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‘Tem as características de um herói brasileiro’, diz autor sobre personagem de ‘Caso das Mãos Amarradas’

Rafael Guimaraens autografa livro sobre o “Caso das Mãos Amarradas” | Foto: Fernanda Canofre/Sul21
Rafael Guimaraens autografa livro sobre o “Caso das Mãos Amarradas” | Foto: Fernanda Canofre/Sul21

Por Fernanda Canofre no SUL21

Quando o corpo de um homem de 30 anos foi encontrado por um agricultor na Ilha dos Flores, em Porto Alegre, no dia 24 de agosto de 1966, a ditadura militar não imaginava que havia deixado suas impressões digitais em público. O agricultor João Gomes Peixoto ia ao armazém buscar mantimentos quando sentiu um cheiro acre vindo da enseada do Rio Jacuí. Pouco depois, seu vizinho, Leci Batalha se juntou a ele e os dois encontraram boiando nas águas um torso com as mãos amarradas às costas.

A notícia começou a correr os jornais do Rio Grande do Sul. Quem era o homem encontrado no Jacuí? Por que ele tinha as mãos amarradas? A contra-informação do regime já operava: o jornal Zero Horapublicava que uma das hipóteses trabalhadas pela polícia, “muito plausível”, era de que o homem “tenha participado de uma gangue de ladrões e delatado os companheiros”. No segundo ano do regime inaugurado com um golpe, a conta dos militares acumulava 66 denúncias de tortura e dois mortos. Um deles, morreu preso: o Sargento Manoel Raimundo Soares. O homem encontrado no rio pelos dois agricultores.

Prestes a completar 50 anos da morte de Manoel Raimundo, o jornalista gaúcho Rafael Guimaraens lança agora o livro “O Sargento, o Marechal e o Faquir”. A obra, um “romance político-policial”, como ele mesmo a define, é produto de 10 anos de pesquisas, 40 anos de interesse no personagem do Sargento e outros tantos da experiência jornalística, cunhada em um dos maiores feitos do jornalismo nacional: a Coojornal.

No livro, documentos oficiais e entrevistas com companheiros de Manoel Raimundo e sua viúva se mesclam com a narrativa policial para contar a história da vida de um Sargento que escolheu resistir e virou símbolo dos porões da ditadura com sua morte.

O caso nunca foi esclarecido. A versão mais aceita para a morte do Sargento, que vivia clandestinamente em Porto Alegre preparando a resistência, é de que os soldados encarregados de torturá-lo tentaram afogá-lo – “dar um caldo” – e acabaram perdendo o corpo no rio. Depois de meses negando que Manoel estivesse preso na Ilha do Presídio, as cartas que ele conseguiu enviar à mulher, Betinha, viraram um documento contra o regime e suas mentiras. Depois de simularem a soltura de Manoel, eles tinham de desaparecer com ele.

 Betinha (adolescente) - Acervo de família
Betinha (adolescente). (Acervo de família Manoel Soares)

 Betinha fez da busca por punição à morte do marido a causa de sua vida. Em 1973, ela entrou com o processo contra o Estado brasileiro. Só quando conseguiu o reconhecimento oficial do crime, 30 anos depois, é que conseguiu descansar. Na porta da casa dos dois, como Rafael lembra no livro, os chinelos de Manoel sempre esperaram que ele voltasse.

Ela não teve de tempo de ver, à beira do Guaíba, a escultura inaugurada no Parque Marinha do Brasil em 2011, que lembra o assassinato e a memória de Manoel Raimundo.

Sul21 conversou com o autor no lançamento oficial do livro – publicado pela editora Libretos -, na última quinta-feira (11), na Fundação Cultural Ecarta, em Porto Alegre. Um dos prédios na Avenida João Pessoa por onde o cortejo-protesto com o corpo de Manoel Raimundo Soares passou pedindo fim ao regime que ainda seguiria por duas décadas.

