Porto Alegre/Racismo

ASSASSINATO DEMONSTRA QUE O RACISMO NÃO É ABSTRATO E ESTÁ MAIS PERTO DO QUE IMAGINAMOS (*)

A face mais cruel do racismo estrutural crescente nesse país está representada no assassinato de João Alberto Silveira Freitas. Nego Beto fazia compras no Carrefour e, após uma discussão, foi espancado até a morte sem reagir por dois seguranças brancos. Um extrato da mesma psicopatia fascista defendida pelo presidente e por um ex-candidato à prefeito que acha jovens, negros e pobres desqualificados para através do voto popular exercerem mandatos parlamentares. São os conceitos de humanidade sendo substituídos pela prática da barbárie numa sociedade que parece ter voltado para a Idade Média.

A justiça tem que ser feita e os criminosos devem permanecer presos, mas não é só isso. A rede de supermercados onde houve a ocorrência deve ser banida do país. Não é a primeira vez que atos de violência contra negros ocorre no Carrefour. Já vimos outros casos no interior paulista e em Porto Alegre, demonstrando que desconfiar e agir com violência contra negros não é uma casualidade e sim uma orientação. Assim como o é em outras redes de supermercados, shoppings centers e espaços públicos como a própria orla do Guaíba na mesma cidade. Quem não lembra do homem preso por décadas acusado de roubar um chocolate que não havia roubado na Lojas Americanas da rua da praia? O mesmo foi inocentado após muitos anos na prisão, mas a justiça não foi feita por não prever nenhuma reparação da empresa ou do próprio Estado em relação aos anos em que ficou recluso. Quem não lembra de outros casos na rede Zaffari que vieram à tona na imprensa e poucos dias depois foram abafados para não prejudicar a empresa? Da repressão a jovens negros no shopping Praia de Belas, na qual, uma das vezes tendo presenciado o fato denunciei anos atrás à direção do estabelecimento e aos órgãos de segurança que nunca investigaram? Quem nunca presenciou a abordagem violenta a jovens negros na orla ou em outros locais públicos da nossa cidade? E nas comunidades de periferia onde isso é ainda mais corriqueiro?

Não podemos falar de George Floyd apenas, mas também de João Alberto. O racismo não é algo abstrato e a violência racial está presente aqui, bem pertinho da gente. A justiça ao Nego Beto não será feita somente com a prisão dos criminosos. Ela será uma justiça real quando empresas racistas forem fechadas, quando um preto não tenha mais o salário menor do que um branco para exercer a mesma função, quando os responsáveis por pichações com injúria racial em universidades forem banidos das mesmas, quando o Estado brasileiro assumir uma política efetiva e mais dura contra qualquer ato racista em nossa sociedade. É mais do que na hora de irmos às ruas exigir isso e para estar nessa luta é preciso ser humano, ter senso de que não é mais possível conviver com a barbárie, o fascismo, o racismo, a lgbtqifobia e a misoginia. Somos todos Negos Betos, Joãos Pedros, Marielles, Leilas. Essa última, candidata à prefeita na cidade de Curralinhos também assassinada no dia de ontem.

(*) ANDRÉ ROSA, secretário de Formação Política do PT de Porto Alegre

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