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Porto Alegre 250 anos, suas referências históricas e o necessário resgate da memoria (Por Paulo Timm)

“Mas eu prefiro situar a civitas de Porto Alegre em torno da Praça da Alfândega, seja pela monumentalidade da paisagem que se desdobra até as margens do Rio onde ainda se pode ver de longe a mal conservada arquitetura em ferro dos portões do porto, seja pela intercorrência, ali de grandes acontecimentos históricos que marcariam a transformação do pacato e pobre Porto dos Casais em cabeça do Rio Grande. ” (Extrato do Artigo de Paulo Timm, que publico na íntegra a seguir:


Vivi quase quatro décadas em Brasília participando ativamente de sua consolidação, seja como técnico encarregado da definição de sua escala regional, seja como cidadão, na construção de sua escala política, seja como poeta encantado com suas virtudes.

Três saudades: Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, a quem reservei o Prefácio de um livro que ele não chegou a escrever, e Newton Rossi, a quem devo minha iniciação à Poesia e Miltão Gontijo, e o amigo do peito, com quem aprendi a ser mineiro.

Da vivência na Capital da República aprendi a ler as funções das cidades, sobretudo quando acumulam papéis funcionais com simbólicos: a “urbs e a civitas”.

Ocorre-me isso, hoje, quando saio cedo neste melancólico final de 2022, ao ver o centro de Porto Alegre. Onde está a civitas portoalegrense? Como está organizada? Qual seu nível de integração com a cidade? Está preservada? É cultuada como tal?


Para muitos o coração cívico da cidade está em torno da Praça da Matriz que ostenta um fulgurante monumento a Júlio de Castilhos, meu grande líder. Com efeito, a linha da Rua Duque de Caxias foi o eixo originário da ocupação da cidade, cujos limites iram até a Praça do Portão – portal da cidade.

Ali estão as sedes dos Poderes do Estado. Daquela elevação, ocupada por mansões imponentes, das quais sobrevive apenas o Solar dos Câmara, a sociedade descia, de um e outro lado, em degradés urbanos e sociais até as margens do Guaíba.

Sou do tempo em que o cordão que enfeixava todo esta colina se estendia dos bordéis da Pantaleão Teles à Sete de Setembro. A intensa atividade do Porto alimentava a degradação.

Meu prédio, à Riachuelo 407, ainda guardava nas manhãs o perfume pesado das “damas da noite” mais elegantes. Conheci-as melhor na adolescência precoce típica dos anos 50…

Mas eu prefiro situar a civitas de Porto Alegre em torno da Praça da Alfândega, seja pela monumentalidade da paisagem que se desdobra até as margens do Rio onde ainda se pode ver de longe a mal conservada arquitetura em ferro dos portões do porto, seja pela intercorrência, ali de grandes acontecimentos históricos que marcariam a transformação do pacato e pobre Porto dos Casais em cabeça do Rio Grande.

Ali na esquina da Caldas Jr com Andradas estava o Grande Hotel e dali até a Livraria do Globo adensar-se-ia o iluminismo portoalegrino que sacudiu a Velha República em 1930.

Consta que foi Getúlio Vargas, quando governador em 1928, quem sugeriu a publicação da Revista do Globo.

Foi dali que um alfaiate subiu a ladeira em 1891 para depor Júlio de Castilhos, que, não obstante voltaria nos braços do povo. pouco depois. para um “mandato” sob suas rédeas ou influência que perduraria muitas décadas, à custa de duas guerras civis.

Da Praça da Alfândega até o porto estende-se a Avenida Sepúlveda ladeada por quatro prédios históricos, além do atual Itaú: O Museu Antropológico, o MARGS, a Secretaria da Fazenda e o antigo prédio da Alfandega, hoje ocupado por uma unidade regional do Ministério da Saúde.

Faltam-me elementos para melhor caracterizar tais edificações. Se minha querida amiga Briane Bicca estivesse viva fá-lo-ia pra mim.

Caminho nesta curta mas majestosa avenida em busca do monumento ao fundador da cidade, em 1752, que lhe dá o nome, aliás, apelido, Sepúlveda: José Marcelino de Figueiredo. Já não o encontro. Sumiu.

Pasmem! Ao final da rua, encontro apenas o pequeno mas significativo obelisco oferecido pela colônia portuguesa na celebração do centenário da Revolução Farroupilha.

Volto em busca de outros monumentos e encontro, defronte ao Museu Antropológico uma oferenda da Guarda Nacional ao Barão do Rio Branco, assinalada pela sua frase “Em todo lugar lembro-me da Pátria”; ao lado do monumento, soltas, estas palavras meio apagadas: Acre Mirim, Missões. Pergunto-me: O que está fazendo aí o digno Barão?

Ao largo, dois marcos: À direita, uma efígie de Artigas, grande líder uruguaio, sem qualquer explicação de seu verdadeiro vulto, com os dizeres: “Aos irmãos gaúchos, do povo uruguaio”. Tudo excessivamente singelo e pouco esclarecedor. À esquerda, cercado num pequeno canteiro, outra homenagem, desta vez dos Tiros de Guerra a um eminente desconhecido: Carlos Lopes.

Volto à Praça, meio desolado com a insuficiência de cuidados com este sítio simbólico essencial da cidade e me prostro diante da monumento equestre do General Osório, Patrono da Cavalaria, grande comandante na Guerra do Paraguai.

Desde menino gostava de ver e ler o legado deste nobre combatente: “A notícia mais feliz de minha vida seria aquela que me dissessem que os povos civilizados confraternizavam queimando seus arsenais”. Oxalá, General! Mas estamos ainda longe disso.

Finalmente, reencontro, imortalizado em bronze, num dos bancos da Praça meu querido poeta Mário Quintana.

Lembro-me de Cecília Meireles: “Não sou alegre nem triste, sou poeta”. Mas verto uma lágrima. O cuore simbólico da capital de todos os gaúchos só presta homenagem à História com a “Carta Testamento” de Vargas ali encravada, muitas vezes roubada.

Mas nenhum plano de valorização de personalidades locais de projeção pública local. Nada do Brizola, nada do Loureiro da Silva, o grande Prefeito dos anos 1940, nada de Alberto Bins, nada de Lupicínio Rodrigues. Nenhuma homenagem aos açorianos. Nada sobre os negros. Nenhuma mulher…

E o Partenon Literário…?

E o Forum Social Mundial que projetou internacionalmente a cidade…?

Perdeu meu velho amigo Prefeito, Guilherme Sociais Villela, que deixou numa lápide o registro de sua obra de reestruturação da Praça da Alfândega, em 1978, a oportunidade de ter desenhado, junto da arquitetura, uma plano simbólico digno do centro cívico de Porto Alegre.

Quem o fará no futuro? O atual Prefeito, aliás forâneo, não tomou conhecimento dos 250 anos da cidade.

Quase nada aconteceu nem foi lembrado.

Não obstante, junto com Adeli Sell, ex vereador e escritor sensível aos marcos da cidade não desistimos.

Breve lançaremos um Portal Porto Alegre 250 anos com informações memoráveis sobre a cidade.

Muito pouco, mas sensíveis “à esta estranha forço que nos leva a cantar…”

PAULO TIMM, aposentado, é economista, formado pela UFRGS. Pós-Graduado na ESCOLATINA, da Universidade do Chile e CEPAL/BNDES. Foi professor da Universidade de Brasília – UnB – e Técnico do IPEA, órgão do Ministério do Planejamento, em Brasília, onde residiu por 35 anos e onde fez sua vida profissional e pública.

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