Sul21: Rafael, tu já pesquisas esta história há dez anos e agora chega o livro. Como começaste a te interessar pelo Sargento Manoel Raimundo Soares?

Rafael Guimaraens: Eu conheço essa história há muito tempo, há uns 40 anos, desde que eu trabalhava na Coojornal – que foi o primeiro jornal a tratar do assunto [como crime militar]. Mas de uns tempos para cá, eu também participei de um episódio do “Histórias Extraordinárias”, da RBS TV, que se chamava “Cartas da Ilha”, sobre as cartas que o Manoel Raimundo Soares enviava para a sua esposa que estava no Rio de Janeiro. Ali comecei a me interessar pelo personagem. Eu conhecia a história, mas comecei a pensar: quem é esse personagem que escreve cartas tão bem escritas – do ponto de vista do vocabulário e gramatical – e tão amorosas?

Cartas escritas para Betinha - Acervo de família
Cartas escritas para Betinha. (Acervo da família Manoel Soares).

 Então, fui pesquisando, mais por curiosidade, e me deparei com um personagem extraordinário. Uma pessoa muito simples, de uma origem muito humilde, pobre, de Belém do Pará vai para o Rio servir ao Exército e acaba criando uma trajetória fruto da sua força de vontade. Ele era um autodidata, uma pessoa muito inteligente, homem que se tornou culto pela sua necessidade de assimilar conhecimento. E muito sensível ao ponto de gostar de música clássica, o que não era comum para pessoas da sua origem. Manoel se tornou líder dos sargentos e uma figura muito importante e muito marcante, muito lembrada pelos companheiros.

Sul21: Tu descreves teu livro como “romance político-policial”, mas ele é baseado em uma história real e tem um forte fundo histórico. Como foi o processo de pesquisa e produção? Chegaste a fazer entrevistas com pessoas que conviveram com o Sargento?

Rafael: Sim, entrevistei os companheiros dele. Muitos deles estão vivos, tem perto de 80 anos, a idade que ele teria. Durante o processo de feitura daquele episódio da RBS, eu tive acesso a uma gravação da sua viúva, pouco antes de ela morrer, muito longa e onde ela conta muitas coisas sobre a vida deles. Muita pesquisa, fui buscar informações no Exército, a ficha dele, os IPMs (Inquérito Policial Militar) que ele passou a responder quando começou a participar do movimento dos sargentos e questionar a estrutura militar.

Então, foi um trabalho basicamente jornalístico, mas que eu resolvi contar, como fiz em outros livros, com uma linguagem “político-policial” para atrair mais leitores. Não apenas aqueles leitores que conhecem História e se interessam por assuntos de direitos humanos, mas um público maior, que pode ler como se fosse um fato ficcional, que não existiu, mas que na verdade, infelizmente, existiu. É uma tragédia muito grande, mas nela também existem personagens marcantes. Valeu a pena trazê-los a tona.

Sul21: Falando em personagens, um dos personagens títulos do livro, o Faquir, que teria dedurado o Sargento, não é uma figura muito conhecida quando se fala deste caso. Como tu o descobriste?

Rafael: Ele está no processo. Ele era conhecido porque era mencionado nas cartas, mas ninguém nunca deu bola para ele. Ninguém conhecia o cara. Tanto que não se sabia porque [o Sargento] foi preso em frente ao Araújo Viana, por exemplo. Foi porque esse cara [Faquir], era pintor de cenários e estava pintando cenários para uma temporada lírica ali.

Sul21: Eles eram próximos? Qual era a relação entre os dois?

Manoel Raymundo em 1955, com o uniforme do Exército. - Acervo de família
Manoel em 1955, com o uniforme do Exército. (Acervo da família Manoel Soares).

 Rafael: Não, não eram próximos. O que aconteceu é que o Sargento estava envolvido em movimentos de resistência armada à ditadura, tentaram por duas vezes fazer uma sublevação dos quartéis aqui [no Rio Grande do Sul] para resistir, parte de um acordo que eles tinham com o [Leonel] Brizola. O Brizola acreditava que ainda tinham nos quartéis elementos brizolistas para sustentar um contra-golpe.

