BRICS/Mundo

Exílio na Rua Principal: O Som do Mundo Unipolar se Dissolvendo (Por Pepe Escobar)

No Dossier Sul

Vamos direto ao ponto e listemos os Dez Mais da Nova Era de Putin, anunciados pessoalmente pelo Presidente russo no Fórum de São Petersburgo para o Norte e o Sul Globais. 

A ruptura com o Ocidente é irreversível e definitiva. Nenhum tipo de pressão exercida pelo Ocidente mudará esse quadro.  

A Rússia se renovou ao assumir sua soberania. O reforço da soberania política e  econômica é uma prioridade absoluta. 

A União Europeia perdeu por completo sua soberania política. A crise atual mostra que ela não está pronta para desempenhar o papel de ator independente e soberano, e não passa de um agrupamento de vassalos americanos privados de toda e qualquer soberania político-militar. 

A soberania não pode ser parcial. Ou você é soberano ou é uma colônia.  

A fome das nações mais pobres pesará na consciência do Ocidente e da euro-democracia.

A Rússia irá fornecer grãos às nações mais pobres da África e do Oriente Médio. 

A Rússia irá investir no desenvolvimento econômico interno e na reorientação do comércio em direção a países independentes dos Estados Unidos. 

A futura ordem mundial, já em construção, será composta por estados fortes e soberanos. 

O trem já partiu. Não há volta possível. 

Como o coletivo ocidental deve estar se sentindo ao se ver preso em um tamanho furação de fogo cruzado? Bem, fica ainda mais devastador quando acrescentamos a esse novo mapa de percurso a nova frente energética.

O CEO da Rosneft, Igor Sechin, em São Petersburgo, ressaltou que a crise econômica global vem se agravando não devido às sanções, mas por estar sendo exacerbada por estas. A Europa  “comete suicídio energético” ao impor sanções à Rússia. Essas sanções puseram fim à tão propalada “transição verde”, uma vez que esta não é mais necessária para manipular os mercados, e a Rússia, com seu vasto potencial energético, é “a Arca de Noé da economia mundial”.

De sua parte, o CEO da Gazprom, Alexey Miller, não poderia ter sido mais sarcástico com relação à drástica queda dos fluxos de gás para a Europa ocasionada pela recusa e/ou incapacidade da Siemens de consertar o motor de bombeamento do Nord Stream 1: “Bem, é claro que a Gazprom foi forçada a reduzir em mais de 20% o volume do fornecimento de gás à Europa. Mas, como se sabe, os preços subiram não 20%, mas muito mais! Portanto, sinto informar que não nos sentimos ofendidos por ninguém, que não estamos particularmente preocupados com essa situação”.  

Como se essa exacerbação na escala de dor não bastasse para atirar o coletivo ocidental, – ou o OTANistão – em Histeria Terminal, o ácido comentário de Putin sobre a possibilidade de permitir que o Sr. Sarmat apresentasse seu cartão de visitas  nos “centros decisórios de Kiev”, de onde partem as ordens dos bombardeios e da matança de civis em Donetsk, decididamente resolveu a questão:

“Quanto às linhas vermelhas, permitam-me que eu as mantenha em sigilo, pois isso significará ações muito duras contra esses centros decisórios. Mas essa é uma área na qual as informações não devem ser comunicadas a pessoas externas às lideranças político-militares deste país. Aqueles que vierem a merecer ações proporcionais de nossa parte devem tirar suas próprias conclusões quanto ao que eles terão que enfrentar caso venham a cruzar essas linhas”. 

Amorzinho, por favor, para de surtar 

Alastair Crooke delineou de forma magistral como uma enrascada enxadrística paralisou o coletivo ocidental e os deixou vagando a esmo, tontos e atarantados. Examinemos agora o estado do jogo no lado oposto do tabuleiro, focando a cúpula do BRICS realizada na última quinta feira em Pequim.

Como ocorreu com a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), a União Econômica Eurasiana (UEEA) e a ASEAN, agora é a vez de um BRICS revigorado reforçar sua atuação. Conjuntamente, essas organizações são os instrumentos fundamentais que irão abrir os caminhos rumo à nova era pós-unipolar. 

Tanto a China como a Índia (que foram as maiores economias do mundo durante séculos, antes do breve interregno do colonialismo ocidental) já estão bem perto e se aproximando cada vez mais de se tornarem a “Arca de Noé  da economia mundial”. 

O G20 – refém daquilo que Michael Hudson definiu como a fraude FIRE (finance-insurance-real estate, ou finanças, seguros e setor imobiliário) que está no cerne do cassino financializado neoliberal – vem lentamente se dissolvendo, enquanto um potencial G8 só faz crescer: o que está diretamente conectado à expansão do BRICS, um dos temas principais da cúpula deste fim de semana. Um BRICS expandido correndo paralelo a uma  configuração G8 irá, fatal e facilmente, superar sua contraparte ocidental tanto em importância quanto em PIB por paridade de poder de compra (PPP).

Os BRICS, em 2021, já acrescentaram Bangladesh, Egito, UEA e Uruguai a seu Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Em maio, em reuniões em nível de chancelarias, Argentina, Egito, Indonésia, Cazaquistão, Nigéria, UEA, Arábia Saudita, Senegal e Tailândia somaram-se aos cinco membros dos BRICS. Dirigentes de alguns desses países estarão conectados à cúpula de Pequim. 

