Mulheres

Gratidão imensa, Professora Doutora Sônia Guimarães (Por Eloa Katia Coelho)

Uma das mulheres mais poderosas do Brasil segundo a Forbes

Neste Julho das Pretas, minha gratidão ultrapassa o reconhecimento individual. Ela alcança uma linhagem inteira de mulheres negras que ousaram ocupar laboratórios, universidades, bibliotecas e centros de pesquisa quando esses espaços lhes eram sistematicamente negados.

Eu sempre quis ser cientista.

Tive que aprender — e apreender — a ser constância nas leituras, aprofundar a cognição, manter honestidade intelectual na interpretação dos textos, articular epistemologias acumuladas e compreender a produção do conhecimento em um mundo multipolar.

Espelhei-me em representatividades como a sua. É por isso que representatividade importa. E importa muito.

Hoje afirmo, com orgulho, que sou cientista — Pesquisadora Científica Sênior — porque mulheres como a senhora vieram antes. Porque outras vieram antes de vocês. E porque outras ainda virão depois de nós.

A ciência também possui ancestralidade, e a nossa é feita de coragem, inteligência, resistência e compromisso coletivo.

Sua trajetória é, por si só, uma aula de persistência, excelência científica e compromisso social. Nascida em São Paulo, filha de um tapeceiro e de uma comerciante, estudou integralmente em escolas públicas.

Ainda adolescente, trabalhou para custear seus estudos e o cursinho pré-vestibular. Ingressou na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde concluiu a Licenciatura em Ciências, prosseguindo com o mestrado em Física Aplicada e, posteriormente, com o doutorado em Materiais Eletrônicos na University of Manchester Institute of Science and Technology, no Reino Unido. Em 1989, tornou-se a primeira mulher negra brasileira a obter o título de doutora em Física.

Em 1993, ingressou como professora do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), tornando-se a primeira mulher negra docente da instituição, em um período em que o próprio ITA ainda não admitia mulheres como estudantes.

Sua pesquisa concentra-se na Física Aplicada, especialmente em materiais eletrônicos, semicondutores e sensores, tecnologias fundamentais para a indústria, a microeletrônica e diversos sistemas de alta precisão.

A trajetória da Professora Doutora Sônia Guimarães constitui um marco incontornável na história das ciências brasileiras.

Seu pioneirismo rompeu estruturas históricas ao tornar-se a primeira mulher negra brasileira a obter um doutorado em Física e a primeira professora negra do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Esses feitos não representam apenas conquistas individuais; deslocam fronteiras simbólicas, ampliam o horizonte do possível e inauguram novos caminhos para gerações inteiras de meninas e mulheres negras.

Mas sua contribuição vai muito além da Física.

Ao longo de sua carreira, a professora tornou-se uma das principais vozes brasileiras em defesa da democratização da ciência, da inclusão de meninas e mulheres e da população negra nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Em palestras, entrevistas e atividades de extensão, incentiva meninas negras a ocuparem espaços científicos e denuncia as barreiras estruturais impostas pelo racismo e pelo sexismo na produção do conhecimento. Sua atuação demonstra que fazer ciência também é produzir justiça social.

Ao estabelecer diálogos entre ciência, filosofia, história e ancestralidade africana, a professora evidencia que a produção do conhecimento jamais foi monopólio europeu.

Ao refletir sobre sistemas africanos ancestrais de organização lógica, como o sistema de Ifá, convida-nos a reconhecer que diferentes civilizações desenvolveram formas sofisticadas de produzir conhecimento, organizar informações e construir racionalidades complexas.

Essa perspectiva amplia o debate contemporâneo sobre algoritmos, computação, matemática e inteligência humana, recolocando a África como protagonista da história da ciência, como uma reparação histórica. Muito obrigada Professora Doutora Sônia Guimarães. 

Porque esse feito trata-se de uma profunda inflexão epistemológica: reconhecer que a África também produziu ciência, lógica, tecnologia e pensamento complexo muito antes de esses saberes serem reconhecidos pela tradição acadêmica ocidental.

Não se trata de negar a ciência moderna, mas de ampliar sua memória, sua genealogia e seus horizontes e colocar o mundo no lugar também geográfico. 

Essa perspectiva não diminui a ciência moderna; ao contrário, amplia seus horizontes, restitui memórias historicamente silenciadas e fortalece uma ciência mais plural, democrática e humanizada.

Produzir ciência também é disputar narrativas sobre quem pode conhecer, quem pode ensinar e quem pode transformar o mundo.

Sua própria história demonstra que excelência científica e compromisso ético podem caminhar juntos.

Sua presença no ITA, sua produção acadêmica, sua atuação pública e sua defesa incansável da equidade racial transformaram-na em uma referência não apenas para a Física, mas para toda a ciência brasileira.

Neste Julho das Pretas, celebrar Sônia Guimarães é celebrar todas as mulheres negras que abriram caminhos onde antes existiam apenas barreiras.

É reconhecer que cada conquista individual se transforma em patrimônio coletivo e que cada porta aberta amplia as possibilidades para quem ainda está por vir.

Seguimos caminhando.

Porque houve quem abrisse as portas.

Porque estamos atravessando essas portas.

E porque outras mulheres negras ainda passarão por elas.

Saravá! 🙏🏾🤙🏾✊🏾

Julho das Pretas.

Por mais vozes

Por mais vezes 

Por mais negros nos rolês acadêmicos e científicos! 

Eloá Kátia Coelho

Pesquisadora Científica Sênior

Lésbica Internacionalista Afrodiaspórica

Coordenadora-Geral de Relações Internacionais

Referências (ABNT)

GUIMARÃES, Sônia. Sônia Guimarães. Laboratório de Popularização da Ciência – Universidade Federal do Espírito Santo. Disponível em: “https://leb.ufes.br/pt-br/sonia-guimaraes” (https://leb.ufes.br/pt-br/sonia-guimaraes). Acesso em: 28 jul. 2026.

ROSA, Katemari Diogo da. Sonia Guimarães. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as), v. 12, n. 33, p. 842-846, 2020.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE FÍSICA. “Elas estão vindo”: Sônia Guimarães sobre Mulheres e Meninas nas Ciências. 2023. Disponível em: “https://www.sbfisica.org.br/v1/sbf/elas-estao-vindo-sonia-guimaraes-sobre-mulheres-e-meninas-nas-ciencias/” (https://www.sbfisica.org.br/v1/sbf/elas-estao-vindo-sonia-guimaraes-sobre-mulheres-e-meninas-nas-ciencias/). Acesso em: 28 jul. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CARIRI. Sônia Guimarães abre IX Artefatos da Cultura Negra com palestra. 2018. Disponível em: “https://www.ufca.edu.br/noticias/sonia-guimaraes-abre-ix-artefatos-da-cultura-negra-com-palestra/” (https://www.ufca.edu.br/noticias/sonia-guimaraes-abre-ix-artefatos-da-cultura-negra-com-palestra/). Acesso em: 28 jul. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA. Sonia Guimarães apresenta histórias inspiradoras de cientistas negras em palestra na UFRB. 2024. Disponível em: “https://ufrb.edu.br/portal/noticias/sonia-guimaraes-apresenta-historias-inspiradoras-de-cientistas-negras-em-palestra-na-ufrb/” (https://ufrb.edu.br/portal/noticias/sonia-guimaraes-apresenta-historias-inspiradoras-de-cientistas-negras-em-palestra-na-ufrb/). Acesso em: 28 jul. 2026.


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