Eles – os sargentos – estavam aqui para isso, mas fracassadas essas tentativas, eles iam embora. Iam embora para a Serra de Caparaó, [em Minas Gerais], onde iam fazer um movimento de guerrilha. Mas ele, Manoel, resolveu fazer uma última ação que era uma panfletagem contra o Castelo Branco. Ele não quis envolver seus companheiros, perguntou quem poderia ajudar e indicaram o Edu Rodrigues, que era um cara informante da SNI (Serviço Nacional de Informações), mas que estava infiltrado na esquerda. Depois ele participou da campanha do Sereno Chaisepara a prefeitura, conhecia todos os caras e se apresentava como um cara de esquerda. Ele tinha uma vinculação com os sindicalistas da Carris, que era um sindicato muito atuante na época, e nesses caminhos o Sargento chegou até esse Edu.

Na verdade, [o Sargento] ia imprimir os panfletos, entregaria para o Edu e iria embora. O Edu seria quem distribuiria, armaria o esquema de distribuição. Só que, na verdade, o Edu preparou essa armadilha, na qual o Manoel Raimundo foi preso. Esse Edu era um faquir, era o Príncipe Aladin, um faquir com uma carreira fracassada. Eu também me interessei por esse personagem, resolvi ir atrás dele. Apesar de ser uma figura obscura, acho que vale a pena trazer essas figuras…Os delatores, que ficam só ali, se movendo nas sombras.

Sul21: A morte do Sargento Manoel Raimundo Soares, o “Caso das Mãos Amarradas”, é uma história muito conhecida e emblemática. Mas a vida dele, apesar de ele ter sido um líder do movimento dos sargentos, pouco aparece nos livros de História. Por que tu achas que nunca se contou essa história antes com profundidade, ao contrário de outras figuras da resistência?

Rafael: Acho que pela origem humilde dele. Ele veio para cá solitário, tinha a mãe em Belém, dois irmãos menores e veio para cá. As relações dele se limitavam a sua esposa Betinha – que também era muito pobre – e aos outros sargentos. Acho que foi por isso, ninguém se interessou em saber quem era e ficou por “o sargento expurgado do Exército”. Eu tinha essa visão assim até começar a ter contato e ver que era um personagem que valia a pena trazer à tona. Acredito que ele tem todas as características para ser tratado como um herói brasileiro.

Ele é uma pessoa que poderia ter uma trajetória tranquila. Era sargento, era um bom soldado, as fichas dele indicavam uma pessoa disciplinada, que poderia ter uma carreira tranquila. Eu tive acesso a páginas e páginas delas. Mas a sua inteligência, sua cultura, sua capacidade de indignação falaram mais forte e aquele período também trazia isso. Era muito intenso, tudo estava em disputa na sociedade e os sargentos também queriam mais dignidade, mais direitos. Só que ele superou um pouco essa luta específica dos sargentos, passou a se integrar com a UNE (União Nacional dos Estudantes), com a CGT (Central Geral de Trabalhadores), com as Ligas Camponesas, com a Frente Parlamentar de Esquerda – liderada por Brizola e que tinha Paulo Schilling como operador. Ele suplantou a luta específica, para participar de uma luta geral por democracia, por reformas de base, onde o povo fosse contemplado. E chegou ao ponto de arriscar a própria vida. Por isso, eu o considero um herói.

Cortejo e enterro do sargento Manoel Raimundo Soares - Acervo da família.
Cortejo e enterro do sargento Manoel Raimundo Soares. (Acervo Libretos)

Sul21: A morte dele também é emblemática porque foi a primeira vítima da repressão que veio à tona. A partir dela, os militares não podiam mais esconder que praticavam tortura e logo no início do regime, dois anos após o golpe.

