Cultura

Uma crônica sobre o samba na periferia

Por Ricardo Corrêa na Carta Campinas

Embora a vida na periferia tenha inúmeros obstáculos, nós, moradores, sempre procuramos maneiras para nos divertirmos, e o “samba de mesa” que organizamos na comunidade serve como exemplo. Esse evento, aos domingos à tarde, tem ajudado a espantar o clima pesado da “correria” no cotidiano dos moradores, afinal, conseguir o sustento da família, atualmente, está sendo heroico e desgastante.

Na praça do bairro, montamos barracas, mesas e cadeiras, e os equipamentos de som; depois de tudo organizado, iniciamos a batucada na percussão − pandeiro, tantan, tamborim − junto ao som do cavaco e banjo. Os primeiros acordes contagiam e seduzem os ouvidos mais sensíveis que passam nas proximidades da praça. Não demora, e começa a aglomeração de homens, mulheres, crianças e casais, muitos batendo na palma da mão e unindo-se ao vocal da roda de samba. O alto astral é indescritível, sendo quase impossível ficar parado. Ainda tem aqueles que arriscam um “miudinho” à la Carlinhos de Jesus, ou muito longe disto, mas o importante é não passar vontade: dance bem ou dance mal.

Em pouco tempo o local fica lotado e os frequentadores distribuem muitas risadas em meio a vários assuntos, dentre eles: baladas, futebol, “pegação”, política, trabalho, ou seja, tem conversa para todos os gostos; apesar de alguns preferirem só observar o movimento ao sabor de aperitivos e petiscos.

As crianças se divertem, aproveitando os brinquedos que há na praça: balança, escorregador, gangorra e traves para um jogo de bola. O samba é tão atrativo que diversas pessoas que assumem gostar de outros gêneros musicais participam do evento.

Os “botecos” situados ao redor da praça comemoram o aumento das vendas de comidas e bebidas; a galera que sobrevive de recicláveis também, porque muitas latas vazias são encontradas no local. É tanta alegria que até parece que os frequentadores não têm problemas, mesmo sendo por algumas horas o ambiente transcende a alma e faz sentirmos muito bem.

Nesse clima não tem diferença ser negro ou branco, pobre ou menos pobre, homem ou mulher, jovem ou idoso, estamos todos “juntos e misturados” buscando apenas a curtição.

No repertório da roda de samba tem Beth Carvalho, Candeia, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, entre outros artistas. Mas, infelizmente, às horas vão passando e quando está bem à noitinha a galera começa a se dispersar.

Muitos se recolhem para as suas casas, pois no outro dia recomeça a luta por sobrevivência. Assim, com a diminuição do público, e o horário avançado, o samba é encerrado. Às vezes penso que a energia do “samba de mesa” é um fenômeno nacional, um escape que revigora os desafortunados em qualquer lugar que ocorra.

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