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É A ECONOMIA, ESTÚPIDO! (Por Paulo Timm)

É a Economia, estúpido! O título é áspero, mas foi cunhado por um assessor do candidato à Presidência dos Estados Unidos, Bill Clinton, para chamar sua atenção sobre o que os americanos queriam realmente ouvir. O jornalista Germano Oliveira, da Revista ISTO É, contou a estória em 11/09/21, tirando suas consequências para o caso brasileiro: Quando a economia vai mal, não há muito o que fazer para reeleger um presidente.

O baixo desempenho da economia sempre será responsável pelo seu fracasso.


“Em 1993, quando George Bush era o presidente dos Estados Unidos, o país enfrentava uma recessão econômica e os americanos entraram de cabeça na Guerra do Golfo. Então, surgiu o pouco conhecido governador do Arkansas, Bill Clinton, que o desafiou na disputa pela presidência. Erroneamente, Clinton atacava Bush por ter metido os EUA na guerra, pensando em ganhar votos com isso, mas os “gringos” sempre gostaram de guerras e o democrata batia na tecla errada. Até que surgiu o publicitário James Carville que o orientou a tomar o caminho certo.

O que estava deixando os americanos insatisfeitos era o desastre na economia. Ele disse a célebre frase a Clinton: “É a economia, estúpido”. E Clinton derrotou o podo poderoso Bush pai. Foi um fenômeno eleitoral. De lá para cá, muitos estrategistas políticos se basearam em Carville para enfrentar eleições.”

A ser verdade a afirmação, Jair Bolsonaro tem poucas chances de reeleição, pois nossa Economia vai de mal a pior, malgrado o otimismo fantasioso do Ministro Guedes. Crescimento, desemprego e inflação somam 48% das preocupações dos brasileiros na última Pesquisa Genial /Quest. Ainda não voltamos ao nível de 2019, pois caímos 5% no ano passado e neste ano não vamos crescer o suficiente para compensá-la..

E para o ano de 2022, das eleições, as projeções só pioram.

Na verdade, teremos, em 2024, perdido outra década – a anterior foi a de 1980, protagonizada por Figueiredo (6 anos) e José Sarney (5 anos) – enquanto China, Índia e Coreia do Sul já pensam em viagens à Marte, sob a égide do 6G. .

Aliás, no atual Governo, todos parecem viver em um mundo paralelo de assombrações amarelas, tempos aterradores, superstições e cifras enigmáticas. E ainda dizem que a Oposição vive de narrativas…

Para eles não há queimadas, o COVID é uma gripezinha, o IBGE usa metodologia da Idade da Pedra quando diz que há 14 milhões de desempregados e outro tanto no desalento e a culpa pelo aumento dos combustíveis é dos governadores.

“Um milagre salvou o Brasil e o país melhorou muito depois que fui eleito”, afirmou Bolsonaro na Itália, recentemente. Será?

Quando se fala em Economia, sei que os leitores arrepiam o pelo, só de pensar na numerologia que virá pela frente. Não obstante, já a Bíblia trata da Economia quando nos conta que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso depois de comer do “fruto” proibido.

Eles apenas aumentaram a população do Éden e, com isso, romperam o ciclo da coleta fácil de produtos da floresta, tendo que reunir virtudes empreendedoras para sobreviver à base do suor de seus corpos, da inteligência de seu juízo e liberdade de seus movimentos.

Com efeito, num pequeno pedaço de terra, quando crescem as bocas para comer, mesmo que trabalhem, emerge o que os economistas denominam Lei dos Rendimentos Decrescentes.

Cai o produto disponível e , então, duas coisas acontecem: Uns pegam sua trouxa e vão em busca de terras virgens mais férteis, emigram; outros, bolam uma maneira de aumentar as colheitas com melhores práticas e instrumentos.. É o primeiro passo na Grande História da Humanidade, ao qual se seguem a formação de cidades e reinos. Se não há melhoria nas condições de produção, nem terras férteis à disposição, sobrevém a crise, a fome e a dizimação. Se há, instaura-se o que denominamos Política como a Arte de Administrar cidades e reinos.


