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O discurso da grande mídia para inviabilizar blogs e a diversidade de opinião

Por  no Jornal GGN

Desqualificar votos de nordestinos, chamar cidadãos de bovinos, acusar eleitores de Dilma Rousseff de serem cúmplices da corrupção, tornar indignos os seguidores de Simón Bolívar, disseminar uma suposta ameaça à liberdade de impressa, lutar contra privilégios da população negra, extinguir cotas sociais, classificar blogs como sendo sujos e “acusá-los” de serem financiados pelo governo.

Que relação há entre todos esses acontecimentos com a estratégia adotada pela grande mídia para impedir o crescimento de blogs e sítios não alinhados com os interesses da meia-dúzia de famílias que controla os meios de comunicação no Brasil?

Para entender a ligação entre fatos aparentemente distintos é proveitoso recorrer a alguns pensadores que analisaram as sociedades de suas épocas, pois eles desnudam a ideologia e a forma de atuar das classes dominantes.

A dominação

Há de se estar consciente de que em todas as épocas os humanos utilizaram comumente a procedência ou características físicas para explicar e justificar a julgada superioridade de certos indivíduos ou povos sobre outros. Em cada momento histórico os povos considerados mais avançados – modelos de superioridade e símbolos do ideal humano – eram aqueles que dominavam e subjugavam outras gentes. Eram os que criavam as leis, ditavam as regras, estabeleciam os valores da sociedade e se autodeterminavam como referenciais para os demais.

O francês Frantz Fanon, em “Os condenados da terra”, faz uma análise da psicologia da dominação ao examinar os mecanismos utilizados pelos dominadores dentro do contexto colonial. Aponta para a desumanização do povo colonizado promovida pelo colonialista, a rigor, animalizando o outro. Quando fala do colonizado a linguagem do colonizador é uma linguagem zoológica:

A linguagem faz alusão aos movimentos répteis do amarelo, às emanações da cidade indígena, às hordas, ao fedor, à pululação, ao bulício, à gesticulação. O colono, quando quer descrever bem e encontrar a palavra exata, recorre constantemente ao bestiário. (Fanon, p. 31)

Ele evidencia ainda, em “Pele negra, máscaras brancas”, a importância da degradação da imagem do povo subjugado para que haja um engrandecimento da figura do dominador. Para Fanon isso pode ser observado no antissemitismo que se propaga nas classes médias, pois não tendo estas nem terra, castelo, ou casa, ao tratarem o Judeu como um ser inferior e pernicioso, confirmam, ao mesmo tempo, que pertencem a uma elite.

 

O racismo

Se grave a degradação quando se prende a um fator que pode ser facilmente ocultado, tal como a origem e convicção judaica, o quadro piora quando se prende a características físicas que estampam no corpo aquilo que é depreciado pelo outro.

Nesse caso, no tocante à discriminação pela cor de pele, diz o autor que “uma criança negra, normal, tendo crescido no seio de uma família normal, tornar-se-á anormal ao menor contacto com o mundo branco”. Isto ocorre porque, desde o momento da chegada do colonizador no meio social é incutida a idéia da inferioridade das pessoas que possuem pele negra.

Para Albert Memmi, outro pensador francês, em seu “Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador”, a discriminação se insere de tal forma que fica presente no “conjunto de condutas, de reflexos adquiridos, exercidos desde a primeira infância, valorizados pela educação, o racismo colonial está tão espontaneamente incorporado aos gestos, às palavras, mesmo as mais banais, que parece constituir uma das mais sólidas estruturas da personalidade colonialista”.

 

A obra da Escravidão

Em terras tupiniquins, segundo o brasileiro Francisco Weffort, em seu “Formação do pensamento político brasileiro: ideias e personagens”, dentre os intelectuais que trataram o tema Joaquim Nabuco foi o primeiro a ver na escravidão brasileira um “fenômeno social total”.

Nabuco advertiu, mesmo antes da abolição, que embora o abolicionismo destruísse a escravidão, poderia permanecer a “obra da escravidão”:

Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância. O processo natural pelo qual a Escravidão fossilizou em seus moldes a exuberante vitalidade do nosso povo durou todo o período do crescimento, e enquanto a Nação não tiver consciência de que lhe é indispensável adaptar à liberdade cada um dos aparelhos do seu organismo de que a escravidão se apropriou, a obra desta irá diante, mesmo quando não haja mais escravos. (Weffort, p. 219)

 

O atual pensamento colonialista

O pensamento colonialista e a “obra da escravidão” ainda pairam sobre nossa sociedade sob novas formas. O discurso preconceituoso advindo do sudeste e a tentativa de rebaixamento de brasileiros nordestinos à condição de animais tornam Fanon atual – não mais a subjugação de um povo por outro, mas de brasileiros sobre brasileiros.