Os BRICS atuam de forma totalmente diferente do G20. Sua meta é atingir as bases da sociedade com uma lenta “construção de confiança” – um conceito muito chinês. Eles vêm criando uma Agência de Avaliação de Crédito independente – separada da tramoia anglo-americana – e aprofundando os Sistemas de Reservas de Moeda. O NBD – incluindo seus escritórios regionais na Índia e na África do Sul, vem participando de centenas de projetos. O tempo dirá: um dia o NBD fará com que o Banco Mundial se torne supérfluo.

Comparações entre os BRICS e o Quad, uma trama dos Estados Unidos, são tolas. O Quad não passa de um outro mecanismo tosco formulado com o objetivo de conter a China. No entanto, não há dúvida de que a Índia anda em território de corda bamba, uma vez que ela é membro tanto dos BRICS quanto do Quad, e tomou a decisão tremendamente equivocada de sair da Parceria Econômica Regional Ampla (RCEP, em inglês) – o maior acordo de livre comércio do planeta – preferindo se agregar ao Pacto Econômico Indo-Pacífico (IPEF, em inglês), o sonho de uma noite de verão urdido pelos Estados Unidos.

Mas a Índia, no longo prazo, vem sendo habilmente orientada pela Rússia a encontrar terreno comum com a China em uma série de questões fundamentais. 

Os BRICS, principalmente em sua versão expandida BRICS+, estão fadados a intensificar a cooperação na construção de cadeias de fornecimento verdadeiramente estáveis e de um mecanismo de acordos relativos ao comércio de recursos naturais e de matérias-primas que, inevitavelmente, tem que se basear nas moedas locais. Então o caminho estará aberto para o Santo Graal: um sistema de pagamentos BRICS como alternativa verossímil ao uso belicizado do dólar norte-americano e do SWIFT.

Enquanto isso, uma torrente de investimentos bilaterais, tanto da China quanto da Índia, nos setores manufatureiros e de serviços de seus vizinhos, irá fortalecer países menores do Sudeste Asiático e do Sul da Ásia: imaginem Camboja e Bangladesh como peças importantes de uma vasta rede de fornecimento. 

Yaroslav Lissovolik já propôs o conceito BEAMS, como o cerne da integração dos BRICS, unindo as principais iniciativas de integração regional das economias BRICS, como “o BIMSTEC (Iniciativa de Cooperação da Baía de Bengala), a União Econômica Eurasiana (UEEA), o acordo de livre comércio ASEAN-China, o Mercosul e a SADC/SACU, da África do Sul”.

É só rock’n roll (do BRICS)

Agora Pequim parece muito interessada em promover “um  formato inclusivo para o diálogo cobrindo todas as principais regiões do Sul Global, agregando as plataformas de integração regional da Eurásia, África e América Latina. Mais adiante, esse formato poderá ser expandido ainda mais para incluir outros blocos de integração regional eurasianos, tais como o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), a União Econômica Eurasiana (UEEA) e outros”. 

Lissovolik observa que o trajeto ideal, daqui para frente, deverá ser “a maior inclusividade do BRICS através do sistema BRICS+, que permite que economias de menor porte que sejam parceiras regionais dos BRICS tenham voz no novo quadro de governança global”. 

Antes de se dirigir por vídeo ao fórum de São Petersburgo, o Presidente Xi, pessoalmente, telefonou a Putin para dizer, entre outras coisas, que ele apóia a Rússia em todas as questões de “soberania e segurança”. Eles também, como não poderia deixar de ser, discutiram a relevância dos BRICS como plataforma de importância central na construção de um mundo multipolar.  

Enquanto isso, o coletivo ocidental mergulha cada vez mais fundo no caos. Nesta última segunda-feira, uma grande manifestação nacional de sindicatos paralisou Bruxelas, – a capital da União Europeia – onde uma multidão de 80 mil pessoas expressou sua indignação com a subida contínua do custo de vida, conclamou as elites a “gastar dinheiro com salários, não com armas” e gritou em uníssono “Parem a OTAN”.  

Nesse jogo de xadrez, a Europa se vê novamente paralisada em uma situação de ‘enrascada’. As “perdas diretas” da Europa, como ressaltou Putin, provocadas pela histeria das sanções, podem chegar a mais de 400 bilhões ao ano”. As receitas russas com energia atingiram níveis récorde. O rublo, em comparação ao euro, chegou ao seu maior valor em sete anos. 

É cômico que aquilo que talvez seja o artefato cultural mais poderoso de toda a era da Guerra Fria – e da supremacia ocidental –  os perenes Rolling Stones, estejam agora em turnê por uma União Europeia “pega num furação de fogo cruzado”. Em todas as apresentações eles, pela primeira vez, tocam ao vivo um de seus clássicos mais antigos: ‘Out of Time’.
Soa muito como um réquiem. Então, cantemos todos: “Baby baby baby / you’re out of time“, enquanto um tal de Vladimir “Gás, Gás, Gás” Putin e seu ajudante Dmitry “Under My Thumb” Medvedev parecem ser os caras que realmente estão se esbaldando. É só rock’n roll (do BRICS), mas estamos achando muito bom.

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

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