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A Fome, o Trabalho e os Protestos (Por Mauricio Falavigna)

A opinião pública brasileira está madura. Quer a reforma administrativa, como queria a reforma da Previdência, como quer a reforma tributária”.
(Paulo Guedes)

“Os capitalistas chamam ‘liberdade’ a dos ricos de enriquecer e a dos operários para morrer de fome. Os capitalistas chamam liberdade de imprensa a compra dela pelos ricos, servindo-se da riqueza para fabricar e falsificar a opinião pública”.
(Lenin)


Um perspicaz artigo do Maurício Falavinga no RECONTA AÍ .


Muito se fala sobre uma sociedade anestesiada. Os setores progressistas, como se desprezassem anos de despolitização proselitista, onde o fazer político foi retratado como inoperante e nocivo, espantam-se com a capacidade das classes mais pobres suportarem desmandos e privações. Como, se além da criminalização da política, não houvesse séculos de vivência na espoliação.

Apresenta todos os requisitos do discurso econômico da época e também fornece receitas para guisados e assados. Pode não ter contribuído tanto quanto as batatas para matar a fome dos irlandeses, mas causou asco em seus pares da época. Era preciso se movimentar para redimir a desumanidade. Como diria Babeuf, poucos anos depois, “admitir desigualdade significa subscrever uma depravação da espécie”. A fome é a maior das indignidades, portanto causa uma urgência de mudança.

Ou deveria. O cenário econômico vem sendo construído desde antes da pandemia. Mas a única preocupação pública, presente nos debates midiáticos, é a pandemia. E a destituição de uma aberração que eles mesmos construíram e levaram à presidência. Porém, mantendo a utopia neoliberal de Guedes, finalizando as reformas e o desmantelamento do Estado previstos e anunciados com antecedência. Falta comida até na maior e mais rica cidade da América Latina, como mostrou recentemente uma matéria do jornal El País.

As pessoas perdem suas casas e passam a morar nas ruas. Morrem de fome e de doença. As ações do Padre Julio Lancelotti são exibidas com alguma parcimônia nos noticiários, mas a realidade que ele combate parece soar como uma música da natureza. A vida é desse jeito, mesmo. Alguns falham. O importante são os números indicarem a retomada do crescimento, a baixa no preço do dólar e a alta nos índices da Bolsa. Maturidade.

A parte progressista da sociedade orienta-se sem colocar em dúvida os ditames da mídia. A CPI da Covid e uma convocação para manifestações no dia 29 são os motes. “Está insuportável, precisamos sair às ruas”. Para quê? Basicamente, sair às ruas. “Fora Bolsonaro” e “Queremos vacinas”, duas obviedades amplas e basilares, parecem ser as únicas palavras de ordem. São os motivos que captaram os sentimentos de indignação. No mesmo discurso da epígrafe deste texto, Lenin dirige-se a grevistas que estão passando fome em Petrogrado. E alerta, “Isoladamente e em desordem não é possível vencer a fome e o desemprego”. E define o foco das greves e manifestações que deveriam vir a seguir.

Desordem. Falta de foco. Despolitização. Em meio a uma ação destrutiva por parte de um governo entreguista e privatista, que se aproveita dos holofotes da CPI para passar o seu programa de massacre dos serviços e do funcionalismo público, para obter autorizações de venda e retalho de estatais estratégicas e rentáveis, as pessoas querem tão só a cabeça do mandatário que circula sem máscara, vomita bobagens desarrazoadas e se lambuza de leite condensado. Às portas da terceira onda do vírus que se anuncia, as pessoas sairão às ruas para condenar o descaso (real) em relação ao combate à pandemia. Agora serão dois grupos a se aglomerarem nas ruas, os fascistas e os indignados. Não será para quebrar tudo, não será para derrubar um governo ilegítimo, não será por eleições imediatas ou uma assembleia constituinte. Será um prato cheio para a mídia que anuncia a “polarização” como o principal problema político do país. Os pratos vazios não fazem parte dos protestos. “O maior espetáculo do pobre da atualidade é comer”, dizia Carolina de Jesus. Mas isto está fora do cardápio.

Abandonamos a sensatez da autopreservação, mas jamais largamos mão da sólida orientação da “opinião pública”.

Trabalho e comida. Fortalecimento do Estado e coordenação do combate à pandemia. Itens que parecem juvenis aos atores políticos do momento. Ao menos por aqui, em terras brasileiras. Amadurecemos, enfim, como afirmou Paulo Guedes.

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