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SANTO PEDRO (Por Selvino Heck)

Estou muito triste e choroso. Estamos todas e todos muito tristes e chorosos. Ao mesmo tempo, estou alegre, estamos alegres. O Santo Pedro transvivenciou-ressuscitou dia 8 de agosto de 2020. E vai continuar nos acompanhando na luta da libertação, no amor pelos mais pobres, no sonho de uma América Latina livre e soberana, na utopia. Revisito com saudade a viagem a São Felix do Araguaia em 2014, para ver a primeira exibição do profético filme DESCALÇO SOBRE A TERRA VERMELHA. Memória, eterna, Santo Pedro, com lágrimas, e vida, vida, muita vida!

O artigo escrito então. 

SANTO PEDRO. Não sei se terei palavras suficientes nem capacidade de traduzir o que vivi/vivemos e o que senti/sentimos nos dias 2 e 3 de dezembro de 2014 em São Félix do Araguaia, Mato Grosso. Foi a primeira exibição do filme Descalço sobre a Terra Vermelha no Centro Comunitário da Prelazia, sobre a vida, a luta, o compromisso evangélico de Dom Pedro Casaldáliga, com a presença de centenas de pessoas e a presença do próprio Pedro.

O filme começa com a visita ‘ad limina’ de Pedro, bispo, ao Vaticano em 8 de junho de 1988, onde é recebido pelo então cardeal Ratzinger, depois papa Bento XVI. Na entrada do imponente prédio de imensos corredores, pedem-lhe que se vista adequadamente, isto é, batina preta, tire as sandálias e ponha sapatos. Ratzinger comenta os belos sapatos usados por Pedro. Pedro responde: ‘São presentes de Fidel.’ E seguem os questionamentos sobre sua atuação em São Félix, a defesa dos pobres e oprimidos, no caso os peões das fazendas, os índios e as prostitutas, jovens, mulheres, a Teologia da Libertação, seus textos, livros e poemas.

O filme vai contando a história de Pedro, desde sua chegada ao Brasil em 30 de julho de 1968, com 40 anos. Diz o barqueiro Josué, que leva Pedro e seu parceiro Daniel pelo rio Araguaia até sua futura casa: ‘Aqui é o fim do mundo. Vocês não têm ideia de onde estão se metendo.’ E pergunta a Pedro, que tem caneta e caderno na mão: ‘Como está escrevendo aqui?’ Pedro diz: ‘É fácil ser poeta numa lindeza dessas como esse rio.’

Pedro vai conhecendo a realidade dura de São Félix e região: os peões escravos, a morte rondando todos e todas e acontecendo por qualquer banalidade, a injustiça, a violência contra a mulher, o medo do povo ante o poder estabelecido, a aliança da ditadura com o latifúndio e os políticos, o desprezo com a vida, a pobreza, as vacilações da Igreja católica.

Pedro, na convivência com os pobres, com as e os eterna e historicamente rejeitados e excluídos, as e os sem vez e sem voz, com as e os que ocupam a terra para poderem plantar e viver, descobre a resistência popular, enfrenta os poderosos, começa a ser perseguido, é ameaçado de morte, assim como quem trabalha com ele. Alguns são assassinados, como os padres Jentel, João Bosco e lideranças de posseiros, outros são presos e torturados. 

Falou D. Adriano, atual bispo, antes da exibição do filme: ‘Um povo sem história e sem memória não pode escrever o futuro. É preciso saber quais foram as lutas, os caminhos trilhados, as esperanças. É uma saga a ser conhecida, celebrada por todos os que moram em São Félix e no Vale do Araguaia.’

Escrevi mensagem para os membros do Movimento Nacional Fé e Política: ‘Foi lindo, compas, foi lindo: primeira exibição do filme da história de Pedro no Centro Comunitário da Prelazia de São Félix. Ele, que ficaria só uma hora, resistiu a quase três horas de exibição e cumprimentou todo mundo no final. E uma coincidência incrível. O Moura, do qual tanto falamos no Seminário do Movimento no final de semana, aparece no filme como um guri jovem e cheio de ideais. Perguntei ao Paco, o roteirista catalão do filme, no jantar após a exibição, se o Moura do filme era o Moura que eu conhecera como deputado estadual constituinte goiano, fundador do Movimento Fé e Política e de quem eu falara com saudade sábado e domingo. Era.’ 

