Cultura/Música

“Legião”: O legado de Renato Russo (Por Ricardo Queiroz Pinheiro)

No Klaxonsbc”

Circulei muito nos shows do chamado rock br, sobretudo nos cantos mais obscuros. Tempo de descobertas, de viço e de entusiasmos. O Legião Urbana nunca foi uma banda que me agradou muito, mas vi duas apresentações deles no ano de 1985, ambas baseada no primeiro álbum de 1984.

A primeira delas foi numa danceteria (esse era nome usado) chamada Adrenalina, que ocupava uma fábrica desativada na Avenida Caminho do Mar, bairro de Rudge Ramos, em São Bernardo.

Maio de 1985, noite de garoa fina, fomos eu e um camarada chamado Lindomar, fã de musica, leitor de Nietszche e socialista pessimista, ver a banda que tocava incansavelmente nas “rádios rock” 89 e 97 FM. Aquele primeiro disco do Legião, o que tinha “Geração Coca Cola”, “Soldados”, “O Reggae”, “Bader Meinhoff Blues” desde sempre me soou um balaio de colagens de bandas inglesas, o que nem era uma crítica negativa para aquele país saindo da ditadura, sedento por ser “moderno”.

O cantor Renato Russo era sim diferente. A performance convulsiva e desconjuntada no palco, trazia um misto de Ian Curtis (cantor do Joy Division) e Jim Morrison (The Doors) somados ao desconforto e a timidez de Russo. As letras eram o ponto forte, repletas de referências musicais, literárias, socio culturais e a melancolia características daqueles anos oitenta.

O restante da banda tinham o competente Renato Rocha no baixo e os esqueciveis Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá na guitarra e bateria. Os dois últimos tiveram sorte em encontrar Renato Russo no caminho.

A apresentação da Adrenalina acabou na metade. Russo estava irritado com o retorno do som e reclamava a cada final de música. Após umas nove canções, desistiu de vez, um chilique básico foi o adeus da Legião à São Bernardo do Campo.

Três meses depois, voltei a uma apresentação do Legião Urbana. O lugar era um Latitude 3001, literalmente um barco em plena 23 de Maio, que havia sido um restaurante nos anos 70. Depois de uma grande reforma, que ostentou até um lago artificial,reinaugurou como Danceteria em 1984.

Era uma noite de agosto no tal Latitude, também fria, a mesma banda, e o Russo como um elemento mais destoante ainda, num lugar cheio de playboys sem propósito, numa São Paulo sem alma, que se reedita há décadas sob novas embalagens.

O detalhe mais marcante da apresentação foi protagonizado pelo meu camarada Renato (que reacendeu na minha memória, através de outro amigo presente na noite, o Alexandre Miranda), que longe de ser playboy com topetinho eighties, bêbado, caiu dentro do lago e molhado, saiu dançando feito alucinado na pista de dança. A coisa mais rock da noite.

Eu tinha dezenove anos, considerava o punk a maior revolução de todos os séculos e acreditava que o mundo mudaria pela minha vontade.

Pra não dizer que não falei das dores. A música do Legião que mais gosto até hoje, talvez a única, nem era de 1984, mas de dois anos após, do segundo álbum e dizia assim:

“Às vezes parecia que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais
Faríamos floresta no deserto
E diamantes de pedaços de vidro

Mas percebo agora que o teu sorriso
É indiferente
Quase parecendo te ferir”

Foi o que o Renato Russo me deixou.

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