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Os casos mal explicados do governo Bolsonaro parecem roteiro de filme policial (Por Carlos Wagner)

No Blog Histórias Mal Contadas

Os irmãos Miranda: Ricardo (esquerda) funcionário público e o Luis (direita) deputado na CPI da Covid – 19. Foto: Reprodução

Não posso “cravar” que o governo do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), tenha virado um caso de polícia. Mas até agora a coleção de casos mal explicados parecem ser enredos de roteiro de um filme policial que prende a atenção do público. É o caso dos depoimentos dos irmãos Miranda na Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19, a CPI da Covid, que aconteceu na sexta-feira (25/06), durante 10 horas. Na ocasião, o funcionário público federal de carreira do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda denunciou que foi pressionado para facilitar o trâmite do pagamento da vacina indiana Covaxin. E seu irmão, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), disse ter ouvido pessoalmente de Bolsonaro que seu líder na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), era suspeito de estar envolvido no “rolo da vacina” – há uma imensidão de material disponível na internet. Mas posso afirmar que o perfil do mandato do presidente caminha a passos largos para se tornar um bom enredo de filme policial. Para quem não é jornalista. Os repórteres usam a palavra “cravar” nas redações para convencer o editor que tem provas e argumentos para fazer uma afirmação.

Logo após o término da longa sessão de sexta-feira da CPI da Covid, o senador Renan Calheiros, relator, queixou-se que o advogado de Flávio Bolsonaro, seu colega e filho do presidente, Frederick Wassef, estava no Senado fazendo ameaças aos senadores. Wassef defendeu-se dizendo que estava lá procurando a explicação do motivo pelo qual a CPI havia quebrado o seu sigilo bancário e telefônico. Quem é o advogado Wassef? É um oportunista que se aproximou do presidente Bolsonaro e conseguiu surfar na onda de “amigo da família”. Ele escondeu no seu sítio em Atibaia, interior de São Paulo, o policial militar reformado Fabrício Queiroz, que foi chefe do gabinete do hoje senador pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual. Na época que se escondeu no sítio, Queiroz era procurado pela Justiça porque tinha sido o operador da “rachadinha” – pegava uma parte dos salários dos funcionários do gabinete. A “rachadinha” foi o primeiro escândalo que estourou envolvendo a família do presidente – há muitas matérias sobre o caso disponíveis na internet. Queiroz também foi o elo entre Flávio e seu pai com o miliciano e ex-capitão do Batalhão de Operações Espaciais (Bope, do filme Tropa de Elite). Em 2005, Nóbrega era tenente do Bope quando foi homenageado com a Medalha Tiradentes pelo então deputado Flávio Bolsonaro a mando do seu pai. Nóbrega se envolveu com a proteção aos chefes do jogo do bicho, acabou sendo expulso do Bope e tornou-se miliciano e chefe do Escritório do Crime, como ficou conhecido o grupo de pistoleiros de aluguel que cometeu vários assassinatos sob encomenda.

Nóbrega foi morto em confronto com policiais no interior do Bahia, em fevereiro de 2020. O presidente Bolsonaro protestou dizendo que o ex-capitão do Bope havia sido executado – há matérias na internet. Um ano antes da morte de Nóbrega, dois milicianos do Escritório do Crime, o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, foram presos preventivamente acusados da morte da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Elcio teria dirigido o carro e Lessa feitos os disparos que mataram Marielle e Gomes – há abundância de matérias na internet. Lessa morava nas casas números 65 e 66 do Condomínio Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro, onde o presidente Bolsonaro morava na casa 58. O que se sabe de concreto da aproximação de Bolsonaro com as milícias se deve ao foco da sua carreira política – vereador do Rio e depois deputado federal – ter sido as famílias dos militares das Forças Armadas e das polícias militares. O fato do seu governo estar a caminho de virar roteiro de filme policial se deve muito mais à maneira como ele exerce o seu mandato: com um pé na legalidade e outro na ilegalidade. Diz desaforos para todo mundo, principalmente para os jornalistas. Desafia as leis sanitárias, como o uso de máscaras e o isolamento social, sempre que pode. Defende o uso de remédios sem efeito contra a Covid, como a cloroquina. E tornou o seu negacionismo em relação ao poder de contágio e letalidade do vírus em política de governo que é responsável por uma boa parte dos 512 mil brasileiros mortos pela Covid-19.

Como disse no início do texto: não dá para “cravar” que o governo Bolsonaro seja um caso de polícia. Mas rende um roteiro interessante de um filme que mistura no seu roteiro polícia e política. Uma pergunta: o epílogo do roteiro pode ser o caso da vacina indiana Covaxin? Ainda não é possível saber porque o caso recém começou a ser autopsiado pelos senadores e jornalistas. O que se sabe ao certo é que episódios interessantes vêm por aí sobre o caso. Tenho dito que o governo Bolsonaro é como uma montanha-russa: toda a hora aparece um caso novo que vai parar nas manchetes dos jornais. A notícia importante da manhã vira nota de pé de página poucas horas depois. Em nenhum outro momento da história recente do país um vírus matou 512 mil brasileiros. A CPI da Covid vai colocar as digitais das autoridades do governo federal nessas mortes. O destino do governo Bolsonaro está nas mãos dos senadores. O resto é o resto.

*Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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