da Dilma, a elite estava contra o governo, achando que era intervencionista. Não era, fizemos o maior programa de concessões. Agora, o pessoal não estava ganhando dinheiro. Deixamos a melhor situação fiscal possível.

Mas teve as pedaladas [atraso de recursos da União a bancos públicos, usado como embasamento jurídico para o impeachment de Dilma e que maquiou a situação das contas públicas]…
Tudo aquilo fazia parte dessa conspiração para derrubar o governo, para ele não ser reeleito em 2014.

O que fizemos foi o seguinte: simplesmente atrasamos os pagamentos para o setor público. Nunca deixamos de pagar precatórios, por exemplo, que estava no plano do atual ministério [da Economia]. Atrasamos com o BB e com o BNDES, mas o BNDES tinha recebido mais de R$ 400 bilhões em empréstimo do governo federal, não afetava o desempenho dele. Foi avaliado [o total das pedaladas] em quase R$ 50 bilhões, pagos em 2015. Foi um pretexto simplório para derrubar a Dilma, queriam derrubar e pronto.

Quando o Congresso quer impichar, ele impicha. Mesmo que tenha sido um motivo fútil, como foi. Mas faz parte da vida política, a Dilma perdeu prestígio popular, tínhamos perdido a base de apoio, e o Congresso quis tirá-la. Tá na lei, foi cumprida a lei. Mas vou escrever um livro respondendo a tudo isso.

O que o sr. sugere ao país fazer na economia agora?
Em 2005, o FMI [Fundo Monetário Internacional] modificou uma norma autorizando tirar o investimento do gasto. Portanto, tirava-se uma despesa primária. Não usamos isso porque não precisava. Mas o governo atual tinha que fazer isso. Se ele não investir, ninguém vai investir.

O investimento privado não vem para cá com um governo que não tem programa. O único programa que tem é fazer reformas. Tudo bem, faça as reformas. Mas isso não vai alavancar o PIB. Tem que aumentar o crédito com risco da União, fazer programa habitacional, pegar os projetos do Ministério dos Transportes [atual Infraestrutura]. É isso tem que fazer.

Falam em livre mercado, que livre mercado? Quando está em crise, o governo intervém.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s