Eleições 2016/política

O recado das urnas no Rio e o Comportamento da Esquerda

A política se expressa de muitas formas e, neste momento pós eleições municipais do Rio, vale uma pequena reflexão. As urnas falam e falam bem alto. Porém os gestos também falam alto, pois refletem uma visão de presente e de futuro, direcionam estratégias, determinam aliados, a relação com eles e compromissos reais com o povo.
A vitória da negação da política e o comando da prefeitura do Rio em mãos conservadoras são um retrocesso. Lamento sinceramente a derrota de Marcelo Freixo, candidato apoiado por nós do PCdoB e demais forças de esquerda no segundo turno.
O palanque de Marcelo Crivella mostrou uma unidade de centro-direita, com lideranças religiosas e a expressão de uma visão atrasada de como “cuidar das pessoas”, por meio da negação da diversidade e pluralidade, características muito fortes na sociedade carioca.
O processo eleitoral ocorreu debaixo de um golpe institucional, da violação da nossa Constituição, da criminalização da política, com foco na eliminação da esquerda que governou o Brasil e em consequência dos direitos por ela garantidos.
Sinais de fascismo e Estado de exceção com envolvimento de agentes públicos dos três Poderes marcaram os últimos meses, contando com amplificação e consolidação da criminalização da política pela Grande Mídia, particularmente pelo sistema Globo de televisão, rádio, jornais e revistas semanais. Ao analisar este cenário, não concordo com os que acham que os erros da Esquerda foram a razão do golpe e da desesperança do povo, mesmo admitindo que existiram muitos erros.
Tudo isso tem exigido de nós uma demarcação clara de campo, a inserção da cidade que queremos neste contexto e o máximo de unidade possível do campo mais avançado e da Esquerda em particular. Todos sabíamos que no primeiro turno, o voto útil unificaria a opção do eleitorado à esquerda. Ficou claro que minha candidatura foi atingida por este movimento.
No segundo turno, porém, a unidade e a ampliação seriam fundamentais para enfrentar no Rio a onda conservadora que varreu o Brasil. Ainda que não ganhássemos a eleição, teríamos dado um grande passo em direção a uma perspectiva futura de unidade das esquerdas e do campo progressista. A soma não é apenas matemática, mas de forte simbolismo político.
No entanto, não dar visibilidade ao apoio do PT, da REDE e do PCdoB foi uma opção nítida da campanha de Marcelo Freixo, e a única alternativa que nos restou foi respeitar uma estratégia onde não cabíamos. Falando por minha candidatura, reafirmo meu compromisso no segundo turno, quando declarei apoio à candidatura do PSOL antes mesmo de terminada a apuração dos votos do primeiro turno.
Fizemos outras declarações públicas durante o processo, com vídeos, presença em atos na Cinelândia – como o de mulheres – com nossa tradicional militância presente na rua durante todo o tempo e de forma muito bonita. Mas é necessário dizer à sociedade que, se mais não fizemos foi porque entendemos o recado e respeitamos a decisão da candidatura de Freixo, que não buscou a nossa opinião, muito menos a nossa presença em demais atividades, imagens, TV e redes sociais.
Ao emitir uma “Carta aos Cariocas” para, tardiamente, atrair o eleitor de classe média mais ao centro, equivocou-se. Na minha opinião, seu conteúdo reforçou um movimento de “despolitização da política” fortemente presente no país, que acabou marcando as duas campanhas neste segundo turno e que pode ter contribuído para o altíssimo índice de abstenções. Isso foi visto, sintomaticamente, em maior grau na Zona Sul e bairros de classe média do que nos territórios populares.
A história já diz. As vitórias eleitorais da Esquerda no Rio sempre estiveram respaldadas no voto popular, e grandes votações nas zonas norte e oeste. Foi assim nas eleições de Brizola para governador em 1982 e em 1990. Lula, por exemplo, sempre teve votações expressivas no Rio de Janeiro, desde a sua primeira campanha em 1989. Em 2002 e em 2006, teve média de 70% dos votos nas zonas norte e oeste, performance repetida por Dilma em 2010.
O PSOL, que optou por não receber o apoio de Lula em sua campanha, nunca conseguiu chegar perto deste patamar nas regiões populares desta cidade. Faltou povo no seu eleitorado, porque talvez falte construir pontes com os setores da esquerda que construíram lastro e raízes históricas junto aos setores populares. Como escreveu Sidney Rezende em seu portal, “ajudar a Direita a desconstruir os demais partidos de Esquerda, principalmente o PT, pode abrir estradas ao PSOL, mas pode afastar delas quem ainda acredita que a esquerda mais unida, ainda que com divergências, seja indispensável para merecer seu voto”.
E a segunda lição das urnas para o PSOL é que a ofensiva anti-PT e anti-esquerda desencadeada nestas eleições municipais atinge também o próprio PSOL. O partido perdeu as 3 eleições que disputou nesse segundo turno, e vai governar apenas 2 pequenos municípios em todo o país. Pau que bate em Chico, bate em Francisco.
O mapa da votação na cidade é eloquente e fala por si. Esquerda sem povo e sem ampliação não vai muito longe, como a história das batalhas eleitorais do Rio nos ensina.
A responsabilidade agora é de todos nós.
Olhar para o futuro e repensar o papel da Esquerda, dos movimentos sociais em conteúdo, gestos e forma de relação com a sociedade, particularmente o povo trabalhador e menos aquinhoado. No centro do nosso projeto deve estar a recuperação democrática, os direitos e o desenvolvimento do nosso país.
Os desafios são muitos e devemos trabalhar em unidade e frentes amplas que nos permitam recuperar nossa referência. Devemos reconhecer a lição que saiu das urnas e seguir apoiando e incentivando a juventude em luta nas periferias, nas escolas e universidades ocupadas, os trabalhadores e mulheres guerreiras, os artistas que se expuseram com riscos reais para suas carreiras.
Há muito que fazer para superar os nossos limites e visões que dificultam composições mais amplas no campo da Esquerda e dos setores progressistas. É preciso permitir acumular forças entre os que defendem, como nós, um futuro de politização, ampliação da democracia e vitória do nosso povo contra a dramática agenda de Estado mínimo em implantação por este governo ilegítimo.

