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Trabalhadores gaúchos também paralisam contra a terceirização e em defesa dos direitos trabalhistas

Guilherme Santos/Sul21

Do SUL21

O Dia Nacional de Mobilização contra o Projeto de Lei 4330, a chamada Lei das Terceirizações, começou com uma grande paralisação dos ônibus em Porto Alegre. Entre 5h e 8h30, raríssimos veículos conseguiram deixar as garagens devido a pressões que sindicatos e movimentos sociais faziam para que os rodoviários aderissem à paralisação nacional.

Na garagem da Carris, localizada na Rua Albion, um dos principais focos de mobilização de Porto Alegre, a ação começou cedo. Antes das 4h, rodoviários, sindicalistas e manifestantes de movimentos começaram a se reunir no local. Desde as 5h, a tropa de choque da Brigada Militar também se fez presente.

Por volta das 6h30, a mobilização reunia dezenas de pessoas, muitas delas carregando bandeiras, em frente às duas saídas da garagem. Neiva Lazzorotto, coordenadora do Intersindical, que estava no local desde antes das 4h, afirmou que os sindicatos estavam presentes no local porque o setor de transportes é estratégico para a mobilização nacional contra a terceirização. “Se o transporte para, facilita a adesão das outras categorias”, disse.

O motorista Márcio Rabuscki, que está de férias, tentava ao microfone convencer os seus colegas dentro da garagem da importância da paralisação e de que, se tentassem forçar a saída dos ônibus, quem estavam na rua poderia se ferir em uma eventual ação da Brigada.

Mobilização dos rodoviários começou ainda de madrugada | Foto: Guilherme Santos/Sul21

“Essa luta é muito maior que um dia descontado no contracheque”, disse Rabuscki ao Sul21, lembrando que muitos rodoviários tentavam sair também devido ao assédio moral que sofriam da direção da empresa.

Por volta das 7h, sob o comando do tenente coronel Souto, a tropa de choque se posicionou em frente a um dos portões da garagem e começou a avançar na direção dos manifestantes. Seguiu-se um momento de tensão, em que Souto tentou negociar a desobstrução do local, enquanto os manifestantes e sindicalistas presentes tentavam adiar para às 8h30 a liberação dos ônibus sob os gritos de “Não passa nada” e “A luta não é crime, protesto não se reprime”.

Às 7h10, Souto foi ao portão principal da garagem da Carris tentar convencer os ali presentes a se afastarem e foi recebido com gritos de “Oito e meia, oito e meia”. “Ninguém quer confronto. Agora, os senhores não estão sendo compreensivos”, disse Souto, sendo interrompido em diversas oportunidades. “Pessoal, nós estamos lidando com vidas. Daqui a pouco, esse confronto, um de nós pode ser abatido”, afirmou.

Neste momento, ele foi interrompido pelos manifestantes que o acusaram de estar fazendo ameaças. Com o clima tenso, o tenente coronel tentou acalmar os ânimos dizendo que não estava ameaçando ninguém e lembrando que estava há mais de duas horas tentando negociar a desobstrução da garagem.

Após uma nova conversa entre Souto e representantes do Sindicado dos Rodoviários que estavam dento da garagem, ficou acertado entre a polícia e os líderes sindicais Guiomar Vidor, presidente do CTB-RS (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), e Adair da Silva, presidente do Sindicato dos Rodoviários, que a saída dos ônibus ficaria adiada de fato para as 8h30.

Guiomar e Adair também garantiram que os trabalhadores que aderissem à paralisação não teriam o ponto cortado e o dia de trabalho descontado.

Motoristas e cobradores aguardam dentro da garagem da Carris | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Apesar dessa garantia, motoristas e cobradores que se reuniam em frente a outro portão desconfiavam e reclamavam de partidos políticos e sindicatos que apoiavam a mobilização, enquanto eles perdiam no corte do ponto. “Chega de fazer gracinha com os rodoviários”, disse um trabalhador que não quis se identificar.

Quem conversou com o Sul21 foi o cobrador e professor de História Juscelino Marques, conhecido como “professor” pelos colegas. Ele saudou a mobilização nacional contra a terceirização. “O pouco que foi conquistado de direitos trabalhistas nos últimos 70 anos, com essa terceirização, nós vamos perder tudo”, disse.

Favorável à paralisação geral, ele reconheceu que muitos rodoviários estavam com receio de aderirem por medo de perder o pagamento pelo dia de trabalho. “E tem outros que, lamentavelmente, com todo respeito, é porque são pelegos mesmo. E são ignorantes porque falta a noção de que os filhos deles amanhã, se a terceirização passar, vão perder direitos”, afirmou. “Esses que querem trabalhar são os que atrasam a sociedade brasileira”, completou.

