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Bolsonarista assassinou petista em sua festa de aniversário, estampam manchetes da mídia mundial

O ódio semeado pelo bolsonarismo se mostra cada vez mais cruel e mortal. Depois dos assassinatos de Indigenista e Jornalista repercutirem na mídia mundial, o Brasil vira notícia no mundo por mais um assassinato.

Os jornais franceses Le Parisien e Le Figaro por exemplo, deram ênfase às posições políticas de Arruda e Guaranho em seus títulos. O Le Parisien escreveu que um “ativista petista” foi morto por outro ativista “pró-Bolsonaro” e que o ex-presidente Lula atribuiu o caso ao “discurso de ódio” do capitão reformado. 

E boa parte desta mídia internacional já associa o aumento da violência no Brasil a Bolsonaro e ao Bolsonarismo, embora parte da mídia nacional ainda siga falando de um suposto confronto de radicalismo.

Notória aliás, a narrativa da TV Globo no Fantástico, insistindo muito em mostrar que após o cruel assassinato de Marcelo Arruda, alguns presentes a festa de aniversário chutaram o policial que o assassinou. É óbvia a tentativa da Globo de dar força para a narrativa de que os dois lados são igualmente extremistas. Mas ali quem é chutado, é o policial que invadiu uma festa com a qual ele não tinha nada que ver, e matou o aniversariante a tiros. Qual seria a reação de muitos de nós diante de um assassino assim? Ficar calado e deixar a o criminoso seguir no seu calinho de fuga?

Segue lúcido artigo de Jean-Philip Struck na Deutche Welle

Políticos condenam assassinato de dirigente do PT por bolsonarista no Paraná. Oposição diz que Bolsonaro estimula ódio político. Presidente e apoiadores já começam a usar táticas diversionistas para minimizar crime.

O assassinato do guarda municipal e dirigente municipal do PT Marcelo Arruda por um bolsonarista durante uma festa de aniversário com temática pró-Lula provocou repúdio entre políticos de diferentes partidos e personalidades públicas do Brasil. Várias figuras responsabilizaram o presidente Jair Bolsonaro pelo crime, acusando o presidente de extrema direita de estimular “ódio político”, “fanatismo inconsequente” e “radicalismo injustificável”.

Bolsonaro, por sua vez,  se manifestou sem mencionar diretamente o crime e evitando prestar condolências pela morte de Arruda. Nas redes, ele reproduziu uma mensagem em que diz “condenar” a “violência contra opositores”, mas ao mesmo tempo afirmando que a “esquerda acumula um histórico inegável de episódios violentos”. Paralelamente, membros da extrema direita também lançaram nas redes táticas diversionistas para minimizar o crime.

Arruda foi assassinado a tiros na noite de sábado (09/07) em Foz do Iguaçu (PR) por um agente penitenciário bolsonarista, que havia invadido a festa aos gritos de “Aqui é Bolsonaro!” antes de disparar duas vezes diretamente contra Arruda, que celebrava seu aniversário de 50 anos.

Arruda deixa quatro filhos, entre eles uma menina de apenas dois meses. O assassino, o agente penitenciário federal Jorge José da Rocha Guaranho, chegou a ser ferido em legítima defesa por Arruda e permanece internado.

“Ele gritava que ia matar todos os petistas, gritava palavras de ordem e ‘aqui é Bolsonaro'”, relatou ao jornal O Globo o filho mais velho de Arruda, Leonardo. “Pelo ódio dele, parecia que ia matar todo mundo. Mas meu pai conseguiu evitar o pior, antes de morrer.”

As redes sociais de Guaranho mostram várias manifestações de apoio a Bolsonaro e mensagens com bandeiras bolsonaristas, como apoio a Donald Trump, oposição ao aborto, ataques à imprensa, denúncias mentirosas de fraude nas eleições americanas, conspiracionismo sobre a pandemia e críticas ao Supremo Tribunal Federal. Em seu perfil no Twitter, ele se apresentava como “cristão” e “conservador”. Em uma publicação junho de 2021, Guaranho aparece ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente.

Em entrevista a uma afiliada da TV Globo no Paraná, o secretário municipal de Segurança Pública de Foz do Iguaçu, Marcos Antonio Jahnke, afirmou que a Polícia Civil investiga o crime. “Pelo que a gente percebeu foi uma intolerância política”, afirmou o secretário.

Reações

Dirigentes do PT e membros da classe política não bolsonarista condenaram o assassinato de Marcelo Arruda. Alguns, como ex-presidente Lula, acusaram o presidente Jair Bolsonaro de incentivar a violência.

“Duas famílias perderam seus pais. Filhos ficaram órfãos, inclusive os do agressor. Meus sentimentos e solidariedade aos familiares, amigos e companheiros de Marcelo Arruda. (…) Também peço compreensão e solidariedade com os familiares de José da Rocha Guaranho [o agressor], que perderam um pai e um marido para um discurso de ódio estimulado por um presidente irresponsável”, escreveu Lula no Twitter, antes da divulgação de que o assassino havia, na realidade, sobrevivido.

