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Ataques a Juízes em Israel revelam semelhanças de tática de Netanyahu e Bolsonaro

Juízes da Suprema Corte de Israel. 04/05/2020.
Juízes da Suprema Corte de Israel. 04/05/2020. AFP

Por:Daniela Kresch na Radio França Internacional

A polícia israelense foi acionada para investigar ameaças a juízes da Suprema Corte enquanto se acirra, no país, o embate entre os poderes Executivo e Judiciário. A pedido do tribunal, a polícia investiga um segundo caso suspeito, desta vez envolvendo o juiz Uzi Fogelman. Na segunda-feira (15), ele encontrou adesivos com a frase “Sangue judeu é barato: Suprema Corte” nos arredores de sua casa. Havia um em sua porta, um na janela e um na caixa de correio.

O caso acontece um dia depois de ameaças recebidas por outra juíza do Supremo, Anat Baron. No domingo (14), ela recebeu uma carta com a frase “Espere punição”. Ambos os magistrados foram criticados por ativistas de direita, no passado, por terem votado a favor do cancelamento da demolição da casa de um militante palestino, membro de um grupo responsável pelo assassinato de um jovem israelense.

A demolição de casas de envolvidos em atos terroristas é uma punição polêmica em Israel. Vários juízes são contrários à sanção. Para políticos e ativistas de direita, o Supremo israelense realizaria o que chamam de “ativismo judicial” em prol de posições da esquerda.

O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já afirmou isso diversas vezes. No dia 24 de maio, no começo de seu julgamento por corrupção, Netanyahu atacou a polícia, a Procuradoria-Geral e o sistema judicial como um todo. Mas ontem, ele afirmou que “é preciso ter paciência zero com quem ameaça assassinar juízes”.

No caso do juiz Fogelman, os adesivos em sua casa tinham o logotipo de uma ONG anti-imigração. A polícia, então, não teve problemas em chegar à mandante, a ativista Sheffi Paz, que prega a deportação de imigrantes ilegais africanos que estão em Israel. A líder do grupo Frente de Libertação do Sul de Tel Aviv não só admitiu ter colocado os adesivos como disse que só não havia feito isso antes porque não tinha o endereço do juiz.

Ela alegou deplorar o juiz há anos, desde que ele assinou um veredito que cancelou a detenção de imigrantes ilegais africanos em busca de asilo no país, em 2014. O veredito levou à libertação em massa de milhares de imigrantes africanos, a maioria deles moradores do sul de Tel Aviv. Residentes veteranos da região alegam se sentir incomodados com os imigrantes que, segundo eles, praticam crimes e desvalorizam a propriedade local.

O grupo que Sheffi Paz lidera já havia realizado algo similar com a presidente da Suprema Corte, Esther Hayut. E, no último fim de semana, a própria ativista colocou adesivos semelhantes nas casa de um ex-juiz, Aharon Barak, e do prefeito de Tel Aviv, Ron Huldaí. Ela chegou a postar no Twitter fotos dos adesivos colocados por ela. Sheffi já foi indiciada duas vezes por escrever grafites em prédios, incluindo a da sede da Missão Europeia em Israel.

Quem não pensa igual é inimigo

As circunstâncias são diferentes, mas há um paralelo que pode ser traçado entre as ações dessa ativista israelense contra juízes da Suprema Corte e o que aconteceu nesta segunda-feira (15), no Brasil, onde a ativista Sara Winter foi presa após fazer ameaças a um juiz, diz o professor israelense Raanan Rein, vice-reitor da Universidade de Tel Aviv e especialista em América Latina.

Ele afirmou à RFI que existem nuances nos dois países, mas que há definitivamente semelhanças em como os apoiadores do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, atacam o Judiciário.

No caso de Netanyahu, diz Rein, o primeiro-ministro incita apoiadores a atacar tribunais e juízes, mas costuma ser cuidadoso em dizer coisas explícitas para não ser acusado, no futuro, de ser responsável pela eventual morte de um juiz. No entanto, há muito em comum com o caso do Brasil.

“Os ataques aos tribunais e juízes são algo mais amplo nas investidas contra pilares da ordem constitucional liberal”, afirma o professor israelense. “Ambos os líderes atuais dos dois países também demonizam a mídia e transformam em inimigos quem não pensa como eles, além de verem críticas a seus governos como atos contra a nação como um todo”.

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