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UM TESTEMUNHO DE COMPANHEIRO E IRMÃO (Por Selvino Heck)

GILBERTO CARVALHONunca pensei que um dia precisasse prestar esse depoimento, dado, diga-se de passagem, por livre e espontânea decisão. Mas chegam momentos na vida em que é preciso enfrentar a mentira de peito aberto, a verdade precisa ser dita, sem medo de que ela possa parecer meramente laudatória, com a firmeza de quem sabe o que diz, de quem viveu o que viveu, de quem compartilhou a convivência, para que a ninguém assaltem eventuais dúvidas sobre a coerência, a firmeza de compromissos, a fé autêntica, a retidão e a coragem do sujeito do depoimento. Não se pode vacilar, titubear ou ter medo nesta quadra da história, ainda mais depois dos últimos acontecimentos, quando a democracia está em jogo, quando a Justiça, com ‘j’ maiúsculo, precisa ser afirmada, assim como preservadas vidas e histórias de pessoas decentes e honestas.

Meu testemunho é sobre Gilberto Carvalho.

Conheci Gilberto no final dos anos 1970, início dos anos 1980, ele fazendo a travessia da vida de Seminário para o mundo da luta e da política, eu fazendo o mesmo na vida de frade franciscano. Não lembro exatamente quando e onde nos conhecemos, mas visitei-o morando num bairro popular de Curitiba, aos tempos em que eu morava na Lomba do Pinheiro, bairro popular de Porto Alegre e Viamão. Atuávamos ambos nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e pastorais sociais, entramos juntos na Pastoral Operária (PO), ele que fora por um tempo metalúrgico, eu que atuava especialmente com os trabalhadores da construção civil, que fizeram uma grande greve em 1979 na Região Metropolitana de Porto Alegre, mesmo período das greves do ABC.

Quando, instados pelo saudoso Pe. Agostinho Pretto e Coordenação Nacional da Pastoral Operária, a alguém ir assumir tarefas nacionais na PO, eu declinei do convite ou da possibilidade, ele não se fez de rogado. Com família e tudo, foi morar na Baixada Fluminense, viajar pelo Brasil, articulando os grupos de Pastoral Operária, apoiando as Oposições Sindicais, ligando a fé à vida e ao compromisso de transformação social.

Em 1986, fomos ambos candidatos a deputado constituinte, ele a federal no Paraná, eu a estadual no Rio Grande do Sul. Ele foi o candidato mais votado do PT paranaense, não se elegendo porque o partido não atingiu o quociente mínimo necessário, eu me elegi deputado estadual gaúcho, junto com Adão Pretto, Raul Pont, José Fortunati, e os federais Olívio Dutra e Paulo Paim.

No engajamento na política, nunca deixamos de ser cristãos militantes, vivendo nossa fé na política. Junto com companheiros e companheiras de todo Brasil, Frei Betto, Leonardo Boff, Pedro Ribeiro de Oliveira, Teresinha Toledo, Cláudio Vereza, Benedita da Silva, outras muitas e outros muitos, criamos em 1989 o Movimento Fé e Política.

Gilberto, fruto de sua experiência nacional na Pastoral Operária, mudou-se para São Paulo, assumindo tarefas em plano estadual em São Paulo e nacionais. Nos anos 1990, em função das histórias de cada um, estivemos mais distantes fisicamente, embora militantes permanentes do Movimento Fé e Política.

Lula é eleito presidente da República, Gilberto torna-se seu Chefe de Gabinete e Frei Betto Assessor Especial do Presidente. Sou convidado a integrar a equipe do TALHER, para atuar no Fome Zero. Mais tarde, saindo Frei Betto do governo, com apoio decisivo de Gilberto, sou convidado a ser   Assessor Especial, até o final do segundo governo Lula, coordenando a Rede de Educação Cidadã, RECID. No governo Dilma, Gilberto torna-se Ministro Chefe da Secretaria Geral da Presidência, eu, por sua deferência e confiança, sou Assessor Especial, participante privilegiado de todos os debates e ações da Secretaria Geral, a relação com os movimentos sociais, o lançamento da Política e Sistema Nacional de Participação Social e a formulação de uma Política Nacional de Educação Popular, tendo como ator central  a  Rede de Educação Cidadã, ampliando a relação com a sociedade e os movimentos sociais e a construção de políticas públicas com participação social.

No mesmo sentido, fui convidado a ser o primeiro Secretário Executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção orgânica (CNAPO), embora eu mesmo duvidasse ser a pessoa certa na função certa. Gilberto era a favor e entusiasta da construção de uma Política e de um Plano nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, lançados no Auditório do Anexo do Palácio do Planalto, com a presença de 4 ministros, inclusive o da Agricultura, dos movimentos e organizações sociais, Política e Plano enaltecidos em diferentes solenidades pela presidenta Dilma.

Em Brasília, Gilberto ajudou a criar um Grupo de Oração, que se reúne, com apoio de Marcelo Barros, para orar, repartir as dificuldades da vida e, principalmente, expressar e reafirmar a fé, jamais perder a perspectiva de vida e os compromissos com os mais pobres e trabalhadores, naquele mundo difícil que é Brasília e tudo que envolve o governo federal.

Conto tudo isso para dizer que sei do que e, especialmente, de quem estou falando e sobre quem presto testemunho.

Gilberto é um desprendido, eu diria, um obstinado pelos mais lascados e oprimidos, seja eles quem forem e onde estiverem. Foi a favor a vida inteira por políticas que tornassem os pobres e trabalhadores donos de seu nariz, protagonistas, com direitos assegurados, com pão na mesa, educação, vida digna. E consciência cidadã. Sempre foi, nos governos Lula e Dilma, quem mais se empenhou em promover as políticas sociais, a preocupar-se, por exemplo, com os catadores e recicladores, com a população em situação de rua, com as pessoas com deficiência, com os que passavam fome ou estavam desempregados, com os sem terra e os sem teto . Também em situações particulares, no dia a dia, como, por exemplo, com Lucas Neres (recentemente falecido, ver meu artigo A VIDA E A LUTA POR VIDA), entre outros tantos, que ele ajudou em tudo que era possível. Certo Natal, de última hora, soube que eu estava sozinho em Brasília, convidou-me amorosamente para partilhar a ceia com sua família e orar em sua casa, para aplacar minha solidão.

Este é Gilberto Carvalho, sempre cuidando mais dos outros que de si, sempre disponível,  amigo dos amigos, companheiro dos companheiros, sempre junto de quem mais precisasse. Sempre olhou primeiro para os outros, dedicou seu olhar amoroso para os que mais precisassem de sua mão, de seu amparo, de seu gesto bondoso e amigo. Quem o conhece mais de perto, e mesmo quem o conhece mais de longe, sabe dessas suas virtudes e qualidades, desse jeito de ser e agir, difíceis de encontrar em tal grau em qualquer ser humano.

É, pois, com justa indignação que quem o conhece recebe as mais recentes denúncias. A vida e a história, a Justiça, se for Justiça, haverão de repor a verdade, que triunfará sobre a mentira, as calúnias e a injustiça. Que se apurem os fatos e a corrupção, sim, mas em toda sua extensão, e de todos, e com o mesmo rigor, e não se atirem na lama os nomes e condenem previamente inocentes como se criminosos fossem, enquanto os que encheram os bolsos com milhões e bilhões surgem faceiros em suas mansões, zombando dos pobres e dos que vivem do seu ganho e salário.

É meu testemunho sobre um amigo, um companheiro, um irmão.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em dezenove de maio de dois mil e dezessete

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