Um pensamento sobre “O recado das urnas no Rio e o Comportamento da Esquerda

  1. Seguindo o recado das urnas nesse ano de 2016 em que a politica foi criminalizada me chamou a atencao no numero de vereadores eleitos pela chapa majoritaria.Senao vejamos: SP – Doria PSDB 3.085 mil votos – 11 vereadores ( 3.096 mil votos em branco.) Rio – Crivellea PRB 1.700 mil votos – 3 vereadores (2.034 mil votos em branco) BH – Kalil PHS 628.050 mil votos- 4 vereadores ( 439.184 votos em branco) Vitoria – Luciano PPS 95.458 mil votos – 4 vereadores ( 46.328 votos em branco) Curitiba – Greca PMN 461.736 mil votos – NENHUM ( 422.141 votos em branco) Florianopolis – Gean PMDB 111.943 mil votos – 4 vereadores (93.516 votos em branco) Porto Alegre – N.Marchezan PSDB 402.165 mil votos – 1 vereador – ( 433.715 votos em branco) Salvador – ACMN DEM 982.246 mil votos – 6 vereadores (620.692 votos em branco) Aracaju – Edvaldo PC do B 146.271 mil votos – 2 vereadores ( 116.503 votos em branco) Maceio – Rui PSDB 241.977 mil votos – 5 vereadores ( 178.415 votos em branco) Recife – Geraldo PSB 528.335 mil votos – 8 vereadores ( 257.404 votos em branco) Joao Pessoa – Luciano Cartaxo PSD 222.689 mil votos – 1 vereador (115.872 votos em branco) Natal – Carlos Eduardo PDT 225.741 mil votos – 4 vereadores ( 178.641 votos em branco) Fortaleza – Roberto PDT 678.847 mil votos – 8 vereadores ( 425.278 votos em branco) Sao Luis – Edvaldo PDT 285.242 mil votos – 4 vereadores ( 130.926 votos em branco) Teresina – Firmino Filho PSDB 220.042 mil votos – 4 vereadores ( 101.669 votos em branco) Palmas TO – Carlos Anastha PSB 68.634 mil votos – 3 vereadores (41.298 votos em branco) Belem – Zenaldo Coutinho PSDB 396.770 mil votos – 2 vereadores (285.116 votos em branco) Macapa – Clecio REDE 123.808 mil votos – 2 vereadores (73038 votos em branco) Boa Vista RR – Teresa PMDB 121.148 mil votos – 1 vereador (50.380 votos em branco) Manaus – Artur Neto PSDB 581.772 mil votos -2 vereadores ( 217.493 votos em branco) Rio Branco AC -Marcus Alexandre PT 104.311 mil votos – 5 vereadores (51.032 votos em branco) Porto Velho RO Dr Hildon PSDB 148.673 mil votos -2 vereadores ( 91.731 votos em branco) Cuiaba MT Emanuel PMDB 157.877 mil votos – NENHUM – (153.734 votos em branco) Campo Grande MS Marquinhos PSD 241.876 mil votos – 2 vereadores ( 183.613 votos em branco) Goiania GO Iris Resende PMDB 379.318 mil votos – 3 vereadores ( 299.794 votos em branco.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s