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Democracia em tempo de divisão (Por Martin Wolf, economista-Chefe no Financial Times)

Donald Trump e Joe Biden durante debate em Nashville 22/10/2020 REUTERS/Mike Segar

Outro dia publiquei aqui o artigo Império em transe: Trump insiste em que “vai vencer” e amplia impasse nos EUA . Agora publico este outro artigo com uma análise de quem esta bem afeto ao capitalismo e a “democracia” do império. Bem instigante, vindo de onde vem, diria eu.

Segue o artigo:

Desafio para Joe Biden é convencer a maioria dos cidadãos americanos de que ele serve aos seus interesses

por Martin Wolf

A eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos é a primeira boa notícia desde 2016, para os adeptos da democracia liberal e da ordem multilateral criada no pós-guerra, depois de anos de revezes. Ele é um homem decente dotado de compreensão instintiva dos valores que os Estados Unidos representaram, em seus melhores momentos. Supondo que os ataques de Donald Trump ao processo eleitoral fracassem, Biden será presidente. Isso trará um grande alívio. Mas é insensato imaginar que a divisão promovida pelo trumpismo foi derrotada.

Em termos mais amplos, a democracia liberal continuará sob ataque, nos Estados Unidos e em muitos outros lugares. As provas quanto a essa realidade são infelizmente claras. Pesquisas do Centro para o Futuro da Democracia, da Universidade de Cambridge, mostram que a insatisfação mundial com a democracia vem crescendo desde pouco antes da crise financeira mundial de 2008. O crescimento da insatisfação nas democracias de fala inglesa, lideradas pelos Estados Unidos, é notável.

Um dado assustador: em 2020, a respeitada organização de pesquisa americana Freedom House colocou os Estados Unidos no 33º lugar de seu ranking de qualidade da democracia, que classifica países com mais de um milhão de habitantes; isso posiciona os Estados Unidos abaixo da Eslováquia e acima da Argentina. Se levarmos em conta o histórico de Trump, a classificação não deveria surpreender. Ademais, isso aconteceu antes de sua tentativa de desacreditar o sistema eleitoral, o cerne da democracia, com suas acusações não sustentadas de fraude.

É provável que a capacidade de Biden para reverter tudo isso seja limitada, mesmo que ele certamente deseje fazê-lo. O novo presidente deve enfrentar resistência ferrenha dos republicanos no Congresso, para tentar garantir que ele e o governo federal sejam vistos como fracasso –mais ou menos como o partido tentou fazer durante a presidência de Barack Obama.

Além disso, embora Trump (talvez) tenha ficado para trás, o casamento que ele promoveu entre objetivos plutocráticos e o populismo nativista e reacionarismo social garante que alguma versão do trumpismo continue a ser a ideologia do Partido Republicano. Essa é a única estratégia viável para um partido dedicado a impostos baixos e ao laissez-faire, em uma democracia diversificada e com alto grau de desigualdade. Crucial para o sucesso desse partido é uma Suprema Corte dedicada a esses objetivos, sob o enganoso rótulo do “originalismo” [uma doutrina de jurisprudência que propõe que tudo o que a Constituição afirma deve ser interpretado de acordo com o significado pretendido no momento em que ela foi escrita].

Assim, é provável que nada de fundamental mude na política dos Estados Unidos durante a presidência de Biden. Além disso, as acusações de que a eleição foi roubada ressoarão na base de Trump. Especialmente se o Partido Republicano impedir que Biden obtenha sucesso na administração da economia, as chances de um retorno do trumpismo, e mesmo de Trump pessoalmente, são consideráveis.

Isso não significa que Biden será incapaz de fazer qualquer coisa. Pelo contrário: os poderes da presidência são imensos, no exterior e (um pouco menos) dentro do país, ainda que a Suprema Corte possa privar o presidente de alguns dos poderes regulatórios que costumavam ser atribuídos ao cargo. Um desafio imediato será a Covid-19. Quanto a isso, Biden pode ter sorte. Se a promessa de uma vacina se cumprir, ele pode desfrutar de uma vitória inicial.

Mas os democratas não parecem destinados a bloquear o sucesso da estratégia de plutocracia populista, em parte porque eles mesmos estão em situação semelhante. Também dependem de doações dos ricos, que em geral não sentem grande entusiasmo por aumentos de impostos ou regulamentação agressiva. O restante do eleitorado democrata ativo –as minorias étnicas e os defensores de posturas sociais mais avançadas– provavelmente ajudarão a manter a ira da base de Trump, formada por evangélicos e por brancos sem educação universitária.

O papel do dinheiro na política dos Estados Unidos é fundamental. Uma recente atualização de pesquisas anteriores, divulgada pelo Instituto para o Novo Pensamento Econômico, confirma que as opiniões dos 10% mais ricos da população em larga medida determinam as políticas públicas. As frustrações inevitáveis dos demais eleitores dão aos partidos seus blocos mais passionais de eleitores jovens.

Uma democracia bem-sucedida é muito mais que um conjunto de instituições. O Estado precisa servir os interesses da maioria dos cidadãos, e é preciso que os cidadãos assim o vejam. Os cidadãos também precisam compartilhar do patriotismo –um amor pelo país que transcenda as diferenças de posição social, convicção política e interesse econômico. Biden o faz. Será que os extremistas são capazes de sentir o mesmo com relação aos seus oponentes?

Se não for razoável esperar qualquer transformação no padrão político mais amplo, podemos esperar novidades quanto ao papel dos Estados Unidos no mundo? Nesse caso as mudanças podem ser maiores. Antecipo que uma presidência de Biden tente reanimar a aliança de interesses e valores entre os Estados Unidos e as demais democracias avançadas de alta renda, especialmente as da Europa. Antecipo que ele deixará brutalmente claro para o primeiro-ministro britânico a sabedoria de manter relações amistosas com a União Europeia. Antecipo que o presidente russo e seus acólitos no leste e centro da Europa voltarão a ser guardados em uma caixa com o rótulo “hostis”.

Também antecipo que Biden fará um esforço para estabelecer um relacionamento engajado mas exigente com a China, no contexto de um multilateralismo realista. Não estou tão certo de que será possível administrar o crucial relacionamento entre as duas superpotências sem risco sério de conflito. De alguma forma, Estados Unidos e China precisam aprender a se enfrentar, competir e cooperar, tudo ao mesmo tempo. Um acordo sobre o clima será especialmente importante. Na era de Trump, outros países, especialmente a China, não sofreram pressão quanto a esse assunto, depois de prometer castidade na poluição para daqui a muitas décadas, enquanto constroem usinas de energia acionadas a carvão em ritmo frenético, hoje. Mas para isso os Estados Unidos precisariam acelerar sua transformação verde. A oportunidade existe. Mas também deve necessitar de alguma cooperação do Congresso. Na situação atual, isso parece improvável.

A resposta certa à eleição de Biden é esperança sem ingenuidade. Trump testou, até destruir, a ideia de que uma superpotência isolada e determinada a mudar a ordem mundial pode fazer mais do que destroçar a própria reputação. Biden tem condições de se sair melhor, mas conflitos profundos perdurarão, no país e no exterior. A presidência dele pode terminar se provando um interlúdio decepcionante. Espero muito que não. Mas o país de Biden está profundamente dividido, e os desafios são imensos.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

Martin Wolf
Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics.

Fonte: FSP 11/11/2020

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