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Eppur si muove (Por Mino Carta)

Temer Lula

Por Mino Carta na Carta Capital 

No Brasil do golpe começa a aparecer quem percebe ser vítima da prepotência e do ridículo de uma quadrilha

Esta noite tive um sonho, em um recanto obscuro encontrei Totò Riina e Bernardo Provenzano. Não sei se o cenário era a selva dantesca ou uma cela da prisão de segurança máxima onde os dois chefões mafiosos vivem condenados por centenas e centenas de anos.

Na língua dos sonhos me pus a falar do Brasil do golpe e os olhos dos meus interlocutores brilharam sinistramente quando lhes disse: “Vocês se sairiam bem melhor do que a quadrilha que hoje manda por lá”.

Nos devaneios oníricos tudo é possível, bem como na espantosa realidade em que os golpistas nos mergulharam. O escândalo da carne insere-se à perfeição neste enredo tresloucado e patético sem deixar de ser trágico. O encaixe é simplesmente magistral: todas as situações precipitadas desde a Lava Jato são fulguradas pelos efeitos da simbiose infernal entre delírio e prepotência.

A quadrilha golpista escorrega na sua visceral incompetência até as raias do ridículo na sua expressão circense. Como é possível silenciar diante de tanto descalabro e de tamanha empáfia? Como não rir do mestre-sala da encenação, digo, o presidente Michel Temer, e das suas ratas verbais e gestuais cometidas com pompa teatral? Não sei por que, mas sempre o imagino de cartola, botas, calça-culote e paletó vermelho a anunciar a entrada no picadeiro de palhaços, saltimbancos, equilibristas, animais exóticos.

E que dizer da pantomima interpretada por Gilmar Mendes em torno da Lava Jato, já a se permitir irregularidades e deslizes sem conta diante de um Supremo conivente e agora a semear discórdia entre os golpistas, ao ficar claro que a República de Curitiba não visa somente Lula e o PT?

A quadrilha também está na mira e o resultado é um fuzuê farsesco, sem contar o narcisismo desbragado do juiz Sergio Moro e a vocação milenarista dos promotores que o cercam, prontos a reeditar a retórica da Primeira Cruzada. O grupelho age em nome de Deus contra os infiéis.

Ouço os meus botões a gargalhar, os convoco ao decoro e peço esclarecimentos. De que se riem, exatamente? Do enredo e de suas personagens, explicam. Digo, na tentativa de uma chamada à ordem: falamos é de um presidente poeta, de ministros de Estado, de magistrados da Corte Suprema… Pois é, concordam, e gargalham. O botão mais graúdo, voz de barítono, diz com repentina veemência: não somos únicos na risada, muitos brasileiros começam a registrar a especial debilidade dos seus verdadeiros inimigos.

Algo se move, de fato, e não basta recorrer às pesquisas de opinião para capturar a verdade factual. Multidões se formam aqui e acolá, para manifestar seu descontentamento, como a se darem conta, finalmente, da gravidade de um golpe perpetrado por uma quadrilha incompetente, de falcatrueiros primários, mergulhados na habitual certeza da impunidade. Talvez se enganem. Quem sabe desta vez a aposta falhe.

A Boitempo Editorial acaba de lançar um livro muito importante, o Dicionário Gramsciano, a organizar em verbetes as lições de um grande pensador moderno, o sardo Antonio Gramsci, aquele que recomendava pessimismo na inteligência e otimismo na ação. Furtara a ideia a uma personagem de Romain Rolland, sem esconder o furto, está claro, seduzido pela força da ideia.

O pessimismo, válido também como ceticismo, diz respeito à necessidade de sempre levar em conta as fraquezas da natureza de um ser imperfeito, o homem. O otimismo na ação significa também nunca perder as esperanças. Meus botões carbonários entendem que há de chegar a hora de praticar esse gênero de desassombrado otimismo.

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