América Latina/Mundo

Trump prende crianças brasileiras mas pede ajuda para golpe na Venezuela (Por Paulo Moreira Leite)

 

Por Paulo Moreira Leite

Marcada para a quarta-feira, visita do vice-presidente dos EUA Mike Pence a Manaus é uma oportunidade de luta e reflexão para lideranças e entidades empenhadas na luta pela democracia em nosso país e na América do Sul.

O episódio ajuda a recordar um dos verdades essenciais da diplomacia — a noção de que a política externa de um país é expressão coerente de sua política interna e deve ser enfrentada do mesmo modo. É uma constatação essencial, quando se recorda a relutância — e mesmo negativa — de setores considerados progressistas em denunciar as investidas de Washinton contra o governo de Nicolás Maduro, sem reconhecer uma  questão essencial em jogo, a soberania nacional.

Pence é o representante número 2 da potencia mundial que sustentou e alimenta o golpe que, depois de derrubar Dilma e abrir caminho para o saque das riquezas nacionais, mantém Lula na prisão de Curitiba, impedido de disputar eleições presidenciais nas quais é favorito absoluto.

A pauta da viagem envolve uma discussão sobre a situação na Venezuela, com a finalidade óbvia de remover aquele que é o mais duro polo de resistência ao domínio norte-americano na América do Sul.

Em 2018, o esforço para derrubar Maduro representa a reprodução, em outra  escala, em outro movimento histórico, dos golpes — em versão militar — ocorridos na região na década de 1960.

Em junho de 1966, dois anos depois da queda de João Goulart no Brasil, o presidente Artur Illia foi derrubado de seu cargo pelo golpe do general Juan Carlos Ongania. A intervenção não só abriu caminho para uma ditadura militar na Argentina, até então a segunda maior economia do continente, com um prestígio político único, mas deu oxigênio externo para consolidar o regime militar inaugurado dois anos antes no Brasil pelo marechal Castello Branco.

Com a geopolítica assegurada, Washington não teve dificuldade para derrubar o socialista Salvador Allende, no Chile, sete anos depois do golpe contra o Illia. (Submetida, na mesma época, a uma democracia de fachada, na qual apenas legendas mais ou menos conservadoras eram autorizadas a disputar o governo, com portas fechadas a lideranças de trabalhadores e aos mais pobres, a Venezuela foi poupada do ciclo de ditaduras militares).

Foi no Chile, em 1973, que  ocorreram os primeiros ensaios de guerra econômica e sabotagem aberta, a partir de Washington, em conluio com multinacionais e empresas locais, com a finalidade de derrubar um governo eleito — processo que marca o cotidiano da Venezuela de hoje com cores particularmente dramáticas.

É sem dúvida vergonhoso, mas coerente, que o governo Trump-Pence alvo de apoio e reverência de seus afilhados Temer, Aloysio Nunes Ferreira & CIA. Mesmo hoje, quando Washington mantém 49 crianças brasileiras num regime de cativeiro denunciado como campo de concentração até pela antiga primeira dama Laura W. Bush.

Levadas para os Estados Unidos por pais  e mães em busca de uma saída desesperada para — justamente — tentar fugir do regime de desemprego, miséria e da desemperança em vigor no Brasil a partir de uma política econômica favorável aos interesses norte-americanos, este  tratamento  tratamento abaixo de toda dignidade deveria merecer atos de repúdio e denuncia previstos pelo ritual da diplomacia, inclusive o cancelamento de uma visita indesejável. Nada disso.

Em mais uma demonstração de submissão absoluta por parte dos anfitriões, Pence virá cumprir uma agenda preparada pelo chanceler Aloysio Nunes Ferreira em sua passagem por Nova York, durante a 48a. Assembléia-Geral da OEA, em companhia do Secretário de Estado Mark Pompeo, cujo posto anterior no governo era de chefe da CIA.

Derrotados em 21 das 23 eleições e referendos realizados em duas décadas, inclusive na recente eleição presidencial de maio, disputada em condições econômicas especialmente difíceis para o governo, os inimigos da herança chavista não têm a menor condição de retornar ao Palácio Miraflores pelo voto popular.

Por essa razão, em vez de trabalhar para garantir apoio entre os venezuelanos, o que seria coerente do ponto de vista dos valores democráticos que adoram proclamar em discursos, sua opção real é a intervenção militar.

Convencidas de que uma nova derrota seria inevitável, os grandes líderes da oposição organizaram um boicote fechado nas últimas eleições presidenciais. Não queriam lutar pelo  voto. Queriam a campanha, a denuncia.

Esta é a lógica da política dos EUA e aliados internos.

É obvio que as denuncias de caráter humanitário, que têm base num sofrimento real imposto a população, mas escondem as responsabilidades de multinacionais, empresários e atravessadores locais, devem ocupar um lugar importante na agenda do vice de Trump.

Do ponto de vista dos demais vizinhos, a vitória conservadora na recente eleição presidencial colombiana serviu como um novo estímulo para os aliados de Washington.

Num país  onde as Forças Armadas foram reduzidas ao papel de polícia anti-drogas, à margem de qualquer responsabilidade pela defesa da soberania nacional — processo que Temer quer inaugurar com a intervenção militar no Rio de Janeiro —  Washington conta com a Colombia como a principal peça de apoio a suas operações na área.

Mas o Brasil também cumpre um papel reconhecido. A influência econômica e política de nosso país ficou estabelecida no início da década passada, quando Fernando Henrique Cardoso e Lula desempenharam um papel efetivo na defesa do mandato de  Hugo Chávez, atacado barbaramente pela mesma elite venezuelana que conta com a ajuda de  Washington para derrubar Maduro. Quando Chávez foi sequestrado e preso em 2002, o governo de George W Bush foi o primeiro a reconhecer os golpistas. Brasília agiu de outro modo.

No final do segundo mandato, FHC denunciou o golpe, contribuindo para o isolamento internacional do novo regime e o retorno de Chávez.

Lula já estava eleito, mas não fora empossado, quando, meses mais tarde,  Chávez enfrentou uma nova ameaça de golpe, dessa vez com o locaute no refino de petróleo. O futuro presidente brasileiro participou de negociações para a convocação de um referendo — previsto na Constituição — que permitiu a Chávez conservar o mandato, agora com mais vitamina eleitoral.

É essa tradição, que garantiu uma autoridade nunca vista a nossa diplomacia em tempos recentes, baseada no respeito a valores e princípios universais, que a submissão de Temer & Cia pretende quebrar.

Alguma dúvida?

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