energia/Soberania Digital/soberania nacional/Tecnologia

Soberania ou Submissão? O Lado Obscuro do “Gigante de Dados” em solo Gaúcho

O anúncio de que Eldorado do Sul abrigará o maior data center da América do Sul foi recebido com fogos de artifício pelo governo do Rio Grande do Sul. No entanto, por trás do marketing da “Scala AI City”, esconde-se um projeto de proporções colossais que coloca em xeque a nossa segurança energética e, mais grave ainda, a nossa soberania digital.

Ao analisarmos o protocolo de intenções que prevê um licenciamento simplificado e autodeclaratório, fica claro que o Estado está abrindo as portas para uma nova forma de extrativismo: o extrativismo de dados e de recursos naturais.

1. O Ralo Energético: Quem vai pagar a conta?

A infraestrutura para Inteligência Artificial exige um consumo de energia que beira o inacreditável. O projeto da Scala em Eldorado do Sul, pode consumir até 4,75 gigawatts (GW).

Isso é mais do que a capacidade da Usina Hidrelétrica de Jirau, uma das maiores do Brasil. Enquanto os moradores de Eldorado do Sul sofrem com quedas frequentes de luz e tentam se reconstruir após enchentes históricas como mostrou reportagem da Matinal, o Estado oferece “via rápida” para um empreendimento que consumirá energia suficiente para abastecer milhões de residências.

O risco é real: uma pressão sem precedentes no sistema elétrico gaúcho que pode resultar em aumento de tarifas para o cidadão comum e instabilidade na rede.

2. O Cavalo de Troia da “Nuvem Soberana”

A questão dos dados é o ponto mais sensível e, muitas vezes, ignorado. Como tenho dito aqui no Blog, existe uma diferença abismal entre ter um data center em solo brasileiro e ter soberania sobre os dados.

A maioria desses grandes centros pertence a empresas de capital estrangeiro. Mesmo que os servidores estejam fisicamente em Eldorado do Sul, as “chaves do cofre” (os algoritmos e protocolos de acesso) pertencem a corporações que respondem a leis de outros países (como o Cloud Act dos EUA).

Estamos permitindo que o Brasil se torne uma “fazenda de dados”. Exportamos energia barata e água para resfriamento de servidores, enquanto o valor agregado — a inteligência e o controle da informação — flui para fora. É como se fosse uma Commodity.

Sem uma infraestrutura de rede e armazenamento controlada pelo Estado brasileiro (ou por empresas nacionais sob forte regulação), o Brasil fica vulnerável a espionagens e interrupções de serviço decididas em Washington ou no Vale do Silício.

3. Licenciamento Simplificado: Um Perigo Ambiental e Social

A pressa em conceder licenças simplificadas ignora o impacto cumulativo desses “monstros de concreto”. Além do consumo de energia, há o uso intensivo de água para refrigeração.

Este Blog tem alertado com frequência para o fato de que a tecnologia não é neutra: ela ocupa território e disputa recursos com a população local.

Em Eldorado do Sul, uma cidade devastada pelo clima, o governo estadual ignora que o licenciamento deveria ser o momento de exigir contrapartidas reais, como transferência de tecnologia e garantias de que esses dados servirão ao desenvolvimento nacional, e não apenas ao lucro de acionistas globais.

Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de ser a favor do Brasil. A verdadeira soberania digital exige que a nação tenha o controle sobre o processamento das suas informações.

Aceitar o maior data center da América do Sul sob um regime de “licenciamento facilitado” e sem um debate profundo sobre a propriedade dos dados é assinar um certificado de dependência tecnológica. O Rio Grande do Sul e o Brasil não podem ser apenas o “host” do mundo; precisamos ser os donos da nossa própria inteligência.


Descubra mais sobre Luíz Müller Blog

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

2 pensamentos sobre “Soberania ou Submissão? O Lado Obscuro do “Gigante de Dados” em solo Gaúcho

Deixar mensagem para Luiz Müller Cancelar resposta