Apoio de políticos

Após a resolução do primeiro impasse, aumentou a presença de veículos da imprensa, sindicalistas e políticos. Presente no local desde as 7h, o deputado estadual Altemir Tortelli (PT), que foi dirigente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), salientou que o sucesso de uma manifestação ou greve geral “tem muito a ver com o tema dos transportes”. “Mais uma vez, aqui se comprova que a grande maioria dos trabalhadores está consciente, entendendo que a terceirização é um desastre para as suas vidas”, disse o deputado.

O deputado estadual Tortelli criticou duramente a terceirização | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Ele lembrou que, em empresas terceirizadas, constata-se a redução de até 30% no salário dos trabalhadores, dificuldade de organização e sazonalidade. “As pessoas ficam seis meses numa empresa, seis meses na outra. Então, eles não fazem parte nem de uma categoria, nem de outra”, disse.

Tortelli ainda saudou a mobilização como um elemento para aumentar a conscientização dos trabalhadores contra a terceirização. “Vira um fato, e o fato se transforma em um elemento de consciência para os demais que não estão na mobilização”, disse.

A vereadora Fernanda Melchionna (Psol) também esteve presente no local para manifestar o seu apoio à mobilização contra a terceirização e perda de direitos dos trabalhadores. “Na verdade, nós vemos uma política nacional de ajuste fiscal e cortes nas áreas sociais, e por outro lado um Congresso comandando pelo Eduardo Cunha que se esmera na tentativa sistemática de tirar direitos dos trabalhadores”, disse.

Ela ainda saudou a participação de movimentos jovens nos piquetes. “A juventude está em peso em todos os piquetes para fortalecer essa luta e para mostrar que os trabalhadores não aceitarão um rebaixamento brutal de salário e um ataque aos seus direitos, como é a terceirização”, disse.

Saída no horário combinado

Por volta das 8h15, dentro da garagem, os rodoviários aguardavam com tranquilidade a retomada da circulação de ônibus. Alguns diziam que desejavam sair para fazer seus trabalhos. Outro grupo comentava que, se a paralisação fosse oficial e 100%, iriam aderir. Mas, sem essa garantia, optaram por sair.

Conforme o combinado, às 8h30 os portões de uma das garagens da Carris abriu e os primeiros ônibus começaram a sair. Houve um breve desentendimento e empurra-empurra entre policiais e manifestantes, mas logo a Brigada Militar montou um corredor para facilitar a saída e impedir o acesso de quem ainda tentava bloquear a saída dos ônibus, que saiam sob vaias, xingamentos e gritos de pelegos por parte dos rodoviários que aderiram à paralisação.

Com ajuda da Brigada, ônibus começaram a circular por volta das 8h30 | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Movimentação baixa no Centro

A baixa movimentação no Centro de Porto Alegre por volta das 9h da manhã indicava que grande parte da população já estava preparada para a mobilização. Algumas pessoas também deixaram para sair de casa mais tarde, apenas após os ônibus voltaram a circular. Nas paradas e terminais de ônibus, a aglomeração de pessoas também era baixa.

Quem tentou sair para o trabalho no início da manhã, encontrou uma cidade com movimento bem abaixo do normal. O assistente de logística Renato Marques da Silva contou que ficou aguardando por mais de meia hora por um veículo que o levasse do bairro Humaitá ao Centro e que conseguiu um apenas por volta das 8h40. Segundo ele, porém, muita gente desistiu de esperar e voltou para casa.

Agências de bancos particulares fecharam as portas até o meio-dia no Centro | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Renato afirmou que não estava “muito por dentro” da mobilização e que soube dela apenas ontem. Apesar do prejuízo pessoal, disse apoiar a paralisação e que o “transtorno vale à pena”. “Já tá complicado, se aprovar essa lei, vai prejudicar ainda mais a nossa vida”, disse Renato.

Com poucos ônibus em circulação, por volta das 9h30, algumas lojas ainda estavam fechadas no Centro e outras começavam a abrir as portas. Além disso, segundo o SindBancários, 25 agências de bancos privadas fecharam as portas no Centro até o meio-dia. Nos bancos públicos, a adesão foi apenas parcial.

Segundo Paulo Roberto Steckel, diretor financeiro do sindicato, a adesão à paralisação nos bancos privados foi maior por causa da pressão que estas instituições fazem pela aprovação do PL 4330. “A greve é maior nos privados por causa do grande lobby que os banqueiros dos bancos privados estão fazendo no Congresso a favor da terceirização”, disse Steckel, que estava posicionado em frente a uma agência do HSBC, na rua General Câmara, ao lado de outras lideranças do SindBancários, para impedir que elas operassem antes do horário definido.

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Por Guilherme Santos/Sul21

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