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Finados: dia de lembrar que vidas poderiam ter sido salvas entre os 600 mil mortos da Covid

A CPI da Covid encontro a digital do governo Bolsonaro nas 600 mil mortes. Foto: Reprodução

Por Carlos Wagner no seu Blog Histórias Mal Contadas

Se o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tivesse feito a coisa certa no combate à pandemia da Covid-19, como seguir as normas da Organização Mundial da Saúde (OMS), vidas poderiam ter sido salvas entre as mais de 600 mil pessoas mortas pelo vírus no Brasil. Essa é uma das conclusões do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado, a CPI da Covid. Em suas 1.289 páginas, o relatório indicia Bolsonaro, seus três filhos parlamentares, Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal por São Paulo, além de ministros, deputados ligados ao governo, médicos e empresários em vários crimes – há matérias nas internet. Esses crimes serão apreciados pelos tribunais brasileiros, internacionais, Câmara dos Deputados e Senado. Mas há um crime cometido contra os parentes das vítimas que não tem como enquadrar nas leis existentes. Angústia misturada com pavor de ver o seu familiar morrer agonizando enquanto escuta e vê nos noticiários o presidente da República falando asneiras sobre o vírus.

O estilo de texto que escrevi na abertura dessa nossa conversa, antigamente, quando comecei na profissão de repórter, em 1979, os editores chamavam de “escrito com o fígado”, por falar em emoção. Na lida de repórter aprendi outra visão sobre esse estilo que me foi ensinada por um operário da construção civil. Essa é uma história que sempre repito nas minhas palestras, nas mesas de boteco e em qualquer oportunidade que tenho de falar sobre a vida de repórter. Foi assim. Em um fim de semana, eu estava de plantão na redação do jornal. Era começo da temporada de férias de verão. Nessas ocasiões, a rotina dos plantonistas das redações era contar cadáveres de pessoas mortas em acidentes nas estradas, avenidas das cidades, assaltos e brigas de gangues. Em uma cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), um jovem morreu. O assunto não renderia mais que uma nota burocrática no pé da página. Por dificuldade de conseguir informações com os plantonistas das delegacias de Polícia Civil eu acabei indo até o cemitério falar com os familiares. Cheguei na hora do enterro e um homem velho me pediu para esperar. Lembro que ele me disse o seguinte: “Aqui se inverteu a ordem natural da vida. É o filho que enterra o pai. Não o pai que enterra o filho”. Na volta para a redação lembrei que, durante a noite do acidente do adolescente, eu era um dos pais que estava em casa com o “coração na mão”, porque os meus filhos estavam soltos pela cidade.

A história que ouvi não tinha acontecido em outro planeta. Eu fiz parte dela. Claro, o leitor não está interessado nos assuntos do repórter, tenho dito nas minhas palestras. Mas nos fatos que ele relata. Agora, não podemos relatar o fato ao leitor como se fôssemos um alienígena. Um exemplo do que estou falando. Os senadores da CPI da Covid mostraram os motivos pelos quais o governo federal atrasou a compra das vacinas. Foi uma mistura de negacionismo do poder de contaminação e letalidade do vírus de Bolsonaro com os interesses de gangues formados por militares, pastores, empresários e oportunistas de todos os calibres que resultaram no atraso na compra das vacinas. Tudo está documento na CPI da Covid. Mas há um drama aí que não tem enquadramento na lei. Trata-se do sentimento de pensar que “pode ser a próxima vítima do vírus” enquanto assistia, nos noticiários das TVs, os outros países vacinando a sua população. E quando finalmente começou a vacinação no Brasil a conta-gotas, as pessoas contavam os segundos, minutos, horas e dias para chegar a sua vez. Lembro da fila da vacina. Pessoas que nunca tinha se visto na vida conversavam como se fossem velhos amigos. Há um episódio que nunca vou esquecer. Estava conversando com um grupo de jornalistas veteranos sobre coisas da profissão. Um deles falou sobre um bate-boca que teve com um dos seus vizinhos de prédio que é médico e seguidor das teorias da conspiração de Bolsonaro. Ele falou que o seu vizinho nunca perdia uma oportunidade falar mal da “vacina do Doria” – João Doria (PSDB-SP), governador de São Paulo e adversário político do presidente da República. Até que um dia o colega se irritou com o seu amigo médico e perguntou o que ele comia no café da manhã para sair de casa “vomitando ódio”.

Arrematando a nossa conversa. Como disse no título, estou usando a data, Finados, para lembrar de uma das maiores tragédias brasileiras, que é a pandemia. Por quê? Através dos anos tenho ouvido que jornalista tem memória curta. Assim que um assunto sai das manchetes a gente o esquece e uma vez ou outra o lembra. É uma verdade. Particularmente, eu nunca esqueci um assunto não resolvido e não perco a oportunidade de lembrá-lo. Muito embora o relatório da CPI esteja nas manchetes dos noticiários, vi na data uma oportunidade de falar sobre o assunto. Tenho dito que independentemente do destino do relatório perante os tribunais nacionais e internacionais, eu tenho pregado que os fatos documentados pelos senadores estarão presentes no nosso dia a dia por muitos e muitos anos. Independentemente de religião, as pessoas reverenciam os seus mortos. E em nenhum momento da história do Brasil pessoas morreram de uma maneira tão cruel como as mais de 600 mil vítimas da Covid. Muitas delas poderiam estar vivas se não fosse a teimosia do governo federal de defender teorias da conspiração, deixando de lado a realidade.

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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