O Brasil deu certo, como produto da boa arte de governar, durante muito tempo. No século XX cresceu vertiginosamente até 1980 – 6,5% durante mais de 50 anos -, transformou-se em potência industrial, fabricando e exportando até aviões, sem falar no êxito do agro-business, e saiu de 15 milhões para 200 milhões de pessoas, graças à invejável sofisticação das instituições públicas e privadas.

Desde então – 1990- oscila entre duas doutrinas econômicas: uma neoliberal, guiada pelo primado do Mercado, aberta pelo Presidente Collor em 1990 e seguida, com maior ou menor rigor, por FHC, Temer e Bolsonaro; outra desenvolvimentista, ancorada no Estado, que se inspira na experiência de Vargas e nos ensinamentos keynesianos (J. Maynard Keynes), com os temperos redistributivos da Era Petista (2003-2016).

Já era assim em 1950, quando disputaram Getúlio Vargas, pelo trabalhismo, e Eduardo Gomes, pela UDN liberal: Estado x Mercado. As vezes elas se entrecruzam , como no começo do Dilma II (2015/6) e neste final do Bolsonaro I (2021/22), quando circunstâncias parecem recomendar combinações heterodoxas casuísticas.

Tudo indica, contudo, que, 72 anos depois de 1950, continuaremos sob idêntica controvérsia, aclimatada às personalidades dos candidatos. Lula, que pontuou mais uma vez, ontem (Quest), com mais da metade das preferências, tanto no primeiro como no segundo turno, é um adepto do Estado como promotor do desenvolvimento e da cidadania.

Com a metade da sua pontuação, fica Bolsonaro, que vai se aproximando, cada vez mais de sua real fatia autoritária e ultraconservadora, mais além do próprio liberalismo.

No encalço da terceira via, seguem Moro e Ciro, o primeiro francamente mercadista, o segundo, mais inclinado à heterodoxia, com um dígito (8% e 6%).

O resto, por enquanto, é resto, levando a crer que os tucanos não levantarão voo.

A forte personalidade política de Bolsonaro, que mais lembra o integralista Plinio Salgado dos anos 1930, que se declarava terceira via, desfigura um pouco o confronto clássico Estado x Mercado, cuja primazia ele sustentou em 2018, graças à incorporação em sua campanha de dois nomes identificados com o liberalismo, Paulo Guedes e Sérgio Moro.

Hoje, entretanto, Bolsonaro é um nome avulso, uma espécie de cometa gasoso sem substância sólida interna. Atrapalha o universo político clássico (e, principalmente, minha argumentação…), que segue a clássica divisão Estado x Mercado.

Moro, a propósito, já o abandonou e Paulo Guedes é uma estrela anã. Liberal, em geral, seja no PSDB, PODEMOS, NOVO, CIDADANIA etc. ainda se esforçam para chegar ao segundo turno com quem quer que seja, menos Lula e Bolsonaro, na tentativa de ocupar o lugar de defensores do Mercado contra o Estado.

Talvez o consigam, pois Bolsonaro está derretendo muito rapidamente, com cerca de 50% de rejeição ao seu Governo, embora se preveja alguma recuperação no próximo ano em virtude do Bolsa Brasil a perto de 20 milhões de pessoas e da atenuação da crise sanitária Talvez, repito, isso se o Ciro não lhes puxar o tapete.

O bom mesmo seria que Bolsonaro saísse de cena e deixasse o fio da história se recompor com seus autênticos representantes. Tudo muito cedo, porém , para uma avaliação realista.


Façam suas apostas e aguardem a fala dos astros…

PAULO TIMM, aposentado, é economista, formado pela UFRGS. Pós-Graduado na ESCOLATINA, da Universidade do Chile e CEPAL/BNDES. Foi professor da Universidade de Brasília – UnB – e Técnico do IPEA, órgão do Ministério do Planejamento, em Brasília, onde residiu por 35 anos e onde fez sua vida profissional e pública.

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