Matéria da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), coprodutora do filme através da TV Brasil, conta: ‘Olhos atentos. Ninguém queria perder nenhuma das cenas. Na plateia, pessoas de todas as idades acompanhavam a narrativa. A estudante Nágila Oliveira falou emocionada sobre o filme que tinha acabado de assistir e a importância do registro para as futuras gerações: ‘Guardei um monte de lágrimas em muitas horas. Deu para conhecer muito bem a luta dele, que vai continuar por meio desse filme, porque ela não acabou.’ Dom Pedro Casaldáliga ficou no centro comunitário até o fim da exibição. Em conversa com a equipe da EBC, o bispo, que tem dificuldade pra falar devido ao mal de Parkison, disse que tinha receio de ser retratado como protagonista da luta de São Félix e ressaltou que as conquistas foram resultado da luta e da caminhada de muitos.’

Dia seguinte à exibição, a comitiva – Secretaria Geral da Presidência, produtores do filme, equipe da EBC, Pe. Ernani Pinheiro, da CNBB, todos lamentando a ausência do ministro Gilberto Carvalho -, reunimo-nos cheios de emoção na casa de Pedro, casa comum numa rua de terra de São Félix. E, celebrando a vida e o encontro, rezamos a Oração de São Francisco, a mensagem evangélica da multiplicação de pães e peixes, um salmo.

No final, Pedro, o bispo emérito, D. Adriano,  bispo atual, nos abençoaram. Termino, emocionado, esta minha (quase) oração com o poema Nossa Senhora do Araguaia, de Pedro: ‘Senhora do Araguaia,/ comadre do dia a dia,/ senhora libertadora,/ mui servidora Maria./ Passarinha da ternura/nas muitas águas da vida,/ enche de Reino a História,/ e o rio, de poesia.’ 

Não erro nem exagero quando escrevo Santo Pedro. E faço a saudação final com as últimas palavras da Oração dos Mártires da Caminhada Latino-americana, de Pedro: Amém, Axé, Awere, Aleluia!”

Em homenagem ao santo, profeta e poeta Pedro, transcrevo um poema escrito e declamado por mim no Curso Oscar Romero, Santa Maria, janeiro de 2018: “NU SEM O ANEL DE TUCUM./ 

Saio de casa,/ algo incomoda./ Falta alguma coisa,/ há um vácuo./  Será o calçado fora de hora,/ ou duas meias de cor diferente?/ Ou o pouco cabelo despenteado?/ Ou o fecho da calça de um velho estará aberto?/ Ou, quem sabe,/ a ausência de um botão na camisa?/

Ah, esqueci o anel de tucum/ em algum lugar recôndito,/ nalguma gaveta./

Estou nu sem o anel de tucum./

Dou meia volta,/ caminho pensativo./ Circulo em casa de mamãe/, último porto,/ última noite./ Terá rodopiado para baixo/ de uma das duas camas do meu quarto?/ Larguei em cima de qual pia?/ Ou o tirei quando fui esvaziar e lavar/ a bomba e a cuia de chimarrão?/

Meu anel de tucum me faz irmão/ das e dos esquecidos e humilhados da história./Faz-me companheiro de quem não conheço ainda,/ ou encontrei pela primeira vez./Faz-me caminhar jornadas e marchas/ com quem acredita nos meus sonhos,/ quem constrói as lutas/ por um outro mundo possível,/ quem faz da igualdade o sentido da vida,/ e da justiça e solidariedade/ o cuidado de ser e viver na Casa Comum,/ quem anuncia a fraternidade da utopia e do Reino./

Sem o anel de tucum,/ estou no frio do inverno do Sul,/ desagasalhado,/ ou no calorão de dezembro,/ sem abrigo ao sol./ Estou perdido no asfalto,/ ou no meio da floresta,/ sem rumo./ Estou caminhando na estrada,/ desorientado./ Estou sozinho, sem roupa,/ perdido no espaço e no mundo./ Estou nu. 

Com o anel de tucum/ no dedo anular esquerdo,/ sou povo,/ sou guarani,/ sou Sepé Tiaraju.”  

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990) 

Membro da Coordenação Ampliada do Movimento Fé e Política

Em catorze de agosto de dois mil e vinte 

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