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Em Entrevista, Enfermeiro de Manaus narra a tragédia da falta de Oxigênio e indica responsáveis

Reproduzo na íntegra A comovente entrevista do enfermeiro Elton Aleme ao Coletivo Força Tururu

ENTREVISTA: MANAUS E O COLAPSO NA SAÚDE.

É com lamento que acompanhamos as notícias vindas de Manaus com os casos de coronavírus explodindo na cidade e no estado como um todo, as UTIs superlotadas e nesta semana um colapso maior ocorreu: faltou oxigênio nos hospitais, um fato absurdo e difícil de aceitar.

O Brasil, um dos países com maiores índices de pessoas que faleceram devido a covid-19 no mundo e com uma taxa de infecção elevada tem sofrido com o descaso do governo federal, com posturas negacionistas e, segundo a ong internacional Human Rights Watch, o presidente Jair Bolsonaro sabotou o combate a pandemia.

Elton Aleme, enfermeiro e morador da cidade de Manaus, nos concedeu uma entrevista para que possamos entender um pouco do que ocorre no Amazonas, um dos estados que foi mais atingido pela pandemia da covid-19.

Coletivo Tururu: Você tem algum em estado grave na sua família devido à pandemia da covid-19?

Elton Aleme: Sim. Nesse momento tenho um sogro hospitalizado com 60% de comprometimento pulmonar, mas respondendo bem ao tratamento em virtude dos cuidados precoces que tomamos, minha sogra está hoje no 10° dia da doença, em recuperação em casa.

É importante dizer que os cuidados precoces envolvem: utilizar a máscara em todo e qualquer ambiente em que tenha mais pessoas, álcool em gel, higienizar os produtos e alimentos e roupas e calçados, evitar sair de casa, deixar as coisas supérfluas para segundo momento, alimentar-se bem,  verduras, legumes e proteínas para que o organismo tenha resistência e o vírus não consiga causar dano, trabalhar o psicológico para evitar o estresse e o adoecimento mental. São alguns cuidados.

Um tio meu também faleceu e os avós de meus filhos também, assim como alguns amigos próximos, a situação, de fato, não está fácil.

Coletivo Qual sua opinião de remédios como cloroquina e ivermectina?

Elton Aleme: Está muito claro que ainda não há medicamento que produza eficácia total e direcionado exclusivamente para combater o vírus, existem diversos estudos de especialistas que apresentam resultados controversos sobre a cloroquina, uma vez que ela atua contra um determinado tipo de patógeno, a mesma coisa ocorre com a ivermectina. A verdade é que sem estudos epidemiológicos e quantitativos sobre as ações desses e outros medicamentos não se pode afirmar, mas eu não sou contra o uso, especialmente da ivermectina, como parte de tratamento de prevenção (mas isso depende muito da indicação do médico). Já a cloroquina possui uma ação muito agressiva no organismo, em especial nos rins e fígado, motivo pelo qual não recomendo o tratamento de qualquer maneira.

Coletivo Tururu: Na sua opinião o que precisaria ser feito para mudar essa situação na cidade de Manaus?

Elton Aleme: Posso elencar pra vocês aqui vários pontos:

Proibir as pessoas de irem as ruas

Ampliar o número de profissionais na linha de frente para atender ainda nos estágios iniciais da doença, que é quando podemos evitar o agravamento pulmonar.

Ampliar oferta de medicamentos e instrumentos, (por exemplo, não adianta ter oxigênio se não tiver máscaras, conectores e dispositivos de conexão)

Abrir todas as unidades de Saúde, inclusive as UBS para que funcionem 24 horas, colocar os 11mil profissionais de saúde municipal em ação pelo menos nós próximos dois meses.

Autorizar os estudantes finalistas dos cursos de medicina, enfermagem e fisioterapia para atuarem em ações coordenadas para pacientes de casos leves e moderados para que não evoluam.

Abrir mais de um hospital de campanha em parceira com empresas e setores estratégicos, como forças armadas, defesa civil.

                                                                                                           Fotos: Arquivos do site Metropoles

                                                                                                         Foto: Arquivos da Revista Veja

Coletivo Tururu: De quem você acha que é a culpa deste colapso em Manaus?

Elton Aleme: A culpa é sistemática,

Governo federal, estadual e municipal não montou uma ação conjunta para atuarem no problema. Tudo começa em relação às medidas preventivas, o isolamento não foi defendido, as ações simples como o uso de máscara demoraram a serem implementadas como políticas de saúde pública, o município decretou ações para a pandemia que eram desfeitas pelo estado, o governo federal estimulou para que a cidade não parasse, aliás a segunda capital com o maior índice de aprovação do governo Bolsonaro.

A federação do comércio e associação do comercio foram diversas vezes a justiça e utilizaram do seu aparato para que nada fechasse, pois o comércio não podia parar.

O judiciário amazonense se omitiu e ainda está se omitindo diante do caos, diversas petições foram solicitadas ao TJ/AM para que medidas fossem tomadas por via judicial para evitar o alastramento do vírus e os pareceres foram desfavoráveis às medidas de prevenção.

Governo do Estado abriu escolas para estudantes voltassem.

Sistematicamente é responsabilidade desses atores, porém, é uma irresponsabilidade coletiva, pois muitas pessoas ignoraram as medidas de prevenção, e estimularam outras a ignorarem, ou seja, a própria população de Manaus age com irresponsabilidade, tal quais seus governantes.

Coletivo Tururu: Qual luz de esperança você tem diante de todo este caos?

Elton Aleme: Penso que ainda estamos muito longe disso tudo acabar. achávamos que em setembro do ano passado já tínhamos superado, mas nos enganamos, o Pânico de ver as situação em que chegamos é terrível.

A solução para vencermos isso depende do esforço de todos na cidade, pois ricos e pobres estão morrendo, estão se contaminando, os profissionais de saúde estão muito mais do que no seu limite, ficar em casa, é de fato uma medida essencial para evitar ou mesmo postergar novas infecções, quem tem sintomas ou teve contato não pode negligenciar, precisa buscar ajuda precoce, o mais rápido para evitar qualquer agravamento, e é necessário que possamos depositar confiança nos profissionais de saúde, especialistas e seguir as recomendações para que possamos voltar a ter tranquilidade e pararmos de enterrar tanta gente em nossa cidade

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