Capitalismo/CoronaVírus/Pobreza

PANDEMIA DA DESIGUALDADE: A VERDADEIRA CAUSA DE TANTAS MORTES NO BRASIL (Por Marco Martini)

 Estudo identificou que nas casas onde há três ou mais pessoas por cômodo (que são as moradias dos mais pobres), a taxa de óbitos é mais de o dobro da taxa média da cidade de São Paulo (110% a mais).

Foto: Reprodução

Por Marco Rogério Martini – OAB/RS 58.662

Desde o início dessa pandemia nós lemos ou escutamos com alguma frequência que o vírus da COVID-19 é um vírus democrático, que atinge indistintamente a todos. No Brasil, é só mais uma falácia: nem a COVID é democrática, e se transforma em só mais um elemento de desigualdade.

Um vírus é uma criatura muito primária, elementar, um quase nada. A desigualdade do seu impacto na sociedade tem causa humana e, no Brasil, seus agentes são antigos e conhecidos.

Um estudo publicado em fevereiro/2021, com título “Desigualdade Social e a mortalidade pela Covid-19 na cidade de São Paulo”, elaborado por quatro pesquisadoras com base em 19,5 mil óbitos, identificou que nas casas onde há três ou mais pessoas por cômodo (que são as moradias dos mais miseráveis), a taxa de óbitos é mais de o dobro da taxa média da cidade (110% a mais).

No mesmo estudo, foi identificado que nas regiões de moradias mais precárias a média de mortes é 53% acima da média, alcançando 70% a mais de mortes quando a renda mensal é menor do que R$ 275,00 por morador. Essa taxa de 70% que é vinculada especificamente à renda evidencia a urgência de um auxílio emergencial que complemente a renda dessa parcela da população. FALTA DE AUXÍLIO EMERGENCIAL MATA.

O IPEA identificou que 79,6 % dos óbitos na cidade do Rio de janeiro aconteceram nas regiões mais pobres da cidade. As mesmas condições identificadas em São Paulo se aplicam a essas áreas da cidade do Rio de janeiro, o que permite que se presuma que as mesmas causas estejam matando essa população.

Baixa renda e habitação precária são causas de aumento de óbitos por COVID, mas SÓ AS CLASSES MAIS VULNERÁVEIS ESTÃO EXPOSTAS A ESSA CAUSA DE MORTALIDADE.

Há mais fontes: A PNAD-COVID do IBGE aponta outras distorções que matam mais quem já tem menos.

Nas classes A e B (renda acima de R$ 8.303,00), 28% puderam mudar de local de trabalho para reduzir os riscos, contra apenas 10% na classe C (R$ 1.926 a R$ 8303,00), e apenas 7,5% nas classes D/E (renda abaixo de R$ 1.926,00).

Dentre os mais escolarizados, 44% puderam alterar seu local de trabalho, enquanto para os menos escolarizados e os trabalhadores da linha de frente do comércio, apenas 5% tiveram essa oportunidade.

Ser forçado por sua condição econômica, pela baixa instrução e pela falta de AUXÍLIO EMERGENCIAL a se submeter a um trabalho na linha de frente do risco de contágio MATA MUITO MAIS do que ficar em home office, por exemplo. Por conta desse risco REAL E OBJETIVO, Caixas de supermercado e Frentistas de postos de gasolina, por exemplo, estão entre as categorias com maior taxa de fatalidades.

Um estudo de grande abrangência publicado em respeitada revista científica em janeiro de 2021 e que analisou as primeiras 250 mil internações por COVID-19 no Brasil (https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(20)30560-9/fulltext) evidenciou outras graves desigualdades.

Na cidade de São Paulo (onde a assistência à saúde é acima da média nacional), a taxa de mortes da população negra é 77% maior do que a de brancos. Ter nascido NEGRO no Brasil MATA MUITO MAIS POR COVID. Para os PARDOS a taxa em São Paulo é 42 % maior que a dos brancos, deixando evidente que NO BRASIL, NÃO SER BRANCO É FATOR REAL DE RISCO DE MORTE.

Para as pessoas da região sul com menos de 60 anos e que necessitem ser internadas em hospital por COVID, a taxa de mortes ficou em 15%, enquanto na região nordeste essa mesma taxa está em 31%. Logo, MORAR NO NORDESTE MAIS DO QUE DOBRA O RISCO DE MORTE EM INTERNAÇÕES POR COVID em relação ao morador do sul.

Para os que conseguem uma internação em UTI PRIVADA, a taxa de fatalidade é de 30%, enquanto os que precisam de uma UTI PÚBLICA tem taxa de 53 %. O RISCO DE SE MORRER AO SER INTERNADO EM UTI DE HOSPITAL PÚBLICO É 77% MAIOR DO QUE EM UTI PRIVADA.

O tempo nos trará mais e melhores dados, mas as pesquisas até aqui realizadas mostram que as taxas de morte por COVID-19 no Brasil são distribuídas de forma INVERSAMENTE PROPORCIONAL À RENDA E AO PATRIMÔNIO.

A injustiça é mais grosseira e evidente quando verificamos que renomados pesquisadores consideram que 80% DESSAS MORTES SERIAM EVITÁVEIS com as medidas corretas dos governos, medidas essas indicadas pela OMS e que trouxeram muito bons resultados nos países onde foram seguidas desde o início.

Ainda mais grosseira é A CAUSA DA NÃO ADOÇÃO DAS MEDIDAS RECOMENDADAS: foram exatamente os setores apontados como OS MAIS PROTEGIDOS DA MORTE POR COVID que pressionaram e exigiram dos governantes AS CONDUTAS QUE ACABARAM POR MATAR EXATAMENTE AOS MENOS PROTEGIDOS.

Aliás, essa doença chegou ao Brasil como mesmo? Pelos AEROPORTOS, trazida por aquela mesma classe social que circulava nos voos internacionais.

Marco Martini é Advogado, colaborador e Colunista do Blog

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