Rafael: Exatamente. Ele ficou preso na Ilha [do Presídio, no Rio Guaíba] ilegalmente, em torno de cinco meses. Naquela época havia ainda o habeas corpus, as pessoas entravam com habeas corpus e aqui as forças da repressão diziam “não, não tem ninguém com esse nome preso”. Até que não puderam mais esconder ele.

Sul21: Mas as cartas que ele enviou do presídio criavam um rastro de onde ele estava?

Rafael: Ele mandava as cartas, fez amizade com os guardas, mas ninguém sabia que elas estavam saindo. A primeira carta foi um estudante, Luiz Renato, que estava preso com ele e foi solto com habeas corpus, que levou até a viúva com instruções para que ela pudesse pedir o habeas corpus. Daí eles não puderam mais manter ele preso, simularam uma soltura, mas nunca o soltaram.

Eu acredito que foram dar um caldo nele e o corpo escapou. Tanto que estava faltando um sapato, quando ele foi encontrado. O corpo escapou. Acho que eles não arriscariam só jogá-lo no rio. Ele poderia se safar e ir embora, mesmo amarrado. Acho que foi uma trapalhada deles [militares].

Sul21: Como o corpo foi encontrado?

Rafael: Ele foi encontrado no Rio Jacuí, na Ilha das Flores, bem ao lado da ponte de Guaíba, em uma enseada pequena. Na época, era mês de agosto, um mês de muito vento-sul. Então, isso pode ter acontecido [a morte] no Guaíba e as águas terem levado ele até a Ilha das Flores. Tem um caminho que é possível fazer isso. Mas não se sabe.

Enseada onde corpo do sargento foi encontrado - Acervo da família.
Enseada onde corpo do sargento foi encontrado. (Memorial do Judiciário do Rio Grande do Sul)

Sul21: Tu falaste que a Coojornal foi um dos primeiros veículos a falar sobre o caso, a partir da comprovação do envolvimento dos militares. Como foi a cobertura da imprensa na época?

Rafael: Na época, houve muito repercussão porque era aquele primeiro período da ditadura, quando não havia censura. Também porque o corpo foi encontrado, ninguém sabia quem era e os jornais começaram a noticiar. Um corpo, com as mãos amarradas, é notícia. Demorou vários dias até que se descobrisse que ele era militante político. Mas daí já estava nos jornais, a cobertura já estava rolando, não tinha mais como deter. Os jornais deram muita cobertura, mas às vezes, também davam ênfase à contrainformação, que os órgãos de segurança jogavam.

Começou com “quem é ele?” e veio a investigação toda, que é a história que está contada no livro. Na Coojornal, escreveram a partir da informação do envolvimento e a partir de um processo que já existia, que a viúva já tinha juntado coisas e estava tentando responsabilizar a União. Não fiz a matéria, mas acompanhei o pessoal que escreveu. Desde então, o assunto está bem perto de mim.

Sul21: Enquanto tu falavas sobre o Sargento, sobre o período de início do regime militar, do lado de fora passavam dezenas de pessoas protestando contra o governo interino de Michel Temer. Qual a importância de se relembrar essa história no atual momento político?

Rafael: No Brasil, a transição da ditadura para a democracia, foi uma transição baseada no esquecimento, que é o espírito da Lei da Anistia. Nenhuma nação se constrói, ultrapassa o período de trauma com esquecimento. Isso não acontece em lugar nenhum. Na Alemanha pós-nazista, por exemplo, havia o Tribunal de Nuremberg para punir quem foi culpado. Aqui no Brasil não. Por isso que as feridas estão abertas ainda e a desinformação leva as pessoas, mesmo jovens, a dizer que a ditadura foi boa porque essa etapa não foi vencida. Essa etapa de esclarecimento, de punição com quem cometeu crimes, não foi vencida. Então, tudo o que acontece hoje, até mesmo esse golpe que foi dado, que não foi militar, se houvesse mais cultura, se houvesse mais memória em relação a ditadura, talvez ele não acontecesse.

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