As desigualdades econômicas e sociais entre as populações negra e branca em nosso país evidencia o quanto a “obra da escravidão” ainda opera em nosso meio.

Sua obra transcendeu a questão racial. No sudeste e sul do país passa a agir também contra nossos irmãos das outras regiões do país.

O combate resistente e articulado das elites econômicas contra a diminuição das desigualdades se faz evidente com a ferocidade com que atacam, desqualificam e tentam humilhar quem vote em Dilma, admire Bolívar ou seja favorável às cotas sociais.

Por agirem em conjunto, alinhados e com pauta e discurso únicos, conseguem ser efetivos. Em todos os meios e em qualquer canal sempre o mesmo viés de classe. Em todos os rádios só se ouvirá aquilo, em todas as televisões só se verá isso, em todos os jornais só se lerá isto:

 

• Cotas raciais: criam preconceito.

• Cotas sociais: instalam o fim do mérito pessoal.

• Cotas de gênero: desunem homens e mulheres.

• Benefícios sociais: constituem desestímulo ao trabalho.

• Nordestino: lugar de analfabeto.

• PT: sinônimo de corrupção.

• Votar no PT: cidadão corrupto, inculto.

• Reconhecer méritos do governo: ser pago pelo governo.

• Criticar sistematicamente o PT: indivíduo culto e informado.

• Bolívar: ameaça comunista.

• Blogs questionadores da mídia: sujos, submundo da internet.

• Verbas publicitárias públicas naqueles blogs: compra de opinião por parte do governo.

 

Persuasão dos incautos

A persuasão é tamanha que se vê que os potenciais beneficiários das políticas públicas se tornam contra sua implantação. Veem-na como motivo de rebaixamento social.

É a crítica quanto ao universitário que cursa faculdade com bolsa integral do Prouni, mas não ao filho de família rica que cursa gratuitamente uma renomada universidade pública.

O mesmo ocorre com a aplicação de verbas públicas em publicidade na internet. O vitorioso discurso da grande mídia tacha de “comprado”, “parcial”, “petralha” e “chapa branca” qualquer sítio ou página que receba anúncios governamentais e que não esteja alinhada com a grande mídia.

De um lado isso criou aversão nos blogs progressistas quanto a receber qualquer tipo de publicidade governamental para poderem possuir o “selo” de independência editorial.

De outro, por fazer oposição sistemática e cobertura parcial, a mídia acusativa faz publicação de acusações sem provas e não dá voz aquele que é alvo das acusações, o que leva aos blogs não alinhados a destinarem a maior parte de suas publicações para contra argumentar aquilo que foi divulgado na grande mídia. São esses blogs que se prestam ao trabalho de “ouvir” o outro lado, de publicar a versão da acusado.

De uma só tacada a grande mídia inviabiliza o crescimento desses blogs, abarca a publicidade governamental realizada na internet e pauta os assuntos que serão discutidos e publicados nos outros meios: os blogs se tornam caixa de ressonância dos grandes veículos.

 

Legislação e programas de estímulo

O Estado, representante da tutela dos interesses da coletividade, deve regular os mercados a fim de evitar falhas de mercado, em especial aquelas que podem ensejar malefícios à população em geral em contrapartida a lucros abusivos de setores dominantes.

A diversidade de veículos de informação e a quebra do cartel midiático se darão com legislação e instrumentos que estimulem a criação, manutenção e crescimento de canais alternativos de divulgação de informações, notícias e produção de conhecimento.

Tal qual estímulos recebidos pela indústria, a legislação que concede tratamento diferenciado à micro e pequenas empresas nas contratações públicas (Decreto 6.204, 5.9.07), o apoio à agricultura familiar (Pronaf) etc., a mídia alternativa também precisa receber estímulos do governo para que se desenvolva, seja mais atuante e o meio tenha condições de ser plural e democrático.

Os pequenos veículos de comunicação não possuem o mesmo aparato e capital que os grandes. Precisam de um tratamento diferenciado para se fazer cumprir o princípio da isonomia, que implica a necessidade de os iguais serem tratados igualmente e os desiguais, desigualmente, na medida da sua desigualdade.

Preciso é também fortalecer a TV Brasil, tornando-a de cobertura nacional. A fonte de recursos poderiam ser as verbas de publicidade destinadas aos grandes veículos de comunicação.

Ao mesmo tempo o governo deve estabelecer critérios claros e de interesse nitidamente público para a aplicação de verbas publicitárias, cortando despesas com veículos que disseminem preconceitos e infrinjam nossos princípios constitucionais.

Enquanto a grande mídia for a “fonte oficial” de informação para o público e pautar governos e aquilo que seja “notícia” em nossa sociedade, o colonialista, em nova roupagem, estará ainda sobre nós.

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