Esporte/Mulheres

Nordeste e mulheres são destaque em campanha história do Brasil nos Jogos Olímpicos

Rebeca Andrade. Foto: DivulgaçãoPor André Rossi, RBA.

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Nordeste e mulheres são destaque em campanha história do Brasil nos Jogos Olímpicos — Desacato

Por André Rossi, RBA.

Tóquio – Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos a delegação brasileira conseguiu subir ao pódio mais de vinte vezes em uma única edição. Foram 21 no evento realizado em Tóquio e encerrado no domingo (8). São sete ouros, igualando recorde da Rio-2016, seis pratas de oito bronzes que colocaram o país no inédito 12º lugar no quadro de medalhas. As mulheres e os atletas do Nordeste foram destaque tanto na frieza dos números, quando na subjetividade que o esporte permite explorar. Vale dizer que o ano olímpico ainda não acabou. No dia 24 de setembro as competições voltam na capital japonesa para os 13 dias da Paralimpíadas.

O primeiro grande momento da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio foi com Rayssa Leal, mulher e do Nordeste. Ela é de Imperatiz, Maranhão, e conquistou uma prata do skate street. Não foi a primeira medalha do Brasil, é verdade, mas a prata de Kelvin Hoefler, no mesmo skate street, e o bronze de Daniel Cargnin, no judô, não chacoalharam o Brasil da mesma forma como a fadinha do alto de seus treze anos de idade. Por falar em judô, o segundo dos dois bronzes da modalidade foi de Mayra Aguiar. E não foi uma medalha ‘qualquer’, foi a terceira seguida dela, algo inédito para uma mulher em esportes individuais.

Potiguar na história

Ítalo Ferreira, potiguar de Baía Formosa, colocou no peito o primeiro ouro brasileiro em Tóquio. Também não foi uma medalha ‘qualquer’. Como o surfe estreou este ao no programa e a final masculina foi antes da feminina, o nordestino entra para a história como o primeiro campeão olímpico da modalidade. Aliás, dos sete ouros que o Brasil conquistou, contando o de Ítalo, quatro vieram de representantes do Nordeste sendo os outros três da Bahia: Ana Marcela Cunha, soteropolitana da maratona aquática, Hebert Conceição, soteropolitano do boxe, e Isaquias Queiroz, de Ubaitaba.

Isaquias, por sinal, chegou à quarta medalha olímpica da carreira, somente uma a menos do que os recordistas Robert Scheidt e Torbem Grael, ambos da vela. Como pretende competir em mais duas provas nos Jogos de Paris-2024, pode, ao menos, igualar o feito dos velejadores. Já o ouro de Hebert Conceição, para muitos, foi o mais espetacular dos sete brasileiros. Ele vinha perdendo a decisão do boxe para o ucraniano Oleksandr Khyzhniak por pontos até que no final do combate o filho de Salvador acertou um cruzado de esquerda espetacular e levou o rival à lona. Para se ter uma ideia do feito, uma final olímpica não era decidida por nocaute há cerca de 40 anos.

(Wander Roberto/COB)
Cruzado de ouro (Wander Roberto/COB)

Gostinho especial

O ouro de Ana Marcela foi outro bem marcante, pois além de ser o primeiro da natação brasileira na história, era a medalha que faltava para a baiana, uma das atletas mais vencedoras na maratona aquática. Ela havia ficado em quinto em Pequim-2008, não conseguiu classificação em Londres-2012 e foi apenas a décima da Rio-2016. “Mulher pode ser o que ela quiser, onde ela quiser, a hora que quiser”, disse, logo após a prova. “As mulheres estão vindo com aquele gostinho especial.”

As mulheres também brilharam na ginástica artística em Tóquio, modalidade que até então sempre tinha os homens como protagonistas no Brasil. Até o Japão todas as medalhas eram no masculino, mas Rebeca Andrade mudou o rumo dessa história. Primeiro conquistou uma prata no individual geral, disputa que consagra as atletas mais completas. Foi o primeiro pódio brasileiro feminino em todos os tempos. Não satisfeita, subiu um degrau e abocanhou o ouro no salto, sagrando-se, por consequência, a primeira brasileira campeã olímpica no esporte.

Além disso, mesmo considerando que a ginástica permite que uma atleta compita em mais de uma prova, vale o registro de que ela foi a única de toda delegação com mais de uma medalha. Martine Grael e Kahena Kunze também têm duas medalhas olímpicas, mas uma conquistada na Rio-2016 e a outra em Tóquio. Como ambas são de ouro, a dupla de velejadoras foi responsável pelo único bicampeonato olímpico do Brasil no Japão.

(Jonne Roriz/COB)
Martina e Kahena, bicampeã olímpicas na classe 49er: FX (Jonne Roriz/COB)

‘No susto’

Se o ouro de Hebert Conceição no boxe foi o mais espetacular dentre os sete brasileiros, o bronze de Laura Pigossi e Luisa Stefani, no tênis, não ficou para trás. As paulistas chegaram nos Jogos Olímpicos quase que ‘no susto’, pois estavam em uma lista de espera e só conseguiram a vaga por conta da desistência de outras equipes. A participação era tão improvável, que rendeu até histórias pitorescas. “Eu soube antes (da vaga) e fiquei sem chão, mas a Luisa estava dormindo, eu tentando ligar e ela não acordava e eu tentando ligar, mas ela não acordava e eu tinha que jogar semifinal (de um torneio no Cazaquistão). Não sabia que ia dar chance da gente entrar”, contou Laura Pigossi. “Eu estava em casa, já tinha deixado para lá os Jogos Olímpicos. Queria muito ir, mas era o último dia para ter alguma desistência e a gente estava fora na lista. Uma das primeiras pessoas que eu falei foi a Laura e a gente estava gritando no telefone”, conta Luisa Stefani. Ah! O bronze delas foi a primeira medalha da história do tênis brasileiro, em ambos os gêneros.

(Miriam Jeske/COB)
Bia, de verde, e todo o espírito olímpico resumido em uma imagem (Miriam Jeske/COB)

Por fim, vale o destaque para a boxeadora Bia Ferreira, medalha de prata na categoria leve, até 60 quilos. A brasileira era uma das maiores favoritas ao título, era vista por 11 em cada 10 jornalistas como o ouro mais certo do Brasil no oriente. Parou na final, perdeu para a irlandesa Kellie Harrington. Em meio a tresloucadas acusações de ‘roubo’ por parte dos pachecos de plantão, Bia, mesmo entristecida, mostrou que a verdadeira postura do campeão está na derrota. “Ela foi superior, eu tenho de admitir. Tem de ter o respeito. Somos mulheres, somos guerreiras, todo mundo quer ganhar, mas quem ganhou foi a melhor. Temos de aceitar. Um dia a gente ganha, um dia a gente perde. Tenho todo o meu respeito por todas”, disse, arrancando aplausos da campeã e de todos presentes na sala onde a entrevista estava sendo concedida.

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