“Este domingo amanheceu de luto após o assassinato brutal do companheiro Marcelo Arruda em Foz do Iguaçu. Ele foi assassinado durante sua festa de aniversário de 50 anos. Minha solidariedade aos filhos, esposa e amigos. Esse não é o Brasil que conhecemos e amamos”, escreveu no Twitter o petista Fernando Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo.

Em nota, o diretório estadual do PT do Paraná, disse que “Marcelo foi vítima da violência, do ódio e intolerância bolsonarista. O PT prestará toda assistência a sua família, acompanhará as investigações e o desenrolar jurídico dessa barbárie”.

“Nosso companheiro e amigo Marcelo Arruda, guarda municipal em Foz do Iguaçu, foi assassinado ontem em sua festa de 50 anos. Um policial penal, bolsonarista, tentou invadir a festa com arma. (…) Uma tragédia fruto da intolerância dessa turma”, escreveu a presidente nacional do PT, a deputada paranaense Gleisi Hoffmann.

Em uma nota distribuída pelo PT, Hoffmann fez mais críticas ao presidente Bolsonaro.

“Embalados por esse discurso de ódio de Bolsonaro e perigosamente armados pela política oficial dele, que estimula cotidianamente o enfrentamento, o conflito, o ataque e a eliminação de adversários, quaisquer pessoas ensandecidas por esse projeto de morte e destruição vem se transformando em agressores ou assassinos”, disse Hoffmann.

“O Brasil assiste a mais uma tragédia fruto do radicalismo injustificável. Solidariedade à família de Marcelo Arruda. O triste acontecimento em Foz do Iguaçu não pode se repetir! O Brasil precisa de paz e união para manter sua democracia”, publicou na rede o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), que também é companheiro de chapa de Lula.

“É triste, muito triste, a tragédia humana e política que tirou a vida de dois pais de família em Foz do Iguaçu. O ódio político precisa ser contido para evitar que tenhamos uma tragédia de proporções gigantescas”, escreveu o presidenciável Ciro Gomes (PDT).

A senadora, Simone Tebet (MDB), pré-candidata à Presidência pelo MDB, também se manifestou. “Esse tipo de situação escancara de forma cruel e dramática o quão inaceitável é o acirramento da polarização política que avança sobre o Brasil. Esse tipo de conflito nos ameaça enormemente como sociedade. É contra isso que luto e continuarei lutando”, disse,

O senador Renan Calheiros (MDB), companheiro de partido de Tebet, foi mais direto e criticou Bolsonaro, chamando o presidente de “facínora”.

“O assassinato de um líder sindical e dirigente partidário por um bolsonarista, mais que covardia, é tempestade gerada na usina de ódio e intolerância que Bolsonaro instila todo dia no coração dos brasileiros. Esse facínora precisa ser derrotado no primeiro turno”, escreveu no Twitter.

Já Sergio Moro (União Brasil), escolheu se manifestar de forma menos direta. O ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro do governo Bolsonaro afirmou que “o Brasil não precisa disso”. “Precisamos repudiar toda e qualquer violência com motivação política ou eleitoral”, escreveu no Twitter.

“O assassinato de Marcelo Arruda é consequência da guerra do ‘bem contra o mal’ invocada por Bolsonaro que gera dor, medo e lágrimas para todos os lados. É preciso dar um basta nessa política de violência”, escreveu a ex-presidenciável Marina Silva, dirigente da Rede.

“Bolsonarista assassina líder do PT em Foz do Iguaçu durante sua festa de aniversário. Nossa solidariedade aos familiares de Marcelo Arruda. Esse é o legado de Jair Bolsonaro para o país: violência, ódio e morte”, escreveu o ex-presidenciável Guilherme Boulos (PSOL). “Não são dois lados da mesma moeda. O bolsonarismo prega a morte, a tortura e leva a assassinatos políticos. Definitivamente não é uma escolha difícil”, completou.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede), por sua vez, escreveu que “a intolerância mata, acaba com famílias e faz o ódio vencer”. “Essa intolerância (…) infelizmente se reforçou no Brasil nos últimos anos.”

“Talvez tenha sido dado ontem em Foz do Iguaçu o primeiro tiro da guerra civil que pode caracterizar a eleição deste ano. Durante guerra civil não há terceira via”, escreveu o ex-governador e ex-presidenciável Cristovam Buarque (Cidadania).

Márcio França (PSB), ex-governador de São Paulo, afirmou que violência “só traz desgraça e tristeza”. “Lamento tanto o fanatismo inconsequente. Famílias e vidas dizimadas”, escreveu.

O ministro do STF Alexandre de Moraes, que é alvo constante de ataques bolsonaristas, também se manifestou no Twitter. “A intolerância, a violência e o ódio são inimigos da Democracia e do desenvolvimento do Brasil. O respeito à livre escolha de cada um dos mais de 150 milhões de eleitores é sagrado e deve ser defendido por todas as autoridades no âmbito dos 3 Poderes.”

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), por sua vez, afirmou que o assassinato é uma “materialização da intolerância política”. “O assassinato de um cidadão, durante a comemoração de seu aniversário com a temática do candidato Lula, é a materialização da intolerância política que permeia o Brasil atual e nos mostra, da pior forma possível, como é viver na barbárie”, escreveu no Twitter.

“Devemos todos, especialmente os líderes políticos, lutar para combater este ódio, que vai contra os princípios básicos da vida em família, em sociedade e em uma democracia”, disse Pacheco. “A convivência com o contraditório deve ser mais do que respeitada. Deve ser preservada e estimulada, pois é dessa forma que podemos, por meio de diálogo e busca de consensos, evoluir para um país melhor.”

Bolsonaro não aborda crime diretamente e lança táticas diversionistas

O presidente Jair Bolsonaro não mencionou o crime diretamente neste domingo. No Twitter, ele publicou uma mensagem na qual diz “condenar” o uso de “violência contra opositores”. Só que na sequência o presidente logo passou a atacar a esquerda, afirmando que ela “acumula um histórico inegável de episódios violentos”.

Nos tuites seguintes, longe de condenar o crime em Foz do Iguaçu e evitando prestar condolências, Bolsonaro passou a listar acusações contra alvos do bolsonarismo. “É o lado de lá que dá facada, que cospe, que destrói patrimônio, que solta rojão em cinegrafista, que protege terroristas internacionais, que desumaniza pessoas com rótulos e pede fogo nelas, que invade fazendas e mata animais, que empurra um senhor num caminhão em movimento”, escreveu Bolsonaro.

Antes de publicar essas mensagens, Bolsonaro havia se limitado neste domingo a publicar um vídeo em  que aparecia se vangloriando de uma pequena queda no preço dos combustíveis.

Um dos seus filhos, o vereador Carlos, que já foi apontado em um inquérito como líder de um esquema de disseminação de fake news, também partiu para táticas diversionistas, publicando comentários sobre supostos crimes do PT, evitando abordar diretamente o assassinato cometido em Foz do Iguaçu.

Em uma publicação, Carlos Bolsonaro tentou ainda passar a ideia que é a “imprensa” que estimula o ódio contra o bolsonarismo.

Outros ativistas de extrema direita também voltaram a disseminar neste domingo um vídeo em que Lula aparece agradecendo um ex-vereador que agrediu um empresário antipetista em 2018 e posteriormente foi acusado de tentativa de homicídio.

Outros bolsonaristas de escalões inferiores trataram de criticar a imprensa, acusar a “esquerda” de supostamente “usar o cadáver”, além de levantar especulações sobre o crime em Foz do Iguaçu, sugerindo, sem provas, que se trata de uma “armação”.

Violência política

Nas últimas semanas, a pré-campanha eleitoral já acumulava episódios de tensão e violência política. Nesta semana, uma bomba caseira foi detonada num comício de Lula no centro do Rio de Janeiro, sem deixar feridos. O autor foi preso. Em junho, um drone já havia lançado um líquido descrito como “água de esgoto” sobre apoiadores de Lula num evento em Minas Gerais. O autor, um fazendeiro, também foi preso. Antes disso, militantes bolsonaristas já haviam cercado um veículo que transportava Lula na cidade paulista de Campinas.

Após o assassinato de Arruda, políticos de oposição acusaram o presidente Jair Bolsonaro de instigar esse tipo de violência.

O presidente de extrema tem, de fato, um histórico de defesa de agressões contra adversários políticos. No final dos anos 1990, quando era deputado, ele defendeu que o então presidente Fernando Henrique Cardoso fosse “fuzilado” e que o ex-presidente do Banco Central Chico Lopes sofresse “tortura”, além de afirmar que o Brasil só mudaria “matando 30 mil” pessoas.

Ainda na campanha de 2018, durante um evento no norte do país, o então candidato atacou o PT e afirmou para apoiadores “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre, hein?”. Durante a pandemia, Bolsonaro também falou várias vezes em armar a população para que ela reagisse com força contra governadores e prefeitos que haviam ordenado a paralisação de atividades sociais e econômicas para frear a disseminação do vírus.

Em maio de 2022, Bolsonaro também disse, ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes: “Agora tá todo mundo reunido ao lado do ‘nine’ [alusão pejorativa a Lula] para organizar a campanha dos caras. A vantagem que a gente tá vendo nisso tudo, é que tudo que não presta tá se juntando. Igual em 2018, quando juntou aquele montão de candidatos, e eu falei: ‘É bom que um tiro só mata todo mundo ou uma granadinha só mata todo mundo.’ (…)”.

Ainda nesta semana, Bolsonaro lançou uma ameaça velada e uma convocação aos seus apoiadores. “Não preciso dizer o que estou pensando, ou o que está em jogo. Você sabe como você deve se preparar, não para um novo Capitólio, ninguém quer invadir nada. Mas sabemos o que temos que fazer antes das eleições”, afirmou Bolsonaro em sua live semanal, fazendo referência à invasão da sede do Congresso dos EUA por uma turba de extremistas em 6 janeiro de 2021. Em desvantagem nas pesquisas, Bolsonaro vem multiplicando ataques ao sistema eleitoral do país e indicando que não deve aceitar pacificamente uma derrota nas urnas.

Jean-Philip